Roma, a cidade aberta
Por: Francisco Merino
Por vezes, o espaço, o tempo e a História parecem conspirar para
que uma determinada corrente artística ou ideológica saia da obscuridade e brilhe com todo o seu fulgor. O espaço é a Itália, um dos grandes
vértices criativos da Europa, o tempo é a segunda metade dos anos 40,
e a História é a da II Grande Guerra, que transformara o continente
hegemónico do mundo numa pilha disforme de escombros. A corrente
cinematográfica a sair deste cenário negro seria o Neo-Realismo e teria nas décadas seguintes um enorme impacto cultural e político. Não
seria apenas a Europa a erigir o Neo-Realismo à categoria dos principais modelos cinematográficos, mas também o terceiro mundo, que
encontrou no tom e no estilo deste género uma forma privilegiada de
exprimir os conflitos sociais e políticos que o dilaceravam. Mas se a
generalidade dos países europeus também tinha vivido intensamente o
conflito e padecia precisamente dos mesmos problemas, porque surgiu
o Neo-Realismo em Itália? Ao contrário do que acontecera na Alemanha, Mussolini não se suicidara num bunker. O ditador fascista morrera às mãos dos seus próprios compatriotas, os partigiani, pendurado
num gancho de carne e abandonado por quase todos. A oposição interna, quase inexistente na Alemanha, foi sempre uma das principais
preocupações de Mussolini – aliás, os próprios Aliados foram saudados enquanto libertadores, embora a Itália fosse inegavelmente um dos grandes perdedores da guerra. Eram estas condicionantes que davam
à partida uma inegável estatura moral aos jovens cineastas italianos,
que a Alemanha só poderia reclamar já nos anos 60. A Itália, apesar
de ter sido atravessada por uma frente de guerra, estava bem menos
destruída que a Alemanha, onde poucos edifícios restavam intocáveis,e
não tinha visto toda a sua população transformada numa massa gigantesca de refugiados em trânsito. Assim sendo, e embora a orgulhosa
cinematografia italiana tivesse assistido impávida à destruição dos seus
imponentes estúdios, a verdade é que muito do equipamento e dos celebrados técnicos italianos estavam ainda disponíveis, tal como o seu
vasto manancial de actores. Os neo-realistas dariam emprego a estes
actores e fariam actores dos muitos desempregados que deambulavam
pelas cidades. Pouco ou nada lhes interessavam os grandes estúdios
– aliás, dificilmente encontrariam melhor cenário do que o que tinham à
sua frente. A realidade tinha-se tornado infinitamente mais interessante
que as gigantescas epopeias históricas que ciclicamente enxameavam
o cinema italiano, e era ela que impelia os cineastas. Quando não havia projectores utilizava-se a luz natural e o que mais houvesse à mão.
Se não era possível fechar as ruas, utilizavam-se os transeuntes como
figurantes. Só havia uma regra: não parar de filmar!
Se tivermos que escolher o filme fundador do Neo-Realismo italiano,
o que é sempre algo falacioso e discutível, a escolha tende a cair em
Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini. O jovem realizador, que
vinha de uma família com grandes ligações ao mundo do cinema, tinha
dado os primeiros passos na realização em filmes apoiados pelo governo fascista, mas, mal caiu o regime, tornou-se no maior apóstolo do
género que então começava a despontar, o cinema do real. Foi um dos
principais pioneiros do estilo e estética do Neo- Realismo, defendendo o
recurso a actores não profissionais e recusando sempre artificialismos
ou qualquer excesso de composição, investindo antes no realismo e na
crueza das suas imagens. Rossellini começou a trabalhar em Roma,
Cidade Aberta imediatamente após o exército americano ter empurrado
os nazis para o norte de Itália, ainda a guerra não tinha sequer um fim
á vista.
