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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Charlie Chaplin

Charlie Chaplin

Ator e cineasta inglês

Charlie Chaplin (1889- 1977) foi um ator, diretor, produtor, dançarino, escritor e músico inglês. Considerado o maior artista cinematográfico de todos os tempos, consagrou-se pelas obras na era do cinema mudo, repletas de mímica e da comédia pastelão.

Infância
Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres, Inglaterra, em 16 de abril de 1889. Filho de artistas, logo demonstrou talento para a arte. Seu pai era vocalista e ator, já a mãe era atriz e cantora que conquistou certa reputação no campo da ópera.

Durante a infância, Charlie Chaplin enfrentou algumas dificuldades, entre elas o divórcio dos pais antes de completar três anos, a morte prematura do pai alcoólatra, seguida pela doença da mãe que acabou internada em um asilo.

Consequentemente, Charlie e seu irmão, Sydney, precisaram se cuidar sozinhos, passando por orfanatos e escolas de crianças pobres. Com o talento herdado naturalmente, os jovens subiram ao palco visando a melhor oportunidade para uma carreira.

Charlie Chaplin estreou profissionalmente como membro de um grupo juvenil chamado “The Eight Lancashire Lads” e rapidamente ganhou a consideração popular como excelente dançarino de sapateado.

Início de carreira
Por volta de 1901, quando tinha cerca de doze anos, Charlie teve a primeira oportunidade de atuar em um palco legítimo. A partir daí, começou uma carreira como comediante no Vaudeville, que o levou aos Estados Unidos, marcando o começo de sua trajetória de sucesso.

Causando sucesso imediato com o público americano, em 1910 fez sua primeira turnê. Com a trupe de Fred Karmo, foi visto por um produtor cinematográfico, se juntou a Mack Sennett e a Keystone Film Company, e no ano de 1913 deu entrada no mundo do cinema.

Entre os anos de 1914 e 1916, Charlie Chaplin realizou mais de 40 curtas, com destaque para a comédia “The Tramp” (O Vagabundo), em que incorporava o personagem que marcaria sua carreira.

O famoso personagem, conhecido como o vagabundo Carlitos, era um andarilho pobretão com as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro. Vestia um casaco firme e esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, um chapéu-coco ou cartola, uma bengala de bambu e sua marca pessoal, um pequeno bigode.

Vivendo o personagem humilde e galante, começou a encantar o mundo do cinema e a conquistar mais espaço no imaginário da população mundial.

Ator e diretor Charlie ChaplinCharlie Chaplin (1889- 1977). (Foto: Wikipédia)
Charlie Chaplin e o cinema
Após trabalhar com diversas produtoras, como Essanay Studios, Mutual Film e First National, Charlie Chaplin resolveu abriu sua própria empresa cinematográfica, fazer seus próprios roteiros e dirigir filmes.

Desejava mais liberdade e maior prazer em fazer seus filmes. Em abril de 1917, se juntou a Mary Pickford, Douglas Fairbanks e DW Griffith para fundar a United Artists Corporation. Aproveitando o sucesso de “Carlitos”, o personagem passou a ser a figura central de diversos filmes.

Criando produções com uma mescla de humor, poesia, ternura e crítica social, Charlie Chaplin explanou seu talento inicial como produtor na obra “The Kid” (O Garoto), que conta a história de um bebê que acaba ficando aos cuidados de um vagabundo.

Seguido pelo lançamento de “The Idle Class”, no qual interpretou um personagem dual, o artista inseriu notáveis obras no mercado, entre as quais destacam-se:

“The Gold Rush” (Em Busca do Ouro) – 1925;
“The Circus” (O Circo) – 1928;
Considerados clássicos, as obras lhe renderam a consideração do mais famoso artista cinematográfico da era do cinema mudo, notabilizado por suas mímicas e comédias do gênero pastelão.



