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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O cinema de Hollywood e a invenção da América

O cinema de Hollywood e a invenção da América

Mídias e interculturalidades locais e globais

Por: Cláudio Cardoso Paiva


1 Primeiro Plano 
Proponho um mapeamento seletivo dos temas relacionados à irradiação da cultura norte-americana pela arte tecnológica do cinema. A experiência cinematográfica funciona com um gigantesco vetor de atração, congregando as nações mundiais numa aldeia global; irremediavelmente, estamos todos ligados a essa sensorialidade. No sentido empregado por Edgar Morin, somos todos pertencentes à Terra-Pátria e a ecologia do cinema contribui favoravelmente para esta conjunção. Cumpre então lançar uma mirada sobre o cinema de Hollywood, buscando ver além das dimensões meramente organizacionais e financeiras que estruturam essa grande indústria, e contemplá-lo ludicamente como uma expressão da sétima arte, como uma “reapresentação” do mundo que consegue nos transportar para a cena dos grandes acontecimentos além das fronteiras geográficas e temporais. 

Há filmes clássicos como Os Dez Mandamentos (Cecio B. de Mille, 1956), E o vento levou (Victor Fleming, 1939) e 2001, uma odisséia no espaço (Stanley Kubric, 1968), que - malgrado a diversidade de estilos - aglutinam uma grande comunidade universal formada pelos indivíduos interligados pelas imagens do cinema. Mas, este cinema é forte principalmente por penetrar nos recantos mais intimistas do Ser, fustigando as sensações, emoções e sentimentos mais profundos. Isto ocorre certamente porque entre o olho e o espírito do espectador se instaura o lugar de encontro com seu Outro, que fascina e assombra, como um velho (des)conhecido. Contendo um acervo monumental das mitologias universais, o cinema tem o poder de entrelaçar as teias simbólicas das infinitas culturas tramadas no fio da história. Os livros fabulosos, as fábulas mais verossímeis, os épicos arrebatadores, as tragédias insólitas e os afetos mais nobres são materializados na visibilidade radical do cinema; isto evidentemente propicia uma aproximação das fronteiras entre os povos mais distantes. Há filmes distintos, como Intolerância (Griffith, 1916), Tempos Modernos (Chaplin, 1936) e Assim caminha a humanidade (George Stevens, 1956), que atuam no imaginário coletivo simultaneamente como vetor das experiências de êxtase, ternura, amor, ódio e perplexidade, simplesmente porque são narrativas que condensam as afetividades mais extremas dos seres humanos.

2 A indústria e a vontade de eternidade 

Ocorre que o cinema nasceu sob o signo industrial da reprodução e da serialidade, como mostra Walter Benjamin, em seu estudo sobre arte e reprodutibilidade [1936]. Não se pode contemplar a aura do cinema sem as suas cópias. Há uma demanda importante pelas imagens e sons do cinema porque este permite aos indivíduos sonharem acordados, despertarem para a alteridade do mundo, expandirem a consciência e ampliarem as portas da percepção. As imagens extraordinárias do cinema se comunicam com a dimensão subterrânea do inconsciente coletivo, e assim acalenta os desejos mais profundos da humanidade. O cinema vai longe no dom de iludir sobre a transcendência da morte. O fascínio exercido pela sétima arte se justifica pelo fato desta arte excitar a imaginação dos homens e das mulheres em torno do poder, beleza, amor e vontade de eternidade.

A grande metáfora do cinema resplandece no filme A Rosa Púrpura do Cairo, mostrando a necessidade diária do espírito humano de transcender a dura rotina do cotidiano. Os espectadores querem sempre mais, e na aceleração dos seus tempos de trabalho misturados aos tempos de lazer, desejam os sonhos em quantidade e diversidade; ou seja, um tipo de exigência que casa bem com os interesses mercadológicos da indústria cinematográfica.

O ritmo industrial, a contabilidade e a aceleração tecnológica, que caracteriza a grande massa de produtos do cinema de Hollywood, não têm muito tempo para uma depuração sensível e categórica da criação artística. Tudo o que existe de magnífico na realização cinematográfica se deve, sobretudo, ao trabalho da memória e da imaginação criativa, e isso não tem nada a ver com os protocolos comerciais, financeiros e mercadológicos. Quando a prioridade do cinema é o lucro e a rentabilidade a experiência se torna pobreza. Reconhecemos os domingos em festa e dias de glória passados com os super-heróis e as grandes estrelas no templo sagrado do cinema. Mas sabemos que na indústria dos sonhos, estrategicamente é elaborado um repertório persuasivo de informações, emoções e sentimentos prontos para serem consumidos pelas massas. Assim, desde as aventuras de Simbad, Flash Gordon e Tarzan até o ciclo interminável de subprodutos como Superhomem, Batman, Matrix e Guerra nas Estrelas, temos esquemas prontos e fórmulas de sucesso que “satisfazem” o fantástico sonho de consumo das massas.

Para o melhor e para o pior a produção em série gerou o kitsch (uma arte provisória, ornamental, de fácil assimilação), vista como “arte do banheiro ou arte da felicidade”, segundo Abraham Moles (1977), funciona como um modelo estético bastante privilegiado na sociedade de consumo. Porém, mesmo na arte kitsch há insights valiosos para apreendermos o sentido das obras de arte tecnológica, incluindo as narrativas de Hollywood, que respondem aos anseios dos leitores e espectadores informados pelos jornais, cartazes publicitários, quadrinhos e televisão; o kitsch visa atender a expectativa das platéias, em que a aceleração, velocidade e intensidade funcionam acionando valores estéticos, sensoriais e cognitivos.

Os desenhos de Walt Disney, o Mágico de Oz, os tubarões, E.T.s e dinossauros ficarão no inconsciente ótico das gerações futuras como signos alegóricos que dão sentido à vida dos indivíduos na sociedade de massas, como fábulas importantes na realização cotidiana de milhões de homens, mulheres, velhos, crianças, consumidores e cidadãos.

3 As transgressões simuladas na idade mídia

A ficcionalidade de Hollywood se assemelha a uma segunda pele da cultura norteamericana, naquilo que esta cultura tem de pragmática, funcional e democrática, mas também de narcisista, compulsiva e consumista. Existe, é evidente, um componente imperialista na ideologia do cinema de Hollywood, como de resto na tessitura histórica e sócio-cultural norte-americana. É estratégico para o debate sócio-cultural que esse componente seja permanentemente assinalado e também que sejam atualizadas as modalidades críticas e históricointerpretativas. O próprio cinema nos mostra as possibilidades de articulação crítica, desmontagem e remontagem dos produtos ideológicos, como na longa tradição inconformista que contempla Juventude Transviada (Nicolas Ray, 1955), O Selvagem (László Benedek, 1954), Caçada Humana (Arthur Penn, 1966), Sem Destino (Denis Hooper, 1969), Perdidos na Noite (Schlesinger, 1969), A noite dos desesperados (Sidney Pollack, 1969), O dia do gafanhoto (John Schlesinger, 1975) e Na época do Ragtime (Milos Forman, 1981),entre outros. Todos esses títulos são ícones do inconformismo norte-americano em Hollywood, são expressões radicais da indignação, olhares ácidos sobre o consumismo, o individualismo e as modalidades de segregação étnicas, sociais, econômicas e sexistas.

