André Bazin e o plano-sequência do neo-realismo italiano: flutuações entre a experiência da realidade e ficção do personagem Umberto D
Por: Mauro Luciano Souza de Araújo
Resumo:
Vista com olhos de hoje, a relevância maior dos primeiros usos do planosequência, uso este alertado por Bazin, é o início do planejamento moderno no
cinema – a elaboração de um plano fotogênico, porém impuro, revelador, autosuficiente e crítico como iniciador da modernidade do audiovisual. Por isso também a
importância de remeter-se aos escritos bazinianos, na intenção de compreender as
relações possíveis entre tempo e espaço, e as mudanças de perspectiva entre a
versão clássica e moderna no cinema. A observação aqui feita tem como foco a
relação entre o personagem, as nuances do cruzamento entre ficção e
documentário, e a composição desses parâmetros no filme moderno.
O crítico renomado francês André Bazin promulga o plano-seqüência não
somente como o parâmetro que libera uma ambigüidade própria de uma
fenomenologia mundana, no campo teórico que de muito deve aos estudos do
existencialismo e da filosofia de Sartre e Merleau-Ponty. O uso da larga duração do
plano, com influência da durée (duração) bergsoniana, dá ao filme o caráter temporal
da contemporaneidade, fazendo-nos supor o cinema-tempo que foi adotado
posteriormente por Gilles Deleuze, com a observação dos mais diversos parâmetros
do quadro caracterizado pela mise-en-scène planejada. Essa investida filosófica dá
parâmetros à observação que se fará neste trabalho no sentido do uso espacial do plano e de uma adequação deste ao personagem, no caso visto o filme de Vittorio
De Sica, Umberto D, que também teve críticas desenvolvidas por Bazin no periódico
France Observateur. Neste caso, o personagem de cinema Monsieur Hulot que é
Jaques Tati,1
faz parte de uma realidade, do real a ser observado.
Bazin estuda e teoriza, mesmo em artigos publicados separadamente em
revistas, aspectos como a imperfeição, impureza e crueldade do cinema de sua
época (pós-guerra) – a ética humanista sendo evidenciada mediante a narrativa
audiovisual. Por isso a crítica aos estilos de narrativas fragmentadas e muito
pautadas pela montagem, como nos casos mais ilustrativos da indústria norteamericana e da propaganda soviética, envolvidas por um ideologismo prejudicial ao
fenômeno aberto. Para André Bazin, a montagem retiraria a essência realista do
cinema, fazendo do filme, assim, algo mais iconográfico, anti-documental. Neste
caso, o plano-seqüência em Bazin é também um paradoxo estilizado usado pelo
autor da obra, que oscila entre a História2
real que faz parte da imagem gravada e
ao mesmo tempo a ilustração atemporal da humanidade – uma imagem eterna,
como também pontuada na história narrativa que ali está sendo gravada, seja em
uma ficção ou em uma não ficção. Assim que se produziu um cinema moderno neorealista italiano, e assim se viu o cinema após a teoria de autores como André Bazin,
Siegfried Kracauer e Cesare Zavattini.
Com Zavattini, roteirista de filmes como Desvio de Conduta (Vittorio De Sica,
1946) e Ladrões de Bicicleta (Idem, 1948) o realismo teve sua maior defesa.
A característica mais importante, e a inovação mais importante, do que é
chamado de neo-realismo, ao que parece a mim, é terem percebido que a
necessidade da "história" era só um modo inconsciente de disfarçar uma derrota humana, e que o tipo de imaginação que ela envolvia era
simplesmente uma técnica de sobrepor fórmulas mortas em cima de fatos
sociais vivos. Agora foi percebido que realidade é imensamente rica, que ser
capaz de olhar diretamente para isto é o bastante; e que a tarefa do artista é
não fazer as pessoas serem movidas ou indignadas por situações
metafóricas, mas os fazer refletir (e, se você gosta, ser movido e indignado
também) sobre isso que eles e outros estão fazendo, nas reais coisas,
exatamente como elas são (Zavattini, 1966: 217).
