O Direito do Mais Forte à Liberdade, 1975
Frank Biberkopf (Fassbinder), conhecido como Fox, trabalha como atracção de feira, quando o seu patrão e amante, Klaus (Karl Scheydt), é preso por fraude fiscal. À deriva sem emprego, Fox, entretanto um protegido do antiquário Max (Karlheinz Böhm), vence um prémio da lotaria, e passa a ganhar o interesse do snob industrial Eugen (Peter Chatel), que logo o seduz a ficar com ele. Enquanto Fox vive esses dias como uma constante lua-de-mel, Eugen vai-se aproveitando da ingenuidade do amante para com o seu dinheiro comprar e mobilar apartamento, mudar de guarda-roupa e investir na empresa de família, enquanto Fox se vai sentindo cada vez mais posto de parte e humilhado por não estar ao nível do requinte do círculo de Eugen.
Análise:
Voltando a trabalhar para cinema, com a sua equipa habitual (Peer Raben na música, Michael Ballhaus na fotografia, Thea Eymèsz na montagem, Kurt Raab no design), Rainer Werner Fassbinder voltava a uma história por si assinada, onde, desta vez era mesmo protagonista, algo que não acontecia com tal destaque desde “O Machão” (Katzelmacher, 1969). O filme era também a sua primeira abordagem directa de personagens homossexuais masculinos, o que era um afastamento dos temas femininos que marcaram a sua carreira nos filmes anteriores.
Quando conhecemos Frank Biberkopf (Fassbinder), este é uma atracção de feira, conhecido como «Fox, a cabeça falante», do espectáculo do seu amante Klaus (Karl Scheydt), o qual é preso por fraude fiscal, deixando Fox sem emprego. Fox passa a circular por bares à mercê de supostos amigos, quando conhece um novo protector, o mais velho Max (Karlheinz Böhm), um requintado antiquário que o apresenta no seu círculo como uma atracção exótica. Quando Fox ganha uma pequena fortuna na lotaria, Eugen Thiess (Peter Chatel), um rico industrial, e mais jovem amigo de Max, sedu-lo e os dois passam a inseparáveis, vivendo e viajando juntos numa espécie de lua-de-mel permanente. De volta a casa, Eugen, apostado em tornar Fox uma pessoa elegante da classe alta, convence-o a remobilar o apartamento com peças de colecção, pede-lhe dinheiro emprestado para investir na companhia do pai, e insiste em mudar os seus gostos musicais e modo de vestir. Mas Fox não se adapta à nova vida, e é uma constante vergonha para os gostos finos de Eugen, que o vai excluindo cada vez mais da sua vida e programa social. Aos poucos Fox começa a sentir-se rejeitado, humilhado e cada vez menos à vontade no mundo de Eugen, para descobrir que este lhe ficou com todo o dinheiro, e apartamento, não precisando mais dele para nada. Fox volta aos bares onde tudo começara, bebendo, e procurando relações físicas, cansado que todos o vejam só por aquilo que ele lhes possa dar. Acaba morto, por ingestão excessiva de comprimidos, no chão do metro, onde mesmo aí ninguém se parece importar consigo.
Definitivamente apostado numa linguagem narrativa convencional, Fassbinder continuava o seu caminho inovador, quanto mais não fosse, pelos temas, como era o caso da homossexualidade em “O Direito do Mais Forte à Liberdade”. E o maior mérito de Fassbinder era o modo como esta surgia com naturalidade e não como um facto em si próprio, pois afinal a história não depende dela, podendo passar-se num qualquer casal, independentemente da orientação sexual dos seus elementos.
E essa história é sobretudo de desigualdade social – no quanto isso se torna uma barreira intransponível entre pessoas de mundos diferentes – e na hipocrisia de quem apenas procura o conforto que o dinheiro possa dar. Em lados diametralmente opostos estão, de um lado Franz/Fox, uma pessoa de classe baixa, de maneiras poucos educadas, habituado a procurar e viver para os impulsos carnais, sem vontade de mudar, mas sincero, generoso, e muito inocente; e do outro Eugen, homem educado, de gostos sofisticados, apreciador de boa comida, de boa música, de arte e decoração, proveniente de uma família de classe média-alta, fútil nas suas maneiras, hipócrita nos comportamentos, e revelando não ter sentimentos nem escrúpulos que se sobreponham à sua sobrevivência e conforto pessoal. Tudo isso se mostra numa série de episódios (os contratos em que Fox é enganado; os jantares em que as maneiras de Fox envergonham todos; as saídas ao teatro e ópera para as quais Fox nunca é convidado; o aumentar da frieza no contacto físico entre Fox e Eugen; etc.).