É interessante perceber como a experiência de multiculturalidade, interpenetrações de idéias, discursos e ações advindos das temporalidades e localidades mais remotas, matiza uma configuração universalista ao cinema norte-americano. O Egito, Roma, a Grécia antiga, a Europa medieval, a América profunda representados na tela são mais do que simples resgates históricos; são reterritorializações, desdobramentos e revelações da história por um viés consoante com as mitologias da sociedade de massas; transformação dos arquétipos que se tornam clichês, mas que asseguram experiências afetivas, poéticas e sensoriais.

O cinema forjou uma aproximação imaginária entre os fãs, espectadores, cinéfilos e as corporeidades virtuais dos personagens de Cleópatra, Júlio César, Cristo, Merlin e Napoleão, e com a mesma “intimidade” os cinéfilos podem visualizar, interagir e acariciar a pele ficcional de Buda, Gandhi, Mata Hari e Rodolfo Valentino. Nesse contexto de imagens paradoxais geradas pela grande usina do cinema, buscarei situar um ponto de vista defendendo a sétima arte como um motor para a fruição das experiências fundamentais da estética, poética e catarse. E para isso, procurarei colocar em relação as matrizes culturais e as matrizes industriais que concorrem na elaboração do produto final.

4 Elementos para uma antropológica do cinema

Hoje, no campo recente das ciências da comunicação, assistimos aos esforços de atualização do tema que transita pelas interfaces da mídia, sociedade, política e educação, mantendo conexões permanentes com a ética e a estética. E, no que respeita especificamente à pesquisa, há um repertório importante de trabalhos demonstrando as formas de dominação e resistência cultural, conferindo - de certo modo - uma marca à moderna tradição da crítica brasileira e latinoamericana. Mas ao mesmo tempo, positivamente, no contexto da globalização cultural, encontramos novas perspectivas mostrando como, durante o chamado “século americano”, não cessaram de ser produzidas imagens, sons e discursos reveladores das contradições e paradoxos da maior sociedade de consumo do planeta. Como um exercício de psicanálise e antropologia da cultura, o cinema tem o poder de revelar a estranheza, a parte reprimida dos indivíduos e das sociedades, criando um campo propício para a passagem por onde se comunicam o plano do desejo e o plano da representação; logo, o cinema possui uma dimensão crítica e uma outra terapêutica, como sugeria Gilles Deleuze, em seus estudos sobre a filosofia e o cinema (1983 e 1985).

Os estudos culturais em comunicação têm revelado várias experiências geradas nas zonas fronteiriças entre o histórico e o ficcional, o real e o virtual, o semiótico e o simbólico. E o contexto da paisagem norteamericana constitui um lócus privilegiado, pois estando no epicentro do capitalismo global, testemunha os encontros e as associações mais surpreendentes, cujo sentido afirmativo não pode ser negligenciado pelas culturas híbridas do planeta. Por este prisma pode-se estimular a discussão dos problemas do pós-colonialismo, das mediações sociais, do local da cultura no contexto global, assim como as expressões étnicas, as minorias ideológicas, as redes de sociabilidade, as ações afirmativas e as modalidades de politização do cotidiano. Tudo isso confere novos matizes ao campo das ciências da comunicação e às relações entre o Brasil e os Estados Unidos, no que concerne à nova ordem econômica, política e sócio-cultural, criando um campo de visibilidade e oralidade para contemplarmos os estilos de interculturalidade tramados nos contextos locais (regionais) e globais (transnacionais).

5 As telas e redes multiculturais

Buscamos um caminho diferente do habitual, invertendo a lógica assustada com a dominação imperialista norte-americana e o controle da sociedade pela indústria cultural, procurando uma alternativa para driblar o pensamento único que percebe a globalização como um processo cruel de desmantelamento das culturas locais. Seguimos a premissa de que as noções de imperialismo e colonialismo precisam ser contrapostas e dialogizadas com as noções de multiculturalismo, interculturalidade e pós-colonialismo. Na Europa e nos Estados Unidos, os descendentes dos antigos colonizadores, migrantes, estrangeiros do mundo inteiro têm realizado uma complexa cartografia cultural, reterritorializando as experiências, os agenciamentos, as contratualidades simbólicas, promovendo associações multiétnicas e interculturais. (Isso também acontece entre o Brasil e Portugal, no que respeita à ficção televisiva seriada, desde a exibição internacional de Gabriela até a transmutação de Os Maias para os audiovisuais).

No interior dos processos culturais nacionais e regionais são articuladas novas modalidades de leitura que redefinem os termos da chamada indústria cultural, e por este viés empregamos o termo de “interculturalidade” para traduzir os modos de troca, os intercâmbios e interações socioculturais e sociopolíticas. As histórias dos estrangeiros nos Estados Unidos e a história das interpenetrações das culturas no cinema se confundem, desenhando uma colcha de retalhos densa e vigorosa em que concorrem latinos, orientais, africanos, russos, europeus, uma grande diversidade étnica conferindo um sentido multicultural à paisagem americana. Assim, Tudo por um sonho (Mira Nair, 1995), Moscou em Nova Iorque (Paul Mazursky, 1984) Blade Runner (Riddley Scott, 1982), Terra de Sonhos (Jim Sheridan, 2002), entre outros, traduzem uma metonímia dessa configuração que possui ares neobarrocos: arquitetura, linguagem, vestuário, culinária, ritmos, múltiplas sonoridadades e iconicidades em sua multifacetada aparência acenam para uma nova diversidade cultural, com tudo o que isso traz de êxtase e perplexidade.

6 O gênero faroeste, o imperialismo e o pós-colonialismo

Acrescente-se a este patchwork o fato de que a mega indústria de Hollywood sempre atuou como um celeiro importador de cérebros e sensibilidades de cineastas de várias partes do globo, o que - no fim das contas - viria caracterizar tal experiência como um poderoso motor de difusão de culturas. Assim, desde as grandes produções do faroeste como o filme de ítalo-americano Sérgio Leone (Era uma vez na América, 1984), fazendo uma radiografia da América profunda, tais filmes exibem os confrontos entre os cara-pálidas e os pele-vermelhas, desnudam-se práticas de dominação e estratégias de resistência, correntes estéticas e ideológicas que se deslocam do racismo e etnocentrismo às ações afirmativas do pós-colonialismo.

O faroeste consiste num filão tipicamente norte-americano, como atestam, por exemplo, Os brutos também amam (George Stevens, 1953), Rastros de ódio (John Ford, 1956), O homem que matou o facínora (John Ford, 1962), Meu ódio será tua herança (Sam Peckinpah, 1969). O bangbang constitui um dos gêneros inaugurais do cinema, com a película de 12 minutos O grande roubo do trem (Thomas Edison, 1902) e faz parte estrutural do imaginário norte-americano, como mostra O Álamo (John Wayne, 1960). Mas este gênero experimentou várias hibridações com o cinema italiano, resultando na conhecida fórmula do western spaghetti, conforme se comprova em realizações como Por um punhado de dólares (1964), O dólar furado (Kelvin Podget), Django (Sergio Corbucci, 1966), Ringo (Dulcio Tessari, 1966), e caberia mencionar os italianos - seja devido à falta dos recursos infraestruturais ou por quaisquer outras razões - imprimiram uma estética mais vigorosa e realista aos filmes de bang-bang, conferindo uma melhor qualidade ao gênero. Recentemente, sendo revisitado por um dos seus principais representantes, o faroeste retorna numa obra de referência, sob o título de Os imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992).