O primeiro filme falado de Chaplin

Chaplin não era a favor do surgimento do cinema sonoro, desta forma, continuou a criar obras baseadas em mímicas. São dessa época:

“City Lights” (Luzes da Cidade) – (1931), que conta a história do vagabundo que se finge de milionário para impressionar uma florista cega, por qual se apaixonou.
“Modern Times” (Tempos Modernos) – 1936, sua mais célebre obra, que satiriza a mecanização da modernidade.
Durante a década de 1930 os filmes foram proibidos na Alemanha nazista, por serem considerados subversivos e contrários a moral e aos bons costumes. No entanto, as obras de Charlie representavam uma crítica ao sistema capitalista, a repressão, a ditadura e ao sistema autoritário que vigorava na Alemanha.

Charlie Chaplin apenasaderiu ao novo modelo de fazer cinema em 1940, mais de uma década depois do seu lançamento. Como o grande artista que era, logo se adaptou e continuou a produzir verdadeiras obras primas.

Sua estreia neste ramo se deu com “O Grande Ditador”, filme no qual aproveitou a semelhança do seu personagem com Adolf Hitler para colocar humor contra a celebridade e o mal do próprio ditador.

Exílio e morte
Apesar da grande popularidade de Charlie Chaplin e do sucesso de seus filmes, muitas de suas ideias eram incompatíveis com os setores conservadores da sociedade norte-americana. Anos mais tarde foi acusado de integrar o Comunismo. Perseguido pelo Macarthismo, mudou-se para a Suíça.

Mesmo vivendo como exilado, enfrentou mais desafios e continuou a produzir filmes. Em 1966, já com 77 anos, dirigiu seu último filme e único colorido, intitulado “Uma condessa de Hong Kong“, para a Universal Pictures.

Em 1972, Chaplin voltou aos Estados Unidos para receber o Prêmio Especial da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Em 1975, foi agraciado pela Rainha Elizabeth II com o título de Sir.

Charlie Chaplin faleceu no Natal de 1977, em Corsier-sur-Vevey, Suíça.




Obras de Charlie Chaplin
Além de ator e produtor, Charlie Chaplin foi escritor, dançarino e músico. Foi o autor de pelo menos quatro livros, “My Trip Abroad“, “Um Comediante Vê o Mundo“, “Minha Autobiografia“, “Minha Vida em Imagens“, bem como todos os seus roteiros.

Era um músico talentoso e, embora fosse autodidata, tocou uma variedade de instrumentos com total habilidade, além de compor e publicar diversas canções.

Sua figura é uma das principais referências do cinema mundial. A atuação e genialidade que integravam as obras, tornou o mais homenageado cineasta de todos os tempos, devido a sua inigualável contribuição ao desenvolvimento da sétima arte.

Entre suas obras, destacam-se:

“O garoto” (1921);
“Uma mulher de Paris” (1923);
“A febre do ouro” (1925);
“O Circo” (1928);
“Luzes da cidade” (1931);
“Tempos Modernos” (1936);
“O Grande Ditador” (1940);
“Monsieur Verdoux” (1947);
“Clarelight” (1952);
“Um rei em Nova York” (1957);
 “Uma condessa de Hong Kong” (1966).

Curiosidades

Chaplin era conhecido por seu perfeccionismo e a insistência pela repetição incomodava muita gente. O artista chegou a destruir os negativos do filme “The Sea Gull” (1933), antes mesmo de seu lançamento, por ter ficado desapontado com o desempenho da protagonista;
Charlie Chaplin casou-se quatro vezes. As três primeiras uniões foram com estrelas de seus filmes, das quais se divorciou com escândalo: Milded Harris, Lita Grey e Paulette Goddard. Aos 54 anos conheceu Oona O’Neill, de apenas 18 anos, com quem se casou, teve oitos filhos e viveu até o fim da vida;
Em março de 1978 seu corpo foi roubado do cemitério onde estava, tendo sido encontrado pela polícia dois meses depois;
Chaplin possui uma estrela na Calçada da Fama, a passagem de pedestres mais conhecida em todo o mundo, no qual homenageia com estrelas os principais astros do cinema, rádio, televisão, teatro e música.
Charlie Chaplin tornou-se o primeiro ator a aparecer na capa da revista Time, em julho de 1925.
Citações
A vida é maravilhosa se não se tem medo dela.

Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.

A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo.

Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror.


Luzes da Cidade

Luzes da Cidade
ou a música no cinema mudo

“O que é bom e extremamente interessante é a forma como o Sr. Chaplin usa a música nos seus filmes. Essa abordagem é bem clara a partir de Luzes da Cidade, a sua primeira película sonora. A sua maneira de integrar a música com fotografia animada é admitir os elementos auditivos como co‑estrelas dos elementos visuais e poéticos no efeito unifi‑cado final.”

Esta afirmação do compositor americano Virgil Thomson dá o mote para a apreciação da música em Luzes da Cidade, um filme sem diálogos realizado no período de ascensão do cinema sonoro. Charlie Chaplin (1889‑1977), o seu realizador e protagonista, manteve uma relação complicada com os filmes falados.
Numa entrevista de 1929 à revista Motion Picture referiu que abominava o cinema sonoro:

“Os filmes falados estão a estragar a arte mais antiga do Mundo – a arte da pantomina.
Estão a destruir a grande beleza do silêncio.
Estão a derrotar o significado do ecrã.”

Sendo uma grande estrela do cinema mudo, criadora de uma personagem famosa por não usar o diálogo, essa visão é compreensível.
A entrevista data do período em que Luzes da Cidade se encontrava em produção, atra‑ vessado pelo despoletar da Grande Depres‑ são. Num momento de intensa transformação social e cultural, Chaplin tentou conciliar o cinema mudo com a nova tecnologia de som controlando o acompanhamento sonoro dos seus filmes mudos, como Luzes da Cidade ou Tempos Modernos. Nos últimos anos de vida, enquanto vivia na Suíça, viria a escrever música para os seus filmes do período entre 1918 e
1923, processo que ficou registado em muitas fitas de áudio que integram o arquivo familiar da família Chaplin.

O cinema é uma arte marcante do século XX.
Os processos através dos quais se fixaram imagens em movimento num suporte fotográ‑ fico contribuíram para definir a nossa percep‑ ção do mundo e transformaram os nossos sentidos. Dessa forma, emergiu uma nova cultura da visualidade. Na mesma época, a gravação sonora e a radiodifusão emergiram como formas de entretenimento. O cinema sonoro resultou da confluência dessas tecno‑ logias e transformou profundamente a nossa forma de ver o mundo. O animatógrafo foi criado por vários inventores no final do século XIX e foi encarado como uma curiosidade, mas rapida‑ mente se estabeleceu como forma de entretenimento. As primeiras sessões baseavam‑se na projecção de filmes de curta duração por empresários itinerantes em espaços adap‑tados. Por vezes, os filmes eram incluídos em espectáculos de variedades, assegurando um entretenimento variado e apelativo para o público. Contudo, foi com a criação da longa‑metragem de ficção que o animatógrafo se estabeleceu como entretenimento autónomo.
Numa primeira fase, os filmes eram exibidos em condições precárias. A proliferação de salas de cinema nas primeiras décadas do século XX espelha a sua integração nas actividades de lazer das pessoas. Os espaços à disposição do público variavam de acordo com a localização, a programação e as possibilidades econó‑micas das pessoas. Alguns cinemas de bairro eram destinados às classes populares e projectavam reprises, contrastando com os cinemas de estreia, localizados nas zonas nobres das cidades e cuja arquitectura e decoração associavam sofisticação e modernidade a conforto.
As empresas cinematográficas tentaram desenvolver estratégias para melhor comu‑ nicar com o público. Em alguns casos, eram contratados actores para narrar os filmes e recriar os diálogos atrás da tela. A projecção podia ser acompanhada por música e efeitos sonoros, que dependiam do capital dispo‑nível e do perfil do cinema. Pequenas salas dispunham de um pianista ou de um funcionário que operava um piano mecânico, vulgo pianola. Noutras, a música era assegurada por um órgão de teatro, um instrumento eléc‑trico desenvolvido para esse fim. As salas mais prestigiadas recorriam frequentemente a um conjunto de câmara ou a uma orques‑tra, que actuava durante o filme e preenchia os tempos mortos e os intervalos, interpretando peças originais ou trechos adaptados.
Em alguns filmes, as produtoras enviavam listas de sugestões, relacionando a música com as cenas a projectar. Grande parte dessa música já existia, mas os realizadores podiam contra‑ tar compositores e arranjadores para realizar essa tarefa. O próprio Chaplin teve um grande envolvimento com a música dos seus filmes a partir da década de 20. Em alguns casos, selec‑cionava música para os acompanhar. Noutros,
criava os temas musicais, que eram gravados e editados aquando das estreias, maximizando o sucesso de ambos os formatos.

