O GRANDE DITADOR E O ARTISTA MAIOR DOS TEMPOS MODERNOS
Por: Adriana Schryver Kurtz
Theodor Adorno, que tão poucas concessões fez ao cinema comercial norteamericano, notaria, à respeito de The Great Dictator (1940), numa das notas e
esboços de A Dialética do Esclarecimento: “o filme de Chaplin tocou pelo menos
um ponto essencial, mostrando a semelhança entre o barbeiro do gueto e o ditador”.
Afinal, os líderes contemporâneos ao grande filósofo frankfurtiano, haviam se tornado
“o que sempre foram um pouco durante toda a época burguesa: atores representando
o papel de líderes” (Adorno; Horkheimer, 1985:.221). Adorno não fez justiça a uma
das obras primas do mais genial self-made-man da história do cinema. De fato,
O Grande Ditador – como acontece com todas as grandes obras – evoca e ilustra
inúmeros (e inusitados) aspectos não apenas daquele a quem Susan Sontag chamaria
de “o tema do século XX por excelência”. O filme levanta questões pertinentes à
própria natureza desse que foi o mais horripilante fenômeno de massas deste século:
o nazismo alemão; bem como de sua guerra planetária e do holocausto judeu.
Por ironia, o cidadão inglês Charles Spencer Chaplin e o austríaco Adolf
Hitler iriam compartilhar algumas características relevantes. Eles nasceriam no
mesmo ano de 1889. Ambos, à sua maneira, acalentariam pretensões artísticas e, por fim, imprimiriam sua marca à história do século XX. Amaram os filmes e o cinema
e, de forma particular, ajudaram a escrever a história do medium que, surgido em
1895, se transformaria na mais típica – e poderosa – manifestação artística e cultural
do século. Como se não bastassem estas coincidências, a semelhança física e o poder
carismático de Chaplin e Hitler eram evidentes. Um detalhe crucial do rosto
inesquecível de Carlitos, o bigodinho ridículo, lembraria o ditador germânico. Conta
a lenda que as palavras do diretor e roteirista norte-americano Garson Kanin foram
decisivas para que Chaplin superasse as dúvidas (de fato, as resistências – sobretudo
políticas) quanto à realização de O Grande Ditador3
. “Em certa época, na história
da humanidade, o pior vilão e o maior comediante conhecidos se parecem um ao
outro” teria dito Kanin4
. “Não é preciso decidir coisa alguma sobre este filme: tudo
já está decidido. É inevitável” (Gomes Jr., 1997:16). De sua parte, Chaplin
escreveria num artigo publicado pouco antes da estréia de seu filme:
O grande ditador poderia ser o título de uma comédia, de uma
tragédia ou de um drama; eu quis fazer um coquetel de todos esses
gêneros e traçar um perfil, ao mesmo tempo grotesco e sinistro, de
um homem que acreditava ser um super herói e pensava que a sua
opinião e a sua palavra eram as únicas com valor (Chaplin apud
Gomes Jr, ibidem:16-17).
Chaplin e Hitler compartilharam ainda, cada um à seu modo, é verdade, uma
admiração pela obra da atriz e cineasta alemã Leni Riefenstahl, a autora “maldita” de
dois dos mais conhecidos filmes de propaganda deste século: O Triunfo da Vontade
(1936) e Olympia (1937). É sabido que O Grande Ditador (1940) deve parte de
sua concepção visual ao mais célebre destes “documentários” – como insiste em chamá-los sua diretora. Qualquer um que tenha assistido a Triunfo reconhecerá,
sem sombra de dúvida, a matriz inspiradora de O Grande Ditador, especialmente
nas cenas que reúnem o líder e “sua” massa: lá está a vigorosa harmonia estética
imprimida pela cineasta alemã ao cenário ritualístico nazista em Nuremberg.
Esta não seria a única citação que o gênio do cinema mudo faria à obra
daquela que foi chamada, pelo próprio Führer de “minha mulher alemã perfeita”.