Todavia, a dimensão de glamour do faroeste com belas paisagens, personagens fortes e destemidos, alta carga de tensão dramática, apologia dos grandes épicos exaltando os pioneiros da América, geralmente escamoteia dimensões regressivas na medida em que reafirmam preconceitos ferrenhos. Então é interessante perceber como o próprio cinema de Hollywood se empenha na realização das paródias e pastiches do gênero bang-bang. Como exemplos, relembramos a propósito A máscara de Zorro (Martin Campbell, 1998), uma atualização parodística do mito após décadas de exploração no cinema e na televisão. 

Retomando o insight que aponta para as interfaces culturais entre os Estados Unidos e a Itália, é pertinente remontar à temática da máfia, que quando revisitada na literatura e no cinema norte-americanos atraiu uma audiência fantástica. Nessa direção, podemos ainda apontar Os bons companheiros (Scorcese, 1990), evidentemente sem esquecer a obra prima explícita na trilogia de O Poderoso Chefão (Coppola, 1972-1974-1990). Logo, percebe-se por aí um tipo de inserção da latinidade nos Estados Unidos, via cultura italiana, definindo marcas específicas no contexto inter e multicultural norteamericano. 

E, considerando as ligações perigosas que definem as relações históricas entre Estados Unidos e México, é instigante perceber como através das artes do cinema se evidenciam vigorosas modalidades de resistência cultural, como podemos observar em películas como Viva Zapata (John Steinbeck, 1952) e Pancho Vila (Bruce Beresford, 2004).

7 O cinema e as minorias ideológicas 

Como amplas janelas para um entendimento sensível das transformações no tocante as interculturalidades, percebo a exibição de filmes específicos que mostram como as etnicidades, as minorias identitárias, as diferenças se encontram e se confrontam no cotidiano norte-americano: A cor púrpura (Spielberg, 1985), Filadélfia (Johnathan Demme, 1993), Malcom X (1992) e Faça a coisa certa (1988), [ambos de Spike Lee], Dança com Lobos (Kevin Costner, 1990), A outra história americana (Tony Kaye, 1998) e Beleza Americana (Sam Mendes, 1999) são alguns dos ícones da representação da violência, fratura e intolerância social na América. Isso sem falar nas transmutações indignadas - locais e globais - em outros campos audiovisuais (TV, vídeo, DVD), como Raízes (Alex Halley, 1977), Holocausto (Marvin Chomsky, 1978), A Lista de Schindler (Spielberg, 1993), Anjos da América (Mike Nichols, 2003), e na associação entre o cinema e a televisão, exibindo as crueldades humanas numa série como Roma (2005). Os processos multiculturais se viabilizam na era da informação por meio de vários procedimentos intermidiáticos, promovendo um formidável atrator semiótico e sensibilizando as audiências planetárias que se agregam solidárias contra todas as formas de aviltamento, desrespeito e discriminação às diferenças que constituem a complexidade humana.

O poder e a expressividade da cultura das redes (principalmente no que concerne às interfaces do cinema e da televisão) residem na articulação das imagens, sons e discursos que tocam nos nervos da civilização ocidental e norte-americana, por meio de argumentações poéticas incisivas e contraideológicas acerca das exclusões sociais, racistas, sexistas, homofóbicas, etc. As modalidades do fascismo são vistas com lentes de aumento pelas câmaras implacáveis, que desmontam os preconceitos e as segregações criando oportunidades estéticas e poéticas liberalizantes. Esta talvez seja a característica mais solene da arte tecnológica do cinema: flagrar o instante efêmero da crueldade e trazê-lo como uma experiência de choque para a proximidade intimista dos telespectadores nos espaços e tempos do seu conforto familiar. 

Enfatizo o papel dos audiovisuais e especificamente do cinema americano, na medida em que este atua há mais de um século contribuindo na formação sensorial e crítica do imaginário ocidental. De certo modo, o cinema de Hollywood atualiza o repertório das mitologias antigas; e aqui focalizo esta experiência como uma modalidade de reinvenção da América tanto pelos cineastas, diretores, artistas quanto pelos telespectadores dos quatro cantos do mundo que reconstroem as suas identidades a partir dos homens e mulheres, metrópoles e cidadelas imaginadas no cinema. No trajeto dos meios às mediações (e vice-versa) configuram-se as interculturalidades, ou seja, as influências mútuas, reciprocidades, contágios e transversalidades das culturas histórica, técnica, religiosa, musical, etc. Na era do turbocapitalismo, com a aceleração dos fluxos intermidiáticos e informacionais as redes e telas funcionam também como dispositivos de interculturalidade, colocando em relação dinâmica os cinco continentes e suas especificidades culturais locais.

No conjunto mais amplo dos produtos de Hollywood, encontramos obras de arte que são importantes na formação das subjetividades e sociabilidades universais. Desde as origens até as realizações mais recentes, o cinema propicia estilos de sonoridade e visibilidade que estabelecem a criação de comunidades afetivas, orientando modos de educação estética e inteligência cognitiva, consciência crítica e incorporação de procedimentos éticos, além de instigar formas de catarse e transcendência no interior das experiências culturais nos diversos recortes locais das sociedades de consumo. Esta é uma das dimensões afirmativas, libertadoras e revolucionárias do cinema norte-americano.

Cumpre declarar que esta apreciação do cinema se faz, primeiramente, tendo em vista o momento em que se formam no Brasil (e na América Latina) uma cultura popular de massa irrigada pelo cinema e pela televisão, ou seja, durante os anos 50/60/70. E lançamos uma mirada sobre a produção cinematográfica, sublinhando os chamados clássicos contemporâneos, mas também as pequenas obras que constituem - analogamente - uma espécie de “literatura menor” , como escreve Gilles Deleuze [1975], servindo, contudo, de norteamento para os “exercícios do ver”, numa sociedade como a brasileira se iniciando num processo de modernização industrial e tecnológica. Assim, prosseguindo nos anos 80/90/00, percebemos como o cinema se dissemina no planeta através das diferentes modalidades discursivas, como apologia e paródia, mas também crítica e ironia do “american way of life”.

8 O mel e o fel do cinema norte-americano 

Houve uma vez em Hollywood o tempo forte dos filmes musicais e dos dramas exuberantes, glamourosos como Casablanca (Michael Kurtz, 1942), Gilda (Charles Vidor, 1946), Cantando na Chuva (Gene Kelly, 1952), Sabrina (Billy Wilde, 1954), A um passo da eternidade (Fred Zinnemann, 1954), Suspiro de uma saudade (Henry King, 1955), Melodia Imortal (George Sidney, 1956), Tarde demais para esquecer (Leo MacCarey, 1957), Amor sublime Amor (Robert Wise, 1961), Doutor Jivago (Davis Lean, 1962). Constituem narrativas românticas, melodramas que permanecem no imaginário de muitas gerações de cinéfilos e são filmes premiados exaltando as paixões amorosas, mas, sobretudo, enaltecendo o ethos, a ideologia e sonho americano. 