O desenvolvimento do microfone e dos alti‑falantes a partir da década de 20 tornou possível a captura, manipulação e difusão do som de uma forma mais controlada. Assim, a associação entre som e imagem tornou‑se mais eficaz, abrindo caminho ao cinema sonoro.
Inicialmente, o som dos filmes era gravado em disco, como no caso do Vitaphone, sistema introduzido pela Warner Brothers em 1926.
Esse sistema foi adoptado em filmes inovadores como The Jazz Singer, um marco na história do cinema sonoro. Os seus principais concorrentes eram os sistemas em que o som era armazenado na própria fita, como o Movie‑ tone. O Movietone foi comprado pela Fox Film Corporation, um dos principais concorrentes da Warner, e o sistema som‑em‑filme foi
largamente adoptado pela indústria no final da década de 20.

A disseminação dos filmes sonoros a partir da segunda metade da década de 1920 transformou profundamente o mercado de entretenimento. Ao contrário de outras actividades, a mecanização não tornou o trabalho dos músicos de cinema mais rotineiro nem os substituiu por mão‑de‑obra menos especializada. Contudo, a extinção das orquestras reduziu muitos postos de trabalho. Essa tendência acentuou‑se com a rápida adesão do público à nova forma de espectáculo. Escrevendo na edição de 21 de Maio de 1932 da revista Cinema (um periódico portuense com sede na Rua do Bonjardim), Alberto Armando Pereira refere que:

“Afinal, parece que o público se adaptou facilmente ao sonoro. É certo que a questão da linguagem desgostou muitos espectadores, que afugentou alguns outros. Mas o que é facto é que um bom fonofilme agrada hoje como agradava outrora um bom filme silencioso.”

Um cinema sem falas, em que predominavam a gestualidade e as expressões faciais dos actores, foi cedendo lugar a uma estética centrada no diálogo. Isso gerou alguma animosidade em certas personalidades do cinema mudo. Durante a rodagem de Luzes da Cidade, Chaplin chegou a afirmar: “Os meus filmes serão sempre mudos.” Daí o subtítulo provocador do filme, uma “comédia‑romance em pantomina”.