Para o teórico e roteirista italiano, as guerras haviam mostrado como não
haveria mais espaço para fábulas e ficções baseadas na dramaturgia burguesa em
narrativas, e em vista disso, a realidade crua deveria sobrepor qualquer tipo de
história narrada. Nisso que uma História seria privilegiada. Contra a idéia de que em
planos longos a narrativa desse o efeito de tédio no espectador, o neo-realismo de
Zavattini tinha a função de mostrar um cotidiano social envolvido por cenários reais
destruídos, com pessoas sem perspectiva de vida em uma situação de miséria por
conta das guerras.
Em um campo da composição artística, elementos de linguagem também
denotam tal prolongamento histórico. A larga duração do plano-sequência, também
tem o elemento paradoxal inerente ao fluxo da ambiguidade de significados do
mundo, já que a fotografia liberaria o aspecto barroco da imagem, que ficaria entre o
pictórico estático generalizante e o movimento subjetivo. Este paradoxo é
comentado:
A polêmica quanto ao realismo na arte provém desse mal-entendido, dessa
confusão entre o estético e o psicológico, entre o verdadeiro realismo, que implica exprimir a significação a um só tempo concreta e essencial do mundo,
e o pseudo-realismo do trompe-l’ oeil (ou trompe l´esprit), que se contenta
com a ilusão das formas. Eis porque a arte medieval, por exemplo, parece
não sofrer tal conflito: violentamente realista e altamente espiritual ao mesmo
tempo, ela ignorava esse drama que as possibilidades técnicas vieram
revelar. A perspectiva foi o pecado original da pintura ocidental.
(Bazin, 1991:
21)
Esse ponto citado por Bazin, já investigando o realismo como preparação
para um novo realismo que viria no cinema, seria a porta de abertura para uma
ontologia idealista da imagem fotográfica, e por conseqüência para o seu realismo
imanente. A pergunta que se fazia em sua época já posterior à vanguarda
cinematográfica seria algo como "pra que serve a fotografia, além da beleza que ela
nos proporciona?". Com a relevância da fotogenia o belo estético no cinema ganha
em novas formas, em novidades, deixando a narrativa clássica em uma tangencial
parábola do que chamaríamos de novo viés canônico artístico que se edificava, sob
o signo do audiovisual, que é o modernismo. Em outras palavras, as invenções das
vanguardas. Neste âmbito, a arte moderna, junto a qualquer outro tipo de expressão
moderna, fragmentava a vida em certa medida, ao mesmo tempo elaborando uma
fruição contemplativa distante da antiga – da interpretação clássica do renascimento,
sob o nome de perspectiva, no texto baziniano. O modernismo foi, no mundo, uma
fuga da perspectiva tradicional renascentista, e uma abertura para formas artísticas
antes consideradas “primitivas”, desde o Dadaísmo, o Surrealismo, o cubismo de
Picasso revisitando a pintura do continente africano, ao olhar ingênuo em etnologia
de Robert Flaherty do povo Inuit, em seu filme icônico do documentário, também
visto e discutido por Bazin, Nanook do Norte (1929), na alimentação da beleza
impura no ecrã de artistas distantes do formato industrial da magia cinematográfica
hollywoodiana – a saber, grande parte dos europeus que entravam no ramo do
cinema. Essa abertura era justamente o contrário da visão ideológica do audiovisual,
como vocação primeira os filmes da União Soviética, com a propaganda do governo
revolucionário – se vistos sob esse ângulo, filmes de Vertov, Eisenstein, Pudovkin e
até mesmo Dovjenko ainda não haveriam chegado ao tempo crítico e contemplativo
que teriam os filmes neo-realistas italianos, deixando a dever à visão do fragmento do mundo –, um dos pontos de vista da construção narrativa do cinema russo. Por
essa razão, na linha baziniana que vai contra a montagem ilusória e manipulativa,
não haveriam ainda chegado ao modelo realista-crítico a noção horizontal do mundo
perceptivo em aberturas sígnicas, modelo sujeito à discussão social.4
A polêmica
ressurge mais tarde, de um modo mais atual, com Deleuze, na distinção entre
Cinema Movimento (clássico), Cinema Tempo (moderno).
A gag e o neo-realismo em Umberto D
No filme Umberto D (Vittorio de Sica, 1952), retomando também aquilo que
escreveu Zavattini, o personagem principal é um velho aposentado de Roma que
não tem meios de subsistência, sobrevivência. Vive em uma pensão e está prestes a
ser expulso. Ganha insuficientemente do governo, e possui somente um cachorro
como companhia. Isso que seria um exagero narrativo de compaixão e empatia pela
miséria, mostra-se como uma revelação do próprio personagem. Bazin explicaria
que o tema de Umberto D, como nos filmes neo-realistas em geral, vem à frente da
história da obra.