Todavia, concomitantemente, a literatura, o teatro, as narrativas antigas inspiraram inúmeras histórias que se tornaram célebres por seus matizes ácidos, insólitos, provocantes, como se espera da “grande arte”. Nesse filão encontramos As vinhas da Ira (John Ford, 1940), Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950), A Malvada (Joseph Mankiewicz, 1950), Uma rua chamada pecado (Elia Kazan, 1951), Gata em Teto de Zinco Quente (Richard Brooks, 1958), De repente, no último verão (Joseph Mankiewicz, 1959), O que aconteceu a Baby Jane? (Robert Aldrich, 1962), Doce pássaro da juventude (Richard Brooks, 1962), Lolita (Stanley Kubric, 1962), Quem tem medo de Virgínia Woolf ? (Mike Nichols, 1966), Julia (Fred Zinnemann, 1977). Tais obras consistem em retratos cruéis da condição humana, projeções cruas do mal-estar civilizacional, exposição das atitudes extremas dos seres humanos, encenação explícita da complexidade e estranheza dos homens e mulheres diante das figuras do destino. 

Após a revolução sexual, rebeldia juvenil, fim do sonho e pós-orgia, o mal-estar na pós-modernidade - que genericamente remete aos anos 80/90/00 - tem gerado outros desafios, novas sacadas dos cineastas face às “nov(elh)as” ondas conservadoras, o retorno dos republicanos e recrudescimento das moralidades puritanas. Nessa ambiência inumeráveis filmes comerciais e alternativos, intimistas e sensíveis como Por volta da Meia Noite (Bertrand Tavernier, 1986), Bird (Clint Eastwood, 1988), Sexo, mentiras e videotape (Steven Soderbergh, 1989) Fisher King, o pescador de ilusões (Terry Gilliam, 1991), Grand Canyon, ansiedades de uma geração (Lawrence Kasan, 1991), Um dia de fúria (Joel Schumacher, 1993), Seis graus de separação (Fred Schepisi, 1993), Basquiat, Traços de uma vida (Julian Schnabel, 1996), Despedida em Las Vegas (Mike Figgis, 1995), Felicidade (Todd Solondz, 1998), O oposto do sexo (Don Roos, 1998), Alma de poeta, olhos de Sinatra (1998), Quero ser John Malcovitch (Spike Jonzen, 1999), Pollock (Ed Harris, 2000), As Horas (Stephen Daldry, 2002), Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Michel Gondry, 2004). 

Estas são algumas obras que constituem mergulhos subjetivos, decifrando as modulações da solidão, infortúnio, desencontro e incomunicabilidade entre as pessoas. A consciência do trágico cotidiano e a busca de saídas em tempos difíceis são a tônica principal destas produções, que como expressão da grande arte dramatiza as contingências e dissabores humanos. São por vezes filmes humorados, irônicos, sarcásticos que irradiam - sobretudo - uma atmosfera de transcendência pelos canais da música, da pintura, da literatura, da dramaturgia transmutados na película cinematográfica. Muitos deles são adaptações de obras literárias, uma boa parte representa expressões fortes do circuito alternativo, mas principalmente constituem roteiros surpreendentes atravessados pelas marcas da interculturalidade entre países, regiões, estilos e tendências diferentes incluindo a moda, design, comportamentos e linguagens, e são importantes na medida em que sinalizam o sentido da produção cultural em suas diversidades locais e globais. 

9 Sonhos e pesadelos da América 

Há um filme que define de certa forma um balanço na contracultura do cinema: Hair (Milos Forman, 1979) consiste numa experiência singular que traduz as formas do sonho e do pesadelo americano, atraindo platéias jovens do mundo inteiro. Trata-se de um produto que se caracteriza por um prisma de interculturalidade que aproxima as diferentes fronteiras culturais do Oriente e Ocidente, masculino e feminino, branco, negro, amarelo; conjunção feliz entre a razão crítica e a imaginação criadora. Logo, dá exemplo de como o cinema se debruça sobre o multiculturalismo, as hibridações e interpenetrações de tendências aparentemente irreconciliáveis. Temos aqui os resíduos dos discursos animados pela utopia da liberdade. 

Hair transmite a assimilação de sensações que já tinham sido experimentadas no teatro da Broadway (desde 1968), ganhando força pelo investimento poético e musical que agrega a sensibilidade das tribos urbanas no mundo inteiro. Mas lembramos que se instala num período histórico em processo de crescente conservadorismo, descrito como a era Reagan, o início da globalização econômica e desmontagem dos discursos libertários e progressistas que se diluem num contexto fortemente mercadológico. Todavia, malgrado as tonalidades irracionalistas, os matizes estetizantes do comportamento dionisiano das tribos rebeldes e a estandartização das utopias revolucionárias, Hair é importante como um “instante eterno” do cinema para as jovens gerações que - no Brasil (e na América Latina) - cresceram sob a égide de um regime autoritário e graças às imagens, sons e discursos libertários encontraram os canais para a catarse e a transcendência da rotina de uma vida mecanizada. 

Mais lisérgico, o filme The Doors (Oliver Stone, 1991), vai fundo num diagnóstico das gerações que radicalizam as experiências psicodélicas, expansão da consciência individual com drogas, sexo e rock in roll, tendo como leitmotiv a vida e a carreira dionisiana do cantor pop Jim Morrison, cujos exageros o levaram a uma morte prematura causada por overdose. Aliás, a representação das tribos rebeldes, do grito das gerações roqueiras se mostra fulminante no filme A Rosa (Mark Riddel, 1979), fixando o itinerário de Janis Joplin, imortalizada nas telas por Bette Midler. Assim o cinema de Hollywood se inscreve como algo mais do que uma mera “indústria da consciência”. Em outras modulações a consciência musical norte-americana seria liberada em outros musicais como em O Fantasma do Paraíso (Brian de Palma, 1974), na ópera-rock Tommy (Ken Russel, 1975) ou no film cult Pink Floyd, The Wall (Alan Parker, 1982). 

Num outro registro, Sem Destino (Peter Fonda) e Perdidos na Noite (John Schlesinger), ambos de 1969, já imprimiram em sua época, a natureza dos filmes insólitos; os seus personagens - em dupla - são outsiders, marginais, desviantes e significam uma escapada do estabelecido, da vida burguesa, das normas do status quo, virando do avesso a imagem do sonho americano. Ambos desarticulam a proposta narrativa do happy end, são obras de arte embaladas na filosofia dos “road movies”, expressando a tragédia das “bad trips”, como se não houvesse saída para os condicionamentos sócio-históricos e culturais. 