Chaplin nasceu em Londres, numa família de cantores de music‑hall. Contactou desde cedo com o mundo do espectáculo, apresentando‑se como bailarino e cantor. Artista multifa cetado, aprendeu a tocar violino e violoncelo e integrou a companhia de comédia de Fred Karno. Essa troupe deslocou‑se aos Estados
Unidos da América, onde Chaplin se fixou.
Depois do sucesso alcançado nos palcos, dedicou‑se ao cinema a partir de 1913. O sucesso foi fulminante, tendo rapidamente acumulado funções de realizador, produtor, actor e argumentista dos seus próprios filmes.
Foi proprietário de estúdios e, em 1919, fundou, com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W.
Griffith, a United Artists, uma companhia cine‑matográfica que salvaguardava o interesse dos seus fundadores num período de concentração da indústria em grandes estúdios.
Luzes da Cidade foi produzido pela United Artists. A sua rodagem durou cerca de dois anos e custou cerca de um milhão e meio de dólares, o que revela o grande investimento de Chaplin no cinema mudo. Na altura, este alimentava o sonho de fundar um estúdio para a revitalização desse género cinematográ‑
fico. O seu perfeccionismo e necessidade de controlo são revelados na edição de Inverno de 1935 de Cinema Quarterly:
“Chaplin filma entre cinco a vinte e cinco takes por cena. Em Luzes da Cidade, trezentos mil pés de filme [91.440m] foram gastos para os sete mil e quinhentos pés [2.286m] projectados na tela. Chaplin faz a sua própria montagem. Ele corta, literalmente, o filme peça a peça na sala de montagem.”
Estreado em Janeiro de 1931, Luzes da Cidade foi um dos filmes mais reconhecidos e bem‑sucedidos do realizador. Os periódicos da época elogiaram‑no, mas não o consideraram uma ameaça real ao cinema sonoro. Foi a primeira longa‑metragem sonora de Chaplin em que este idealizou a música.
“Depois de colocar música num ou dois filmes, comecei a olhar para a partitura de orquestra com um olho profissional e a perceber se uma composição estaria sobre‑orquestrada. Se eu visse muitas notas nos metais e nas madeiras, dizia: ‘há muito preto nos metais’ ou ‘as madeiras estão muito carregadas.’ Não há nada mais aventureiro e excitante do que ouvir as melodias que compomos tocadas, pela primeira vez, por uma orquestra de 50 músicos.”
O trabalho em Luzes da Cidade foi reali‑zado em parceria com Arthur Johnston, que dominava as convenções do cinema mudo e dos musicais, tendo trabalhado como pianista acompanhador e director musical das peças de Irving Berlin apresentadas na Broadway. A partitura foi orquestrada e dirigida pelo jovem Alfred Newman, que se veio a tornar uma referência maior na música para filmes, tendo recebido nove Óscares. De acordo com a crítica à estreia do filme, publicada no The New York Times a 7 de Fevereiro de 1931, “há momentos em que as notas servem quase como palavras”.
No concerto de hoje, a música será interpretada ao vivo, numa recriação da partitura elaborada
por Timothy Brook, grande especialista musical da filmografia chapliniana, em 2004.
A composição para filmes mudos envolvia a criação de trechos, chamados cues, que acompanhavam a acção. Por exemplo, Chaplin associou a canção de José Padilla La violetera à protagonista feminina. Contudo, essa habanera nem sempre é usada na presença da personagem, tendo, por vezes, um papel evocativo. A canção não foi originalmente creditada, o que desencadeou um processo judicial entre Padilla e Chaplin. Na sua autobiografia, o realizador refere ter composto “música elegante e romântica para enquadrar as comédias em contraste com a personagem do Vagabundo.
Os arranjadores raramente compreendiam isso. Queriam que a música fosse divertida, mas eu explicava‑lhes que não queria compe‑tição, queria que a música fosse um contraponto de solenidade e encanto, para exprimir sentimento sem o qual, de acordo com Hazlitt, uma obra de arte está incompleta.” Assim, a música contrastava com os clichés da época, nos quais a comicidade de acção deveria ser enfatizada pela música.
Luzes da Cidade é um filme mudo que Chaplin realizou como forma de apresentar a superioridade estética deste género em relação ao sonoro. Contudo, inseriu nele algumas referências à nova cultura do som, como a presença do microfone no discurso dos políticos no início do filme e de um gramofone na casa da florista.