O filme tem todos os ingredientes que fariam a escola no NeoRealismo: a relação umbilical com a realidade e a vida social; a preocupação extrema com o realismo, que vai ao ponto de se rejeitarem as noções clássicas de enquadramento (especialmente quando a “estética” ameaça prevalecer sobre o real); uma mensagem política inequívoca e amplamente relacionada com a miséria humana (o que teria um
amplo impacto no terceiro mundo); uma Itália profundamente devastada
e miserável, com seus edifícios em cacos e as suas gentes em filas de
racionamento, como cenário de eleição. A grande preocupação de Rossellini parece ser ilibar o Povo italiano dos crimes de Mussolini, o que
aliás seriaum tema recorrente nos primeiros anos da sua carreira. O
cenário é o duro quotidiano romano, emoldurado pela fome e pela repressão, ao ponto de Roma parecer mais a Paris ocupada que a capital
dos principais aliados europeus da Alemanha. Os protagonistas são os
partigiani da resistência, tanto os combatentes como aqueles os que
os apoiam e protegem. No meio de todos eles há uma figura que se
destaca, Pina, magistralmente desempenhada por Anna Magnani, uma
das poucas actrizes profissionais do elenco, e que se tornaria na encarnação por excelência da mulher romana. O poder de uma figura em
carne e osso, sem o recurso a artificialismos ou maneirismos interpretativos, fez com que muitos se identificassem com ela, em particular as
mulheres italianas que viam pela primeira vez as suas vidas e atribulações retratadas em celulóide. Anna Magnani tornou-se, aliás, num dos
mais queridos símbolos de Roma e numa evidência incontornável do
peso e importância que o cinema pode atingir. Nos anos seguintes o
Neo-Realismo espalhar-se-ia pelo mundo, transformando realizadores
como Rossellini ou De Sicca em autênticas estrelas, e fazendo escola
em países tão distantes como a Índia e o Brasil. O estilo “guerrilheiro”
dos Neo-Realistas, bem como a sua habilidade para trabalharem com
meios técnicos extremamente reduzidos, é ainda hoje uma referência incontornável para todos os cineastas com muito para dizer e muito pouco
com que o fazer.
Roma, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta) - 1945. Dirigido por Roberto Rossellini. Escrito por Sergio Amidei, Alberto Consiglio, Federico Fellini e Roberto Rossellini. Direção de Fotografia de Ubaldo Arata. Música Original de Renzo Rossellini. Produzido por Giuseppe Amato, Ferruccio De Martino, Rod E. Geiger e Roberto Rossellini. Excelsa Film / Itália.
O lançamento de Roma, Cidade Aberta em 1945 é considerado o marco inicial do neorrealismo italiano. Este movimento cinematográfico, que está diretamente ligado ao contexto político e econômico da Itália do pós-guerra, serviu de contraponto ao estilo de filmes que era produzido no país durante o governo fascista de Mussolini. Por mais de duas décadas toda a produção cultural do país esteve submissa à estética romântica e positivista imposta pelo regime, os filmes rodados neste período camuflava a realidade dura experimentada pela população e buscava reforçar a influência e o domínio fascista. Ao contrário destes, os neorrealistas não estavam interessados em esconder a real situação do país, pelo contrário, o propósito deles era captar a angústia, a miséria e a dor vivenciada pela parcela mais pobre e oprimida da população.
O neorrealismo começa a ganhar expressão com o fim da ocupação alemã no país. A Itália começava então a se ver livre do julgo fascista, no entanto estava completamente devastada, as desigualdades sociais tinham ganhado uma proporção inimaginável e o desemprego batia recordes, este contexto fatalista e opressivo teria sido propício ao levante de cineastas que queriam levar as câmeras paras ruas, que propunham uma revolução não só estética, mas também política, no cinema. O neorrealismo italiano bebeu da fonte de Jean Renoir, Jacques Prévert e outros nomes do realismo poético francês e influenciou direta ou indiretamente grande parte do que foi produzido na sétima arte a partir de então, é possível perceber ecos deste movimento na Nouvelle Vague francesa, no Cinema Novo brasileiro e até em clássicos hollywoodianos como Sindicato de Ladrões (1954) de Elia Kazan.
Roma, Cidade Aberta traz consigo características marcantes que estariam presentes em outras películas clássicos do movimento, como o excelente Ladrões de Bicicleta (1948) de Vittorio De Sica, lá estão as longas tomadas externas, que ilustram a situação do país, a desigualdade social, a opressão, o povo castigado, o fatalismo e a mescla de cenas reais à imagens fictícias. No entanto, ao menos ao meu modo de ver, o filme não é de todo realista, mesmo quando parece tentar ser verossimilhante o roteiro acaba caindo no melodrama, isso não diminui em nada a qualidade da obra, mas ajuda a quebrar um pouco da aura que o filme traz consigo. Alguns diálogos, principalmente um protagonizado por oficiais nazistas, me pareceram forçados demais e algumas situações chegam a ser simplórias, tamanha a improbabilidade de acontecerem.