Sem Destino [Easy Rider] retrata um mergulho na América profunda, denunciando o puritanismo, o machismo, a misogenia, o preconceito e o medo de tudo aquilo diferente do habitual. Dois motoqueiros refazem o itinerário dos beatnicks dos anos 50, lançando-se numa odisséia pelos espaços abertos dos Estados Unidos, movidos a drogas e rock in roll (bem antes dos narcodoláres), mas -sobretudo- empenhados num processo de busca interior. Então, Sem Destino é um filme que possui um sentido extremamente místico, porque ali se inscreve o desejo de transcendência à materialidade que caracteriza estilo de vida americano. O final trágico, em que os motoqueiros são baleados na estrada pelos caipiras americanos hostis às imagens de liberdade encarnada pelos dois hippies, é emblemático de uma era em que o sonho de liberdade é destruído pela intolerância de uma sociedade conservadora e violenta. No futuro, o retorno à estrada se fará no filme Telma e Louise (Riddley Scott, 1991), trocando a dupla de rapazes por uma dupla de mulheres, numa fuga alucinada com desfecho trágico, mostrando as dimensões da barbárie americana na era melancólica das “fast food”. 

Num cenário intensamente urbano e narcisista, o filme Midnight Cowboy, estranhamente traduzido no Brasil por Perdidos na Noite, foi assistido no Brasil por platéias numa fase de repressão sexual extrema que encontravam o seu alívio nas pornochanchadas. Mas os espectadores mais cult, desejosos de uma produção mais elaborada realizaram a sua catarse pelo viés da éticaestética de o Midnight Cowboy. Como na maioria dos filmes de arte desse período, o que está em jogo é a busca das saídas individuais: a gíria, a droga, o psicodelismo, o vestuário extravagante, o transe psicodélico, a atitude cool atestam o aquecimento de um grau de narcisismo que se espraia pelos grandes centros urbanos. A caçada humana, a selva de pedra, o desencontro, a solidão, o desencantamento na periferia do primeiro mundo compõem um cenário insólito. Ali se representam a morte e vida dos outsiders num mundo industrial que se agigantou, sem deixar lugar para os perdedores. A melodia pós-romântica entoando os itinerários solitários dos dois vagabundos, Ratso (Dustin Hoffman) e Joe Buck (John Voght) permanece na memória acústica dos espectadores do mundo inteiro propiciando uma sinergia que agrega os solitários do planeta. A sua proeza está na carga simbólica que reúne universalmente as sensibilidades dispersas dos nômades de culturas distintas nas mais diversas partes do globo. Os cenários em ruínas da América são transmutados na estética efervescente da cultura pop: esta é a senha mais eficiente do filme permitindo o gozo estético das gerações flutuantes entre o sonho americano e a rotina diária da vida globalizada. 

10 As tribos rebeldes na praia de Hollywood 

O filme Woodstock (Michael Wadleight, 1970) permanece no imaginário das gerações de jovens dos anos 60/70 porque permitiu visualmente ao público mundial “pegar carona” na visibilidade e sonoridade de uma época historicamente fantástica. Woodstock representa a grande viagem para todos aqueles sujeitos cujo temperamento nômade pôde se realizar mesmo sem sair da poltrona. Então, esteticamente é valioso pelo seu sentido iniciático, pelo arrebatamento do espírito através das batidas e sonoridades eletrônicas do rock. Abre um campo enorme de possibilidade diante da realidade imaginada pelos jovens centauros, pacifistas e guerrilheiros. Hendrix, Baez, Cocker, Clapton, Daltrey, Dylan, Joplin, Moon, Santana e outros encarnam o grito ancestral dos oprimidos: a musicalidade frenética no festival de Woodstock consiste numa vibrante aparição do deus Dionísio na era eletrônica. Reúne numerosa galera: negros, latinos, mulheres, afroamericanos, outsiders preparando a sopa cósmica que vai nutrir o substrato multiétnico, interracial, polifônico e tribalista das Américas no século XX e XXI. Então, Woodstock é um filme que serve de referência para se vislumbrar a anunciação das interculturalidades contemporâneas desde sua gênese estética e musical. A agonia e o êxtase das grandes obras greco-latinas, estrangeiras, multisseculares retornam em filmes como Woodstock, com potência total. Através das tecnologias recentes os musicais aguçam a percepção e a inteligência coletiva pelo ritmo, poética musical e extrema visualidade. 

11 Estranhos e estrangeiros na América 

Zabrinsky Point (Antonioni, 1970) consiste numa película agressiva e estabelece uma iconicidade radicalmente subversiva do mito da felicidade na sociedade industrial. Antonioni, convidado a fazer um filme sobre e nos Estados Unidos, literalmente explode os ícones norte-americanos, transformando em estilhaços as geladeiras, aparelhos de televisão, automóveis e eletrodomésticos. Simbolicamente o cineasta italiano como cruel iconoclasta explode o sonho americano de consumo, atacando a quintessência da cultura de massa, ou seja, o objeto, a mercadoria. Ele, como diria Marx, acerta no coração do fetiche ocidental moderno. As imagens lisérgicas de jovens desnudos que se agregam fisicamente nas áreas do deserto, como doces bárbaros que declinam a ordem civilizatória realizam o choque intercultural: o olhar europeu de Antonioni sobre a cultura norteamericana industrializada e mergulhada na orgia dos objetos de consumo é cruel como os textos de Jean Baudrillard. A diferença está em que o cineasta encontra uma solução estética para o “drama ocidental”: niilista, radical, ressentido, pessimista, transforma a amargura diante do que vê como desolação existencial em beleza estética da guerra aos objetos. Baudrillard também não deixa pedra sobre pedra em sua semiologia da América. Os simulacros e cópias do mundo real resplandecem, para o sociólogo francês descrevendo a América como a primeira sociedade pós-moderna do mundo (1998). De certo modo, refaz a impressão sarcástica de Oscar Wilde, mostrando o trajeto histórico dos Estados Unidos, da barbárie à decadência sem passar pela civilização. Mas a ironia na experiência de ambos escritores é que são idolatrados no megaconsumo das celebridades intelectuais que encantam os americanos.

12 Mídia & história: simulação e crítica da “vida real” 

Eric Hobsbawn é um historiador atraente também para aqueles interessados em sondar as manifestações artísticas e intelectuais do século XX, particularizando o cinema, porque - entre outras virtudes - tem um olho cinematográfico. Ele parece seguir a lição do filósofo Gilles Deleuze, que ensina a lermos um livro como se assiste a um filme e vice-versa. Então, o narrador de Era dos Extremos, o breve século XX (1994), é ágil na construção de enunciados com mobilidade e visibilidade. Não é à toa que inspirou um documentário irrepreensível como Nós que aqui estamos por vós esperamos (Marcelo Masagão, 1991). As imagens-síntese, o fragmento como deflagração de sentido, a estética minimalista, o exercício de uma vigorosa percepção crítica, a contemplação do despertar dos anjos e o horror diante da História são alguns dos elementos constitutivos do grande cinema. Assim aconteceu nos anos da grande depressão, nos anos 20/30, e então Chaplin foi fundamental com sua figura de Carlitos, denúncia muda, em preto e branco da exclusão norte-americana, vide Luzes da Cidade (1931) e Tempos modernos (1936). 