Paralelamente, a descontinuidade temporal da acção é marcada pelo toque de sinos.
A edição de 21 de Maio de 1932 da revista Cinema atribui um grande destaque a Luzes da Cidade, publicando a sua sinopse. O início do filme retrata a inauguração de uma estátua.
Nesta sequência, a voz do político e de uma mulher do público são retratadas pelas inflexões de um kazoo, emulando jocosamente o cinema sonoro. As fanfarras e o hino dos Estados Unidos da América caracterizam a solenidade do acto, estragada pela presença do Vagabundo (Charlie Chaplin) que dormia na estátua. (O primeiro filme que incluía o Vagabundo data de 1913; logo, o protagonista de Luzes da Cidade era já um velho conhecido do público.) Posteriormente, o Vagabundo deambula pela rua ao som de uma valsa, enquanto dois ardinas lhe pregam partidas.
Nesse passeio, o protagonista encontra uma florista (Virginia Cherrill),que constata ser invisual. Entretanto, passa uma limusina, fazendo a florista crer que o seu cliente rico tinha partido.
À noite, o Vagabundo impede o suicídio de um milionário alcoolizado (Harry Myers), que o leva para a sua mansão. Nesta passagem, os cortes narrativos são acompanhados e enfatizados pela tensão e distensão na música. O milionário e o Vagabundo deslocam‑se a um clube nocturno, onde se dão algumas peripécias. A apresentação de bailarinos profissio nais, representando marginais no espectáculo do clube, causa alguma estranheza ao Vagabundo, desconhecedor das convenções desses espaços. A cena é pontuada pela dança frenética ao som da jazz‑band, reflectindo o espírito hedonista da época. Na manhã seguinte, regressam de carro à mansão enquanto a florista se desloca para a sua banca. Um dos momentos musicais mais delicados ocorre quando o Vagabundo compra todas as flores com o dinheiro do milionário e a florista fala com a sua avó (Florence Lee) sobre o benfeitor, que crê ser um cliente rico. Regressado à mansão, o milionário não reconhece o Vagabundo e ordena a sua expulsão. Mais tarde, e de novo alcoolizado, o milionário volta a reconhecer o Vagabundo.
Convida‑o para uma festa na sua casa, onde se ouve música latino‑americana. Um dos momentos mais cómicos do filme ocorre quando os soluços do Vagabundo são convertidos em sons de apito, remetendo para as convenções sonoras do cinema mudo. Na manhã seguinte, o milionário torna a mandar embora o Vagabundo.
O Vagabundo encontra um médico a examinar a florista e decide angariar dinheiro para a sua amada, tornando‑se varredor. No apartamento desta, lê um aviso de despejo e a notícia de um médico capaz de curar a cegueira.
Regressado ao trabalho, é despedido por ter chegado atrasado. A comicidade da cena é enfatizada pela simulação do discurso do capataz com bolhas de sabão. A maneira do Vagabundo angariar dinheiro é através da participação num combate de boxe combinado em que os competidores acordaram dividir o prémio. Todavia, o adversário é substituído por um boxeur que, após uma das sequências mais divertidas da história do cinema, o coloca KO. Posteriormente, o Vagabundo reencontra o milionário, que lhe dá mil dólares para a florista.
Nessa altura já se encontravam dois ladrões na mansão, que perpetram um roubo e fogem. As
culpas recaem sobre o Vagabundo, que é preso após entregar o dinheiro à protagonista.
O filme termina com o Vagabundo regressado da prisão. Não encontra a banca da
florista, pois esta tinha aberto uma loja com a avó. Mais tarde, tenta apanhar uma violeta na
sarjeta em frente a uma loja e logo reconhece a florista. Esta, que tinha recuperado a visão,
não identifica o benfeitor, mas oferece‑lhe uma flor fresca e uma moeda. Quando se tocam,
ela constata que o homem que a ajudou era o Vagabundo, e o filme termina com esse encon‑
tro comovente, baseado não na imagem nem no som, mas no tacto. “You can see now?”

JOÃO SILVA, 2017

Charlie Chaplin | Luzes da Cidade (City Lights) - 1931 - Legendado


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