Segundo Román Gubern, que assina a introdução das Memorias de Riefenstahl
publicadas em Barcelona, Charles Chaplin enviaria um telegrama cumprimentando a
atriz (então, uma promissora novata em seu filme de estréia) pela realização de
A Luz Azul (1932). Ainda encantado com a obra inaugural da cineasta alemã,
Chaplin vestirá sua terceira mulher, a atriz Paulette Goddard, em Tempos Modernos
(1936), tal qual a personagem Junta, protagonista e heroína interpretada por Leni no
mesmo A Luz Azul. O genial criador de Carlitos (o clown mais popular de toda a
história do cinema que, ironicamente, faria sua última aparição nas telas em
O Grande Ditador) não será – é bom que se note – o único nome relevante na longa
lista que Leni Riefenstahl não cansa de trazer à público.
A admiração de Charles Chaplin por Leni Riefenstahl (e a inequívoca marca
da cineasta alemã no registro imagético de O Grande Ditador) não deixa de evocar
outras sugestivas – e irônicas – relações, ainda que involuntárias, entre a arte do
cinema e a conturbada política da época, marcada pela crescente propagação do
fascismo. O vagabundo Carlitos já havia atacado, (sempre) a seu modo, a mística da
guerra com Ombro Armas ou Carlitos nas Trincheiras6
(1918): mesmo tendo sido
a comédia preferida dos soldados americanos na Primeira Grande Guerra; mesmo
tendo mostrado “um herói tão heróico que, sozinho, obtém a vitória para os aliados” (Fassoni apud Labaki, 1995:34), o filme não deixou de ser, como afirma Georges
Sadoul, uma ousada e violenta sátira do conflito imperialista.
Em Ombro Armas, a ilusão do vagabundo é a maior mentira
da sociedade burguesa, a mentira de que a guerra é heróica e
moralmente justificável... Todo o filme é uma fantasia irônica na
qual o vagabundo procura desajeitadamente fazer o que dele se
espera, dando sua contribuição pessoal para a matança em larga
escala (idem).
Lembremos uma das tantas cenas tornadas clássicas na filmografia de Charles
Spencer Chaplin – a que encerra Tempos Modernos. O operário Carlitos, depois de
enfrentar a desventura de ser uma indefesa cobaia da (in)eficiência da tecnologia
moderna, recolhe uma bandeira vermelha caída de um caminhão. Enquanto hasteia a
bandeira para o alto, um grupo de grevistas começa a seguí-lo, fazendo do
vagabundo o (sem dúvida involuntário) líder do movimento. Esta cena foi
expressiva o bastante para que a Itália de Mussolini/Napaloni e a Alemanha de
Hitler/Hynkel e Goebbels/Garbistsch – mais do que os críticos europeus que viram
coloração “comunizante” na obra – proibissem a exibição do filme.
Daí não causar estranheza que a mais célebre e honrosa (se é possível
assim dizê-lo) citação angariada pelo cinema de propaganda nazista tenha sido
varrida das telas germânicas e itálicas. O Grande Ditador, e sua clara
“homenagem” ao Triunfo de Leni Riefenstahl, não seria apreciado pelo público
que, massivamente, ajudava a concretizar o fascismo e o Nacional-Socialismo.
Como dissera Krakauer8
, o cinema antecipava a “vida real”. Os tiranos profetizados
e imortalizados pelo expressionismo alemão, cujo protótipo definitivo seria
encarnado pelo médico/mostro de O Gabinete do Dr. Caligari (1919), mostravam a
amplitude de seu poder: inclusive decidindo o que as massas poderiam – ou não –
vislumbrar nas telas dos cinemas.