Roma, Cidade Aberta foi rodado clandestinamente e com um orçamento bem reduzido, no entanto seu impacto naqueles que o assistiram foi devastador, penso que o que provocou tal impacto, não foi tão somente sua trama, que ao meu ver não é nem de longe seu melhor aspecto, credito tal efeito à situação na qual ele fora produzido, que é a mesma que ele almejava reproduzir. Ele é realista não por ser uma recriação perfeita de sua época, mas por ser, dentre os seus contemporâneos e antecessores, um dos poucos cuja história conferia ao espectador ao menos uma noção superficial de estar se vendo na tela. Seu maior triunfo é o fato de que ele é um filme sobre a guerra e suas consequências sem ser um filme de época, ele foi filmado, não em estúdios, mas em locações reais, com pessoas reais que vivenciaram a realidade que bem ou mal ele retrata.
"A vida é uma coisa feia, suja. Eu conheço a miséria e ela me dá medo..."
No centro da trama está Giorgio Manfredi (Marcello Pagliero), conhecido como “o engenheiro”, ele é um militante comunista que lidera ações de resistência à ocupação Alemã. Após ser descoberto pela Gestapo, ele se refugia na casa do camarada Francesco (Francesco Grandjacquet), neste meio tempo ele planeja uma forma de entregar uma grande quantia em dinheiro para outros militantes, para o financiamento de ações do comitê e para a subsistência. Francesco, o anfitrião, está de casamento marcado com a viúva Pina (Anna Magnani, memorável), que espera um filho seu, ela é corajosa e ousada e está tão envolvida com a militância quanto o noivo, seu filho Piccolo Marcello (Vito Annichiarico) personifica o lado lúdico e utópico da resistência, ele, que é apenas uma criança, já tem plantada em seu coração a semente da luta pela liberdade, tal semente representa um fio de esperança de que um futuro melhor seja possível. Don Pietro Pellegrini (Aldo Fabrizi, em uma excelente atuação), um padre simpatizante do comunismo, é quem deverá entregar o dinheiro trazido por Manfredi, pois dentre os rebeldes ele é o que menos levantaria suspeita.
Na primeira parte do filme fica evidente o contraste entre a situação instável do país e a euforia das pessoas que cercam os personagens principais, eles não estão felizes, mas demonstram uma força sobre-humana diante das circunstâncias desfavoráveis, no entanto uma tragédia muda tudo e anuncia o clima angustiante da segunda parte. O título do filme seria uma espécie de ironia à situação caótica da cidade, em tempos de guerra, o termo "aberta" era usado para qualificar regiões que não estavam tomadas pelo exército, aquelas que não tinham se transformado em campos de batalha, o que conforme mostrado no filme não era a situação de Roma. Além da degradação econômica e política, Roberto Rossellini enfatiza ainda o risco da degradação moral, durante toda a segunda parte, os personagens centrais são imersos em ponderações éticas sobre a própria conduta, a escolha feita por eles é tida como uma espécie de afirmação da coragem e perseverança daqueles que lutaram para se libertar do domínio alemão.
É inegável que Roberto Rossellini tenha sido um dos nomes seminais não só do neorrealismo italiano, mas de todo o cinema moderno, a revolução política, proposta pelo movimento do qual ele fez parte, pode ter sido relegada ao ostracismo, mas a estética permanece viva até hoje e tem servido de influência e referência para alguns dos melhores realizadores da atualidade. Hoje questiona-se a postura política do cineasta que passou de entusiasta de Mussolini a militante comunista em um relativamente curto espaço de tempo, no entanto o que não se pode negar é que ele foi no mínimo ousado por retratar a Itália daquele período sob esta ótica totalmente subversiva, se ele conseguiu alcançar de fato uma redenção, esta se deve em grande parte a este filme. Confesso que Roma, Cidade Aberta ficou um pouquinho aquém de minhas expectativas, mas ele é um clássico obrigatório para qualquer um que se proponha a compreender de forma mais ampla o cinema com expressão de arte. Recomendado!
Roma, Cidade Aberta foi o vencedor do Grande Prêmio do Juri no Festival de Cannes em 1946 e ainda recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro.







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