No plano do roteiro, esse tipo de tema corresponde a um roteiro inteiramente
fundado no comportamento do ator. Já que o tempo verdadeiro do relato não
é o do drama, mas a duração concreta do personagem, tal objetividade não
pode se traduzir em mise-en-scéne (roteiro e ação) senão através de uma
subjetividade absoluta. Quero dizer que o filme se identifica absolutamente
com aquilo que o ator faz, e somente com isso. (Bazin, 1991: 293).
Sendo desta maneira, o ator Carlo Battisti deu tom a seu personagem – nisso
não há nenhuma novidade formal. A questão se coloca na forma como Zavattini
tratou seus projetos.
De fato, Paisá, Roma – Cidade Aberta, Sciusciá, Ladrões de Bicicleta, Terra
Trema, todos contêm elementos de uma significância absoluta – eles refletem
a idéia de que tudo pode ser recontado; mas o senso continua metafórico, porque existe ainda uma história inventada, não no espírito documentário. Em
outros filmes, como Umberto D., a realidade como fato analisado é mais
evidente, ainda que a apresentação seja tradicional. (Zavattini, 1966: 21-22).
Talvez por essas afirmações, Umberto D já apresente algumas inovações ao
estilo neo-realista, ainda que a troca entre realidade e ficção entre personagem e
ator dê o tom de improviso, tal como alertou Zavattini. Arriscamos aqui a formular a
estilização cômica do filme, como paradoxo à face documental reivindicada pelo
roteirista. Mesmo diante de um exagero, Bazin chama a atenção ao fazer uma crítica
à visão deste, no caso de se ver na criação da obra um ambiente dramatizado, com
más interpretações sentimentalistas, ou como um “apelo pudico à caridade social”
(1991: 293). Bazin diz ser Umberto D um “relatório cinematográfico”, ou seja – um
documento cético em estilo, ainda que haja a aqui citada estilização humorística do
personagem, que causa compaixão. Além de vê-lo também, claro, como “Uma
grande obra” (título de seu texto sobre o filme).
Continuando a formulação da comicidade neste filme escolhido. A
identificação entre Umberto e seu amigo afetuoso, o cão, faz eco a Chaplin e
Carlitos, em sua comédia de um vagabundo. Não só pelo andar desengonçado do
velho, mas pela trilha sonora do filme, que acerta na música circense, dando o tom
mais cômico da tragédia social. O trecho em que o cão pede esmolas segurando o
chapéu, em que Umberto mente no vão do hospital para lá ficar mais tempo, a
conversa dele com velhos amigos a respeito do tempo, a venda do relógio (o próprio
tempo em forma concreta, que anda sem muito oscilar em clímax ou movimentos de
ações) como uma metáfora à morte, e como uma indicação direta da não
necessidade de tempo algum nos remete tanto a uma metalinguagem
cinematográfica ao neo-realismo, quanto a uma tragédia do momento vivido. Se
Umberto não precisa do tempo, também não precisaria o espectador, que assiste ao
filme a decadência de sua atividade e vida – sob o signo do esquecimento do personagem pelo meio social. Neste âmbito, a comicidade vira ironia ácida ao tempo
real, vivido pelos espectadores, o tempo histórico.
Umberto é ignorado por todos, menos seu cão e a empregada da pensão. A
reconstrução da Itália, mais especificamente de Roma, no filme, é dos jovens que
estão em ponto de uma concorrência acirrada e desumana, na procura também de
um desenvolvimento de suas carreiras. O velho, personagem principal, não participa
dessa corrida, e fica como um herói perdido, na estirpe dos heróis modernos, à
procura de algum sentido na narração. O fato diegético é que ele se vê numa
tragédia sem volta, e, por isso, ao fim, sua resolução vem a ser o suicídio -
malogrado, ironicamente, como qualquer outra de suas atitudes (excetuando a
procura de seu companheiro, o cão Flicke, que seria achado em um canil). À
maneira de Chaplin, mas aprofundando a dor e a condição social do personagem,
Umberto passa por situações incômodas e revoltantes, mas recebe tudo com
tranqüilidade. Pode-se dizer que o filme é realmente cruel com o personagem.