Chaplin foi certamente, o mais célebre cineasta (e provavelmente, o primeiro)
a utilizar o material da cineasta preferida do Führer9
, embora não tenha sido – de
forma alguma – o único. Durante a Segunda Grande Guerra, e no período
imediatamente posterior, o cinema (em especial o de propaganda ideológica) fez um
significativo uso – diríamos hoje “politicamente correto” – das imagens que levaram
o culto de Hitler à sua expressão estética máxima. Tais filmes utilizaram diretamente
cenas tomadas pela própria cineasta, buscando, segundo Furhammar e Isaksson, um
“resultado exatamente oposto” ao que chamaram de “sedutora magia do nazismo”10
.
Why We Fight (1924), série de documentários liderados por Frank Capra, Anatole
Litvak e Antony Veiller, These are the Men, ou Eis os Homens, Nuit et
Brouillard, ou Noite e Nevoeiro (1955), de Alain Resnais, Mein Kampf, ou Minha
Luta (1959), de Erwin Leiser, e Obyknovenni Fashism, ou O Fascismo Comum
(1965), de Mikhail Romm, teriam se apropriado das típicas imagens das colunas em
marcha e de suas linhas rígidas para sugerir “um terror maquinal”. Em Germany
Calling, ou Fala a Alemanha, (Inglaterra/1940), de Charles Ridley, tais registros
comporiam “um ballet grotesco” (Furhammar & Isaksson, 1976:97).
3.1 Capra e Riefenstahl: o “belo técnico” em fronts opostos
Não é de se admirar que a obra de contrapropaganda nazista mais lembrada
seja justamente a série de Frank Capra, Why We Fight (1942-1945). Capra deixou a
ilha da fantasia hollywoodiana para alistar-se voluntariamente no exército
norte-americano. Quando assistiu ao filme que imortalizara o Congresso do Partido
Nacional-Socialista em Nuremberg, o cineasta deu-se conta de que “um rasgo
genial” animava aquela obra, embora “horripilante”. Ele percebeu em Triunfo a
força de uma mensagem tão “nua e brutal como um cano de chumbo” (apud Kurz, 18 maio 1997:3). Daí que os seus filmes buscavam utilizar “o filme dos inimigos a fim
de pôr em evidência suas metas escravistas” (ibidem). Mas quais seriam as
afinidades entre os dois cineastas-propagandistas?
Segundo Robert Kurz, um dos méritos de Capra era o seu “olho para o
detalhe”, para a exatidão. “Obviamente esse olho para o detalhe tem uma dimensão
técnica” observa, adequadamente, o sociólogo e articulista alemão. Por hora, parecenos interessante sugerir que esta característica intrínseca à estética de
Frank Capra (e Leni Riefenstahl) – que Kurz chama de “dimensão técnica” –
corresponde exatamente ao conceito de “belo técnico” resgatado por Willi Bolle em
sua análise do que chamou de “culto da técnica”: a mais peculiar e reveladora faceta
da “modernidade fascista”.
Há um outro ponto convergente entre as visões de mundo – e de estética – de
ambos. O que num primeiro momento apresenta-se como a exata diferença – não
esqueçamos, eles lutaram por lados opostos, um deles sob o credo liberal, a outra sob
a autoridade ferrenha do líder carismático que une sua comunidade do povo –
acabará revelando a mesma forma, distorcida note-se, de transformar os fatos da vida
(pessoais, políticos e sociais) em questões transcendentes: “milagres” redentores e
“destinos” inapeláveis conformam, respectivamente, os indivíduos e o “povo”
idealizados por Capra e Riefenstahl.
Capra toma o partido do sujeito artístico individual contra a
filosofia crítica, da experiência contra a teoria: “Meus filmes
penetrarão o coração não com lógica mas com compaixão”. Se se
quiser, pode-se reconhecer aqui um eco da crítica de Adorno à
“lógica de identidade”, um impulso pelo “não-idêntico” nos
homens, que não se resolve nas determinações da estrutura social e
de suas “coerções”. Contudo, quando essa posição permanece
unilateral e irrefletida, logo não se vê mais a floresta por trás das
enormes árvores. Para Capra só existiam as árvores isoladas, e nisto ele é rigorosamente liberal. Justamente por isso, todavia, o
contexto social à sua volta só pode ser salvo com seu carregado
sentimentalismo, e as soluções têm que vir diretamente de uma
milagre, como que pela mão de Deus12 (Kurz, 1997:3).