Assim também ocorreu durante os anos de chumbo durante a guerra do Vietnã, como mostraram as películas Amargo Regresso (Hal Ashby, 1978), O franco atirador (Michael Cimino, 1978), Platoon (Oliver Stone, 1986), Nascido em quatro de julho (Stone, 1989); o inconformismo com a lógica da guerra aparece de maneira impiedosa em Nascido para Matar (Kubric, 1987); todavia a expressão mais indignada com a guerra do Vietnã se inscreve na alegoria sinistra de Apocalipse Now (Coppola, 1979). 

Já começam a surgir novas atitudes de crítica ao irracionalismo armamentista norteamericano na era de George Bush Jr, em filmes documentários como Farenheit, 11 de setembro (2004) e Tiros em Columbine (2002), ambos de Michael Moore. Porém o interessante de observar na história da ficcionalidade de Hollywood é a maneira como os produtos mais sensacionalistas - de certo modo - anunciaram os atentados terroristas em Nova York e Washington. Da guerra fria (1945-1989) até o confronto dos fundamentalismos (muçulmano e mercadológico), os cineastas mais comerciais não mediram esforços no aperfeiçoamento daquilo que se entende hoje como estética do terror. Aviões explodindo, construções e monumentos indo pelos ares, sofisticação dos meios de violência... tudo isso serviu de algum modo para os terroristas como lições sistemáticas na arte de derrubar edifícios usando aviões de carreira; ver por exemplo Força Alerta Um (Wolfgang Peterson, 1997), Com Air, a rota da fuga (Simon West, 1997), Nova York, cidade sitiada (Edward Zwick, 1998) e a trilogia Duro de matar (Renny Arlin, 1990). Entretanto, a licença poética da ficcionalidade do cinema lhe permite refinar um olhar sobre a condição pós-moderna e as novas buscas humanas numa sociedade minada por um sistema de valores em trânsito, em que as referências éticas e morais são flutuantes: essa sensação é flagrada em filmes como Totalmente Selvagem (Jonathan Demme, 1986), Felicidade (Todd Solondz, 1998), Contos de Nova Iorque (Scorcese, Coppola & Wood Allen, 1988), e de modo implacável nos filmes de Quentin Tarantino, como Cães de Aluguel (1992), Pulp Fiction (1994), Kill Bill (2003 e 2004) e Sin City (2005). 

13 A Rosa Púrpura do Cotidiano 

O cinema de Wood Allen representa certamente o que há de mais “genuíno” na arte cinematográfica norte-americana com sotaque nova iorquino. Mas a sua relevância reside antes pela ironia que caracteriza as narrativas do que pelo glamour da vida chique dos habitantes de Manhattan. A sofisticação de linguagem de Allen é provocante pelo pastiche em que se misturam as culturas judaica, literária, psicanalítica, esotérica e musical num embaralhamento que serve de estofo para a sátira social do comportamento das classes médias, suas paixões, seus fetiches e suas neuroses. Os espectadores dos filmes de Allen se vêem com um perfil semelhante aos seres urbanos de Nova Iorque, Londres, Paris, Tóquio ou S. Paulo. Ou seja, Allen responde às expectativas e inquietações da sensibilidade do homem das multidões, solitário e cultivado pelas emanações dos seres imaginários do cinema. A Rosa Púrpura do Cairo (1985) é sagaz ao conceder vida ao simulacro, aos personagens de ficção, à mitologia das celebridades, ao sonho de transcendência na experiência efêmera da atividade de consumo. 

O filme é importante porque o autor ali radicaliza a beleza do mito cinematográfico em sua banalidade, mostrando um espelho do espectador extasiado diante da sua própria mitologia, que sai da tela, encarnando o amor, mas também o Mefisto que lhe oferece uma existência artificial e maravilhosa e lhe convida para ingressar literalmente na realidade forjada pelo cinema. 

O cineasta desmonta a aura romântica das narrativas cinematográficas por meio de uma metalinguagem de grande força poética. Desmitifica o sonho de Hollywood sem perder a ternura pelo cinema. Sem final feliz, nem infeliz, a obra é pródiga pelo desvelamento da relação entre os seres urbanos e suas próteses, suas imagens especulares na tela, na espessura de uma arte tecnológica que ri das desesperanças. Ri da interpenetração estranha entre natureza, história de vida e mitologia do cinema. Logo, A Rosa Púrpura do Cairo persiste na imaginação urbana ocidental pela execução de um projeto estético que radicaliza a representação dos seres humanos e seus duplos na corporeidade simulada pela arte cinematográfica. A metalinguagem poética do cinema em A rosa Púrpura possui o seu equivalente em outro filme, que homenageia A Era do rádio (1987), resgatando imagens e sons dos tempos da grande guerra mundial, os grandes salões, as celebridades, a penetração exótica dos idiomas, cancioneiros e estilos estrangeiros (como o da brasileira Carmem Miranda), além da hibridação bem sucedida do radio com dramaturgia e os musicais formidáveis que se irradiaram nos anos 30/40. 

Sobretudo, A rosa púrpura traz à discussão o aspecto fundamental das intertextualidades e interpenetrações das mídias, revigorando o tema da grande ilusão do cinema, as relações entre a ficcionalidade e a vida cotidiana; aliás, retomando a temática das ilusões, dos mitos e da vida real ficcionalizada, Wood Allen tocará nos nervos do “system star”, da sociedade do espetáculo, em Celebridade (1988), algo que já teria feito como paródia na arte pop de Noivo Neurótico, noiva nervosa (1977), carnavalizando o teórico McLuhan como celebridade intelectual.

14 Agonia e êxtase de uma vida mentirosa 

A recepção no Brasil de um filme como O Show de Truman (Peter Weir, 1998), deve ser compreendida no amplo contexto dos Reality Shows (No Limite, Big Brother, Casa dos Artistas), no início das experiências afetivas e sexuais pela Internet e num ambiente que, passo a passo, evidencia a proliferação das câmeras de vigilância. O filme performatiza uma endoscopia da vida americana e o êxtase social face ao fenômeno midiáticotecnológico. É um filme soft que desvela com ritmo e elegância o kitsch americano atravessado por um sistema de controle do imaginário, pela ficcionalização radical da vida cotidiana. É o universo da tela total denunciada por Jean Baudrillard (1997), como assédio, ocupação e anulação das liberdades individuais através dos dispositivos midiáticos. Tem semelhança com o filme Videodrome (David Croenberg, 1983): só que este se caracteriza por uma violência extrema, brutal e sangrenta em que o aparelho de televisão dispara com arma de fogo contra o telespectador. Em “...Truman”, a existência do personagem é roubada, recriada artificialmente em laboratório, os seres que privam de sua privacidade são atores contratados, o seu amor é inventado por uma corporação anônima. Mas é um filme, light, os procedimentos de controle são sinistros, mas calmos, serenos e tranqüilos. É perspicaz também centrando o foco narrativo sobre o cotidiano dos cidadãos-telespectadores vivendo a ficcionalidade de um personagem real pré-fabricado. Então, desta forma Truman consiste num espelho da sociedade atual nas Américas, na Europa, nas culturas globalizadas do mundo inteiro, e é junto a estas que assegura uma fantástica audiência. É um exemplo de Hollywood com filtro em nível contra-ideológico, desvendando as nervuras da relação íntima entre o mundo real e o mundo imaginado dos audiovisuais. O filme alerta astuciosamente para alguns detalhes da relação entre a realidade imaginada pelos audiovisuais, as grandes possibilidades de escolha, as tomadas de decisão diante das ilusões mais promissoras.