É, mais uma vez, Fassbinder a dizer que as aparências escondem uma sociedade podre, onde as pessoas (supostamente) de bem, são simulacros que têm por trás hipocrisia e uma inexistência de bondade e calor humano. A isso, Fassbinder contrapõe o mundo mais carnal, sem aspirações que não sejam existenciais, onde aceita os bares, as festas, as orgias, a prostituição (como no caso da aventura marroquina, ou dos soldados americanos), quase que dizendo que as influências externas são elas próprias um mau exemplo para uma Alemanha ainda inocente e à deriva.
Talvez Fassbinder tenha preferido uma relação homossexual no cerne do seu filme para que os temas centrais da exploração e do abuso (monetários e sentimentais) não fossem distraídos pela proverbial «guerra dos sexos», mas a verdade é que o seu filme ganhou detractores pelo elogio da subcultura gay, e, por outro lado, defensores pelo expor despudorado dessa realidade. Mas questões sexuais à parte, a verdade é que “O Direito do Mais Forte à Liberdade” fica na memória pela sua mensagem de hipocrisia social (num darwinismo cego de sentimentos, onde o amor é apenas uma comodidade financeira), com um final pungente, no qual o corpo do infeliz Fox (cansado de dar tudo, e só ser apreciado pelo que dá – como o próprio grita), só serve como pasto para dois miúdos procurarem algum lucro, e que até os amigos (Max e Klaus) procuram ignorar. É, nesse sentido, um dos mais desiludidos filmes de Fassbinder, agora que a emoção (ao contrário de nos filmes iniciais do autor) já procura um lugar na sua narrativa, mas vê as portas fechadas pela hipocrisia de alguns.
Note-se a presença, em papéis perfeitamente secundários, de Brigitte Mira e El Hedi ben Salem, os protagonistas do consagrado “O Medo Come a Alma” (Angst essen Seele auf, 1974).
Produção:
Título original: Faustrecht der Freiheit [Título inglês: Fox and His Friends]; Produção: Tango Film / City Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1975; Duração: 124 minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA), New Yorker Films (EUA); Estreia: 15 de Maio de 1975 (Festival de Cannes, França), 6 de Junho de 1975 (RFA), 12 de Novembro de 1981 (Portugal).
Equipa técnica:
Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Rainer Werner Fassbinder; Argumento: Rainer Werner Fassbinder, Christian Hohoff ; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus [cor por Eastmancolor]; Montagem: Thea Eymèsz; Design de Produção: Kurt Raab; Figurinos: Helga Kempke; Caracterização: Helga Kempke; Direcção de Produção: Christian Hohoff.
Elenco:
Peter Chatel (Eugen Thiess), Rainer Werner Fassbinder (Frank ‘Fox’ Biberkopf), Karlheinz Böhm (Max), Adrian Hoven (Wolf Thiess, Pai de Eugen), Christiane Maybach (Hedwig, Irmã de Fox), Harry Baer (Philip), , Hans Zander (Barman Springer), Kurt Raab (Wodka-Peter), Rudolf Lenz (Advogado Dr. Siebenkäss), Karl Scheydt (Klaus), Peter Kern (Florista ‘Fatty’ Schmidt), Karl-Heinz Staudenmeyer (Krapp), Walter Sedlmayr (Vendedor de Carros), Bruce Low (Médico), Marquard Bohm (Soldado Americano), Brigitte Mira (Lojista #2), Evelyn Künneke (Secretária na Agência de Viagens), Barbara Valentin (Mulher de Max), Elma Karlowa (Lojista #1), Ingrid Caven (Cantora no Bar), Lilo Pempeit (Vizinha), Ulla Jacobsson (Mãe de Eugen), El Hedi ben Salem (Salem, o Marroquino) [não creditado], Irm Hermann (Madame Cherie de Paris / Voz da Cantora de Bar) [não creditada], Wolfgang Hess (Dobragem de voz de El Hedi ben Salem) [não creditado].