Capra certamente partilhou sugestivas afinidades com sua colega de medium,
ainda que num front inimigo. Mas suas trajetórias profissionais no pós-guerra
evidenciam uma notória diferença13: ao contrário do cineasta norte-americano,
Riefenstahl pagou caro pela notoriedade alcançada com seus filmes e – de forma
adicional, ainda que não necessariamente secundária – com a boataria que, desde sua
época de glórias junto ao Terceiro Reich, girava em torno de um romance com o Führer.
Durante um longo período, a cineasta colheu frutos amargos: foi presa pelos americanos
e, posteriormente, pelos franceses, enfrentando situações um tanto insólitas.
Conforme relata em seu livro biográfico, seus bens ficariam embargados por
longos anos; suas propriedades confiscadas; os negativos originais de seus filmes
perdidos, retidos pelos governos dos países vitoriosos ou vendidos ilegalmente a
colecionadores particulares; já os direitos de distribuição de filmes comercializados
internacionalmente e os ingressos do exterior, desde o início de sua meteórica
carreira, poucas vezes chegaram a seu destino.
O chamado processo de desnazificação começaria com um primeiro
julgamento em dezembro de 1948. Não havendo comprovação de que Riefenstahl
ocupara cargos políticos ou fora membro do partido nazista, foi considerada
integrante do grupo “não afetado pela lei”. O governo militar francês recorreria e, no
ano seguinte, perderia uma vez mais: a primeira sentença é confirmada. Os franceses vão recorrer uma segunda vez: Riefenstahl foi considerada simpatizante do partido
nazista, ainda que não tivesse pertencido ao mesmo.
A seguir viriam vários processos contra revistas internacionais que não
cansavam de promover matérias sensacionalistas envolvendo o nome da cineasta15
.
Estas publicações, conta Leni em suas Memorias, sistematicamente tumultuaram ou
abortaram diversas tentativas de ver seus filmes já consagrados (como A Luz Azul)
exibidos comercialmente na Europa, bem como em produzir e/ou dirigir novos
projetos cinematográficos. Ainda que lutasse obstinadamente para trabalhar com o
cinema, as portas iam pouco a pouco se fechando: e a cineasta preferida de Hitler iria
amargar um progressivo obscurantismo internacional.
O acordo mais ou menos tácito de apagar a incômoda obra de Leni da
memória histórica e do cenário estético da cinematografia mundial surtiu resultados.
Seus mais brilhantes filmes de propaganda, Triunfo e Olympia permaneceram
inacessíveis ao público, durante décadas, em vários países (entre os quais o Brasil).
A cineasta desistiu de seus projetos cinematográficos, parecendo – quem sabe pela
primeira vez – não corresponder à sua fama de obstinada. Leni provavelmente
cansou-se... ou fez uma retirada estratégica. Seja qual for o verdadeiro impulso por
trás de sua atitude, ela inauguraria uma nova fase em sua vida com a viagem para a
África, os longos meses de convívio com os Nuba no Sudão e a (re)descoberta da
arte fotográfica16. Se o mundo não queria saber de seus filmes (ou sobretudo de sua
propaganda ideológica), Riefenstahl, como num refinadíssimo tapa de luvas,
ofereceria a beleza estética de suas fotografias.