15 O cinema abrindo as portas da cibercultura 

Há várias linhas possíveis para resumir a lógica de sentido de um filme como Blade Runner, O Caçador de Andróides (Ridley Scott, 1982). A primeira remete o arquétipo universal do replicante, aquele que se recusa a morrer, atualizando uma pulsão vital da existência do ser em quaisquer circunstâncias espaciais ou temporais. A segunda indica a perplexidade dos humanos diante de um mundo caótico e sombrio que não se realizou como promessa de felicidade. A terceira leva a uma interpretação agônica do Ser em sua contingência de nomadismo, mutação e finitude, mas terrivelmente assustado diante da experiência da clonagem humana. 

A celebração do filme na iconologia clássica da cultura midiática se deve à exaltação dark de uma cultura high-tech de fim de milênio, entediada no cotidiano multicultural das tribos sobreviventes. Mas se deve, sobretudo, à temática dos cyborgs que dominará grande parte da representação artísticomidiática do século XXI. Visão, som e fúria comporão o tema dominante no universo intersemiótico das artes audiovisuais, respondendo ao êxtase e ao mal-estar da civilização místico-tecnológica do novo milênio. Disseminando-se por meio dos diversos suportes comunicacionais (disco, vídeo, site e DVD), Blade Runner aglutina as tribos globais fisgadas em suas formas efêmeras de sociabilidade. Os desterritorializados no planeta se encontram na midiosfera irradiada por Blade Runner, que antecipa a sensibilidade e visibilidade noir no tempo das tribos.

Magnates y estrellas, una historia de Hollywood (cap. 1) (A History of Hollywood) (part 1)



Magnates y estrellas, una historia de Hollywood (cap. 2) (A History of Hollywood) (part 2)

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Charlie Chaplin

Charlie Chaplin

Prefácio 

por François Truffaut


Charlie Chaplin é o cineasta mais célebre do mundo,mas sua obra quase se tornou a mais misteriosa do cinema. À medida que expiravam os direitos de exploração comercial de seus filmes, Chaplin proibia a distribuição, escaldado, convém esclarecer, por inumeráveis reedições piratas,e isso desde o início de sua carreira.As novas gerações de espectadores que chegavam só conheciam O garoto, O circo, Luzes da cidade, O grande ditador, Monsieur Verdoux, Luzes da ribalta de ouvir falar.


Em 1970, Chaplin decidiu repor em circulação a quase totalidade de sua obra,parecendo,portanto,oportuna a publicação dos textos de André Bazin sobre ele. Esta reunião permitirá acompanhar, exatamente como se caminha sobre a bitola de uma via férrea, a trajetória de dois pensamentos, o do cineasta e o do escritor. Bazin conhecia a obra de Chaplin como a palma de sua mão, o que pode ser constatado ao se ler este livro. Mas posso acrescentar a ele a maravilhosa recordação de inúmeras sessões de cineclubes em que vi Bazin apresentar a operários, seminaristas ou estudantes Pastor de almas, O vagabundo ou outros “rolos” que ele conhecia de cor e que descrevia antecipadamente,sem alterar o efeito-surpresa; Bazin falava de Chaplin melhor que ninguém, e sua dialética vertiginosa somava-se ao prazer com que fazia isso.

Ao contrário de Eric Rohmer – de quem admiro sem reservas o magnífico texto que aceitou escrever sobre A condessa de Hong Kong a fim de atualizar este livro –, nunca me ergo contra o status especial concedido a Charlie Chaplin na história do cinema, não somente a escrita, mas também a que se fala e que estabelece reputações.

Durante os anos que precederam a invenção do cinema falado, pessoas no mundo inteiro, principalmente escritores e intelectuais, zombavam e desdenhavam do cinema, no qual viam apenas uma atração de parque ou uma arte menor. Toleravam apenas uma exceção, Charlie Chaplin – e compreendo que isso parecesse odioso a todos aqueles que tinham visto com atenção os filmes de Griffith, Stroheim e Keaton. Foi a polêmica em torno do tema: o cinema é uma arte? Mas esse debate entre dois grupos de intelectuais não dizia respeito ao público, que, por sinal, não se questionava sobre o tema.Com seu entusiasmo,cujas proporções são difíceis de imaginar hoje – seria preciso transferir e estender ao mundo inteiro o culto prestado a Eva Perón na Argentina –,o público fazia de Chaplin, no momento em que terminava a Primeira Guerra Mundial, o homem mais popular do mundo.

Se fico maravilhado,cinqüenta e oito anos depois da primeira aparição de Carlitos na tela, é porque vejo nisso uma grande lógica – e nessa lógica, uma grande beleza. Desde seus primórdios, o cinema foi feito por pessoas privilegiadas, ainda que não se tratasse, até 1920, de praticar uma arte. Sem repetir o refrão, famoso desde maio de 1968,a propósito do “cinema burguês”,gostaria de observar que sempre houve grande diferença, não apenas cultural, mas biográfica, entre as pessoas que fazem os filmes e as que a eles assistem.

Se Cidadão Kane nos parece ímpar como primeiro filme, isto acontece porque, entre outras particularidades, é o único primeiro filme realizado por um homem já célebre (quero falar da imensa fama de Orson Welles depois de seu programa de rádio adaptado de A guerra dos mundos,que provocou por todos os Estados Unidos um pânico várias vezes relembrado e que levou Welles,com justiça, até as portas dos estúdios RKO,em Hollywood).É claro que foi essa celebridade adquirida que permitiu a Orson Welles filmar a história de um homem célebre (Hearst),se a ela acrescentarmos um elemento biológico,a precocidade,que lhe permitiu,aos vinte e cinco anos, retraçar de forma plausível uma vida inteira – e até mesmo a morte.

No lado oposto de Cidadão Kane,situo um outro primeiro filme genial e único, Acossado,este inversamente carregado do desespero e da energia de quem não tem nada a perder; ao filmá-lo,Godard não tinha no bolso nem o dinheiro para pagar uma passagem de metrô,era tão pobre – na verdade,mais – quanto o personagem filmado, e se a vida de Michel Poiccard estava em jogo,creio que a identidade de Jean-Luc Godard também estava.