O Direito do Mais Forte é a Liberdade marca o início da reformulação conceitual do cinema de R.W. Fassbinder, um momento que, de início, ainda matinha forte relação com o estilo sirkiano (aqui, especialmente, Tudo o que o Céu Permite) de guiar os dramas amorosos e as relações humanas através da forma do filme, mas que muito rapidamente ganhou cores distintas e identidade revigorada, um “produto final” resultante de diversas influências que desembocariam na famosa fase histórica da filmografia do diretor, iniciada em 1977, com Bolwieser – A Mulher do Chefe da Estação.
Inicialmente chamado apenas de O Direito do Mais Forte aqui no Brasil (ganhando o estúpido “é a liberdade” no lançamento em DVD da Lume Filmes), o longa nos conta a história de Franz Biberkopf ou Fox, “a cabeça falante”, um jovem que trabalha em um circo, perde o emprego, ganha na loteria e faz alguns amigos (esse termo é sempre irônico nos filmes de Fassbinder), um grupo de homens que, juntos, irão preparar o caminho de Franz em direção ao inferno social e financeiro.
É interessante vermos aqui uma série de questões sociais, históricas, morais, éticas, filosóficas e sexuais já abordadas anteriormente pelo cineasta se aglutinarem e nos mostrarem um contexto onde a humilhação e o vampirismo social enraivecem o espectador, dada a estupidez e cegueira do personagem principal, interpretado de maneira crua, gélida e muitíssimo propícia pelo próprio Fassbinder. Também nesse ponto é possível que esteja o [pequeno] ponto fraco do filme, que é a previsibilidade.
Se pensarmos em semelhanças estéticas e dramáticas de outros longas do diretor que aparecem aqui revestidas com um novo manto de desesperança e cinismo, certamente nos lembraremos claramente de O Medo Consome a Alma (1974) e Martha (1974), obras que mostram cenários morais bem semelhantes aos de Franz/Fox em O Direito do Mais Forte e que com este compartilha boa parte do elenco, além dos destinos trágicos — cada um a seu modo — e uma espécie de aceitação da miserável situação vigente que aos poucos parece querer ir para um outro caminho, mas estão já é tarde demais. Para os personagens de Fassbinder presos à realidade do amor ou da sociedade, é sempre tarde demais.
O elenco do filme é dirigido com maestria (Peter Chatel e o próprio Fassbinder fazem ótimas atuações) e vemos representada a decadência de uma forma extremamente curiosa. A primeira delas, através da econômica música de Peer Raben, com grande influência de Bernard Herrmann — cordas carregadas, frases musicais objetivas, de aparência épica e trágica, intercaladas por breves momentos de andamento piano –; e a segunda, através da fotografia de Michael Ballhaus, cujo trabalho de progressiva mudança de personalidade através das cores e movimentos de câmera são notáveis. Kurt Raab, que também interpreta um pequeno (mas ótimo) papel, se destaca no desenho de produção do filme, especialmente em quatro ambientes: a floricultura de ‘Fatty’ Schmidt, a casa de Max (o primeiro amante de Franz), o bar com tonalidades vermelhas e móveis escuros — uma versão mais angustiante e underground do bar de O Medo Consome a Alma — e o apartamento pastiche de Franz e Eugen.
A forma como o diretor trabalha a homossexualidade, a dependência amorosa e o egoísmo que dá a alguns personagens (especialmente Eugen) um caráter psicopata tornam os micro-universos mais ricos e complexos, fazendo de O Direito do Mais Forte é a Liberdade um interessante estudo de comportamento. Ou uma projeção desalentada do diretor para a sociedade de sua época.
O Direito do Mais Forte é a Liberdade (Faustrecht der Freiheit) — Alemanha Ocidental, 1975
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Christian Hohoff
Elenco: Peter Chatel, Rainer Werner Fassbinder, Karlheinz Böhm, Adrian Hoven, Christiane Maybach, Harry Baer, Hans Zander, Kurt Raab, Rudolf Lenz, Karl Scheydt, Peter Kern
Duração: 123 min.
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Christian Hohoff
Elenco: Peter Chatel, Rainer Werner Fassbinder, Karlheinz Böhm, Adrian Hoven, Christiane Maybach, Harry Baer, Hans Zander, Kurt Raab, Rudolf Lenz, Karl Scheydt, Peter Kern
Duração: 123 min.


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