3.2 Da imperfeição de arquitetos e deusas
Em 1989 é lançado o documentário Arquitetura da Destruição, ou
Architektur des Untergangs, (Suécia/1989), de Peter Cohen, um vigoroso
levantamento das artes sob o Nacional-Socialismo. A obra, de mais de três horas de
duração, defende a tese de que certo projeto de embelezamento da Alemanha e do
mundo sonhado pelo arquiteto da destruição, Adolf Hitler, explica muitos aspectos
estratégicos não apenas da Segunda Grande Guerra, mas do próprio Holocausto
perpetrado contra os judeus europeus. A contribuição de Leni ao cinema nazista
praticamente não merece nenhuma menção por parte de Cohen, que parece
considerar seus filmes menos representativos em termos de propaganda ideológica
do que títulos (não menos famosos, é verdade) como O Judeu Süss e O Eterno
Judeu – e sua infame seqüência dos ratos/judeus dos guetos poloneses.
Mas foi o lançamento de Leni Riefenstahl. A Deusa Imperfeita (1993)
– no original Leni Riefenstahl. Die Macht der Bilder (Alemanha/Bélgica) –, de
Ray Müller, no início da década de 90, que resgataria, de uma vez por todas, é bom
que se note, a figura da cineasta alemã do limbo do esquecimento. A Deusa foi,
indiscutivelmente, o mais polêmico exemplar de um pequeno número de filmes
(de inusitada repercussão mundial) centrados no ideário artístico e cultural do
III Reich. De forma mais efetiva do que Arquitetura, o filme de Müller recolocou a
discussão sobre o papel da arte e a responsabilidade do artista em seu tempo, através
da fascinante trajetória desta que foi a diretora preferida de Hitler. Passados mais de
cinqüenta anos do final da II Grande Guerra, o cinema de Leni Riefenstahl ainda
suscita embaraçosas questões.
...el caso de Leni Riefenstahl plantea brutalmente y de modo
radical la cuestión de la autonomía estética del arte, su
autosuficiencia formal, más allá de sus eventuales perversos
contenidos o de sus propuestas éticas. Las mejores obras de la
autora proclamarían así que la excelencia estética es una categoria
aislable de la excelencia ideológica. Leni Riefenstahl se alinea así
junto a artistas como Céline, Drieu de la Rochelle o Ezra Pound,
cuya adscripción ideológica no dañó la integridad estética de su
obra. Y, de un modo más radical todavía, obliga a admitir que el
mal puede generar sus proprias obras maestras, susceptibles de
gratificar incluso a quienes rechazan su contenido ideológico...
(Gubern, in: Riefensthal,1991: 09).
Sabe-se que na época do lançamento de O Grande Ditador não seria tão
simples isolar – sem cerimônia – a “excelência” estética da ideológica. Para além de
todos as pressões políticas da época, o próprio Chaplin reconheceria este fato quando
afirmou que se ele (e o mundo) tivesse conhecimento das atrocidades cometidas nos
campos de concentração alemães, não teria podido realizar o filme, pois segundo
suas palavras, “não seria capaz de brincar com a demência homicida dos nazistas”
(apud Gomes Jr., 1997:24). O maior comediante da história do cinema tinha seus
princípios, suas posições políticas e seus pudores19, ao contrário da jovem cineasta
cuja obra servira de inspiração para compor visualmente as cenas de Hynkel junto a
sua “comunidade do povo”.
A Deusa Imperfeita mostra magistralmente a insistência de uma idosa
senhora em repisar a tese – também antiga, ainda que em voga recentemente – de
que, em se tratando de estética, a política nada significa. Diante da câmera de Ray
Müller, ela preconiza, com o habitual e inabalável tom de quem, do alto de seus
noventa anos intensamente (e, por alguns anos, muito bem) vividos, pôde conferir na prática a validade de suas teorias: “arte e política são coisas diferentes. Nada têm a
ver uma com a outra”. Não satisfeita em reiterar as suas firmes convicções pessoais,
Riefenstahl ainda aconselha: “...um artista não pode pensar politicamente, se se
dedica totalmente ao seu trabalho” (in: A Deusa Imperfeita). Isso valeria,
deduzimos, tanto para criar os documentários mais famosos do Terceiro Reich
quanto para isentá-la de qualquer implicação a respeito da elegante, intensa e
emocionante vida cultural e social20 que marcou seus anos de cineasta predileta do
Führer, no mesmo ambiente – eminentemente político.