A essa crueldade o adendo baziniano caberia, na qualidade de uma
imperfeição cinematográfica – vista claramente em filmes do neo-realismo italiano,
tanto mais em Rosselini, o mais radical em impurezas e ambigüidades nos enredos.
Bazin, em uma conversa com Hitchcock, chega ao ponto de comparar impurezas, ou
seja, as práticas mais abertas, deslizantes criativamente, ao auspício transcendente
de uma mente superior (ou da própria natureza, caso o crítico fosse cético):
Tratar-se-ia, pois, para o realizador de I Confess, de conseguir o quase
impossível casamento da perfeita execução técnica, da mecânica lubrificada e
flexível de Hollywood com o deslize criador, o imprevisto da parte de Deus,
cujo privilégio o cinema europeu conserva (Bazin, 1989: 142).
Chegando a esse patamar, Bazin defende, nas entrelinhas de seus escritos,
uma ética da imagem ainda baseada numa fruição cristã, ou seja, baseada no valor
histórico e simbólico herdado do cristianismo, engajamento esse que deu o valor de
sua ética humanista. No entanto, em suas críticas nada havia de proselitismo
religioso – pelo contrário. Neste campo que se dá o barroco liberado pela imagem real – o erotismo do mundo profano é envolvido pela história sagrada dos tempos
eternos, e tudo fica gravado pela imagética cinematográfica do plano. E aí está,
também, a crueldade evocada pelo crítico francês.
Voltando ao início da composição agora: o plano-seqüência é também a porta
de liberação de imagéticos eternos (pois é daí que vem a reiteração de uma
ontologia, em Bazin), humanistas, ao mesmo tempo históricos, sociais, inconscientes
e impuros. No filme documental a porta se abre com mais facilidade, sendo que a
realidade que se manifesta de maneira mais verossímil (ou verídica), o que daria
sentido ao filme, segundo Bazin. A fórmula seria, se ela existisse: a duração do
plano evoca sentidos humanos adormecidos, na medida em que o espectador se vê
como num espelho na tela em seu cotidiano irrelevante. Tal sentido é, hoje,
provocado pragmaticamente e industrialmente em programas como Big Brother,
obviamente em uma inversão falsa e sem qualquer importância humana, ou
humanista, de termos que poderiam ser atribuídos à liberação citada por Bazin. No
caso analisado pelo teórico, contrariamente ao usado pela TV atual, o planoseqüência do neo-realismo italiano surpreenderia o espectador nos cenários reais
das ruínas desumanas pós-catástrofe, junto aos resquícios fascistas e reveladores
de uma postura clássica adotada por um cinema no qual a técnica não servia ao
sentido ontológico e pleno do filme. Essa ética de Bazin, junto a sua crítica,
transforma o cinema da década de 60, com nomes de jovens cineastas sendo
influenciados pela provocação do neo-realismo – e a realidade no cinema ganha um
outro estatuto de veracidade. O oposto da diversão voyeur de reality shows de
emissoras de TV atuais, que inconscientemente evidenciam uma sociedade de
controle extremo, proporcionado pelo aparato audiovisual.
Por fim, o neo-realismo baziniano deixa a ambigüidade do mundo e das idéias
à prova. É no paradoxo “idealismo imanente” e “realismo materialista”, na flutuação
entre a imanência cristã realçada por Bergson e a política existencial de Sartre, que
André Bazin compõe seu palco real que transcende sendo verdadeiro. Algo que só
uma perspectiva redutiva fenomenológica, impressionista, poderia conseguir situar,
como se vê resumido neste último trecho:
Seja para servir aos interesses da tese ideológica, da idéia moral ou da ação
dramática, o realismo subordina seus empréstimos à realidade a exigências
transcendentes. O neo-realismo só conhece a imanência. É unicamente do
aspecto, da pura aparência dos seres e do mundo que ele pretende, a
posteriori, deduzir os ensinamentos neles contidos. Ele é uma fenomenologia
(Bazin, 1991: 281).
*Mauro Luciano Souza de Araújo. Mestre em Imagem e Som pela UFSCar –
Universidade Federal de São Carlos, pesquisador FAPESP, especialista em Ética e
Epistemologia pelo departamento de Filosofia da UFS – Universidade Federal de
Sergipe. E-mail: mauro_luciano@hotmail.com

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