Mesmo analisando sua vida e obra retrospectivamente, falta um mínimo de
pudor à cineasta alemã ao dizer sobre O Triunfo da Vontade: “O filme não era
político. Fotografei os motivos tão bem quanto pude. Se era política ou verduras
pouco me importa”. O complemento de tal raciocínio acrobático é soberbo: “Havia
filmes com mais suásticas” (idem). Leni Riefenstahl parece ter transferido não só a
ousadia e o vigor físico, mas também o ímpeto irracional de suas escaladas em
montanhas rochosas, para o âmbito do exercício intelectual. De certa maneira, a
implacável ação do tempo – ela está a beira de registrar um século de vida – não
causou nenhum dano a seu espírito aventureiro.
Como que para ilustrar, de forma mais expressiva, a polêmica que Riefenstahl
detonou ao romper, finalmente, com todos os esforços (ou as omissões) para que seu
nome continuasse no obscurantismo, a década de 90 se encerra com uma outra
citação inequívoca de sua obra máxima. O tipo de “representação” de uma
comunidade de pares idealizada pelo nazismo e rigorosamente encenada em
Nuremberg, no ano de 1934, foi retomada nas cenas inaugurais de Tropas Estelares
(1997), de Paul Verhoeven. O espírito de comunhão dos belos guerreiros
fotografados por Leni é revivido pelos também belos – ainda que um tanto débeis –
(anti)heróis deste filme que é a mais recente citação de O Triunfo da Vontade.
Trata-se, é verdade, de uma queda vertiginosa se pensarmos na importância,
na qualidade e na eterna atualidade da obra de Chaplin. Mas por outro lado, eis uma
amostra digna da espécie de cinematografia industrial e comercialmente hegemônica
de nossa contemporaneidade, nesta cultura que muitos querem ver reconhecida como pós-moderna (ainda que não haja um consenso sobre o que o termo signifique
exatamente). Não convém subestimarmos a significação de um gesto tão eloqüente
quanto o de citar o Triunfo de Leni Riefenstahl. Tropas Estelares é tão
precisamente revelador de nosso final de década – e de século – quanto O Grande
Ditador o foi da dramática passagem dos anos 30 aos anos 40.
Chaplin nos legou uma comédia dramática em preto e branco, que
relutantemente abria mão das convenções – algumas, mas não necessariamente as
mais importantes – do recém “obsoleto” cinema mudo. Foi enorme o impacto da
longa fala ao final do filme21, mas a imagem que fica é, sem dúvida, do ditador
brincando com o globo – “seu mundo”. Verhoeven nos brinda com uma ficção
científica típica do cinema de espetáculo e de entretenimento dos grandes estúdios
– com um orçamento milionário e a exuberante amostra de tecnologia, efeitos
especiais e recursos computadorizados de última geração, condimentada pela mais
pura ideologia reacionária – para não dizer fascista22. Em comum, o fato de ambos
serem rigorosamente representativos de sua época. Neste sentido, e apenas nesse,
Tropas Estelares pode equiparar-se a uma das obras-primas do gênio maior das
imagens em movimento.
Diferenças abissais à parte, O Grande Ditador (1940) e Tropas Estelares
(1997) nos sugerem que apenas a “espécie de beleza imperecível” (o termo é de
Sontag) da esteta e aventureira do Terceiro Reich envelheceu. O mito Leni
Riefenstahl não apenas exibe sua resistência à passagem do tempo: derrotando a
batalha surda contra o obscurantismo de sua obra, mostra-se rejuvenescida e com
novo fôlego. Pois estes documentos fílmicos, “monumentos de cultura e barbárie”, como diria Walter Benjamin23 nos relembram o poder das imagens da cineasta a
quem o Führer incumbiu de expressar – artisticamente – a força de seu movimento.

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