Volto a Carlitos, de quem não me afastei tanto assim, pois os grandes homens, como as belas coisas, têm pontos em comum. Charlie Chaplin, abandonado pelo pai alcoólatra, viveu seus primeiros anos na angústia de ver a mãe ser levada para o asilo; depois, quando a internaram definitivamente, na aflição de ser perseguido pela polícia. Era um pequeno vagabundo de nove anos que se esgueirava pelos muros de Kensington Road, vivendo, tal como escreve em suas Memórias,“nas camadas inferiores da sociedade”. Se volto a essa infância, tão freqüentemente descrita e comentada a ponto talvez de perdermos de vista sua crueza, é porque convém examinar o que há de explosivo na miséria – se ela é total.Quando Chaplin entrar na Keystone para rodar “filmes de perseguição”, correrá mais rápido e mais longe que seus colegas do music-hall, pois, embora não fosse o único cineasta a descrever a fome, foi o único a conhecê-la, e isso é o que iriam perceber os espectadores do mundo inteiro quando os filmes começaram a circular a partir de 1914.

Não estou longe de achar que o próprio Chaplin,cuja mãe morreu louca, beirou a alienação, só a superando graças a seus dons de mímico (que herdara precisamente da mãe). De uns anos para cá, vem se estudando mais seriamente o caso de crianças que cresceram no isolamento,na miséria moral,física ou material,e os especialistas descrevem o autismo como um mecanismo de defesa.Ora,veremos claramente,pelos exemplos extraídos por Bazin da obra de Chaplin, que tudo é mecanismo de defesa nas façanhas e nos gestos de Carlitos. Quando Bazin explica que Carlitos não é antissocial, mas associal,e que aspira a ingressar na sociedade,define,quase nos mesmos termos que Leo Kanner,a diferença entre o esquizofrênico e a criança autista: “Enquanto o esquizofrênico tenta resolver seu problema abandonando um mundo do qual fazia parte, nossas crianças chegam progressivamente ao compromisso que consiste em tatear com prudência um mundo do qual estavam alheias desde o início.”

Para me ater a um único exemplo de descompasso (a palavra descompasso volta constantemente sob a pena de Bazin, como sob a de Bruno Bettelheim quando fala das crianças autistas em A fortaleza vazia), eu juntaria duas observações a propósito do papel do objeto: “A criança autista tem menos medo das coisas e talvez atue sobre elas, já que os personagens, e não as coisas, parecem ameaçar sua existência.No entanto,o uso que faz das coisas não é aquele para o qual elas foram concebidas.” (Bettelheim)

“Parece que os objetos só aceitam ajudar Carlitos à margem do sentido que a sociedade lhes atribui. O mais belo exemplo desses descompassos é a famosa dança dos pãezinhos, em que a cumplicidade do objeto explode numa coreografia gratuita.” (André Bazin)

No vocabulário atual, diríamos que Carlitos é um “marginal”, e, em seu gênero, o mais marginal dos marginais. Ao se tornar o artista mais célebre e mais rico do mundo, vê-se obrigado, pela idade ou pelo pudor,em todo caso pela lógica,a abandonar o personagem vagabundo,mas compreende que lhe são proibidos os papéis de homens “estabelecidos”– muda de mito,mas permanece mítico. Prepara então um Napoleão, uma vida de Cristo, renuncia a esses dois projetos e filma O grande ditador, depois Monsieur Verdoux e Um rei em Nova York, passando pelo Calvero de Luzes da ribalta, clown de tal forma decadente que, certa feita, propõe a seu empresário:“E se eu continuasse minha carreira sob um falso nome?”

De que é feito Carlitos, por que e como dominou e influenciou cinqüenta anos de cinema – a tal ponto que o distinguimos nitidamente sobreposto a Julien Carette de A regra do jogo, assim como distinguimos Henri Verdoux por trás do Archibald de la Cruz e como o pequeno barbeiro judeu que assiste à sua casa pegar fogo em O grande ditador e que revive, vinte e seis anos mais tarde, no velho polonês de O baile dos bombeiros, de Milos Forman? Eis o que André Bazin soube ver e fazer ver.

Introdução a uma simbologia de Carlitos


Carlitos é um personagem mítico
Carlitos é um personagem mítico que domina cada aventura em que se mete. Carlitos existe para o público antes e depois de Carlitos policial (1917) ou Pastor de almas (1923). Para centenas de milhões de homens no planeta, Carlitos é um herói como Ulisses ou Roland le Preux o foram para outras civilizações, com a única diferença de que conhecemos hoje os heróis antigos por meio das obras literárias acabadas que fixaram definitivamente suas aventuras e metamorfoses, ao passo que Carlitos continua livre para entrar em um novo filme. Chaplin vivo permanece o criador e o fiador de Carlitos.

O que faz Carlitos correr?
Mas a continuidade e a harmonia da existência estética de Carlitos só poderiam ser apreendidas através dos filmes por ele vividos.O público o reconhece pelo rosto, sobretudo, pelo bigodinho em trapézio e o passo de ganso, que, mais que o hábito, tampouco faz o monge. Em Pastor de almas, Carlitos aparece apenas como detento e clérigo, e em numerosos esquetes veste o smoking ou o fraque elegante de milionário. Mas essas referências físicas teriam pequeníssima importância se não discerníssemos,em primeiro lugar,os constantes aspectos internos realmente constitutivos do personagem. Estes são menos fáceis de definir ou descrever.

Podemos tentar fazê-lo segundo sua maneira de reagir a um tipo dado de acontecimento. Por exemplo, a ausência completa de obstinação quando o mundo lhe opõe uma resistência grande demais. Busca então contornar a dificuldade, em lugar de resolvêla; uma solução provisória lhe basta, como se o futuro não existisse para ele. Em Pastor de almas, por exemplo, apara um rolo de pastel sobre um móvel com uma garrafa de leite de que irá se servir instantes mais tarde: o rolo naturalmente cairá sobre sua cabeça. Mas se o provisório sempre lhe basta,ele dá provas,no imediato,de uma engenhosidade prodigiosa. Nunca uma situação o deixa desamparado. Para ele, tudo tem solução, embora o mundo – e talvez o dos objetos ainda mais que o dos homens – não seja feito para ele.

Carlitos e os objetos
 A função utilitária dos objetos referese a uma ordem humana ela própria utilitária e prenunciadora do futuro. Neste mundo, o nosso, os objetos são utensílios mais ou menos eficazes,dirigidos para um objetivo preciso.Mas os objetos não servem a Carlitos como a nós.Assim como a sociedade se integra a ele provisoriamente apenas por uma espécie de mal-entendido,sempre que Carlitos quer fazer uso de um objeto segundo sua forma utilitária,isto é,social,ele age como um desajeitado ridículo (particularmente à mesa), ou são os próprios objetos que se lhe recusam, a rigor, voluntariamente.

Em Dias de prazer (1919), a velha câmera Ford pára de filmar sempre que ele abre a portinhola. Em Carlitos enterra sua vida de menino (1915), a cama mecânica arma-lhe os piores logros para impedi-lo de se deitar. Em A casa de penhores (1916), as engrenagens do despertador que ele acaba de desmontar começam a se mexer sozinhas como vermes.Inversamente,contudo,também lhe servem os objetos que se recusam a se submeter a ele na mesma medida em que se oferecem a nós.Com muito mais facilidade,porque Carlitos faz deles um uso multiforme e porque solicita deles, sempre,um serviço do qual tem necessidade mais imediata.O bico de gás, em Carlitos policial, serve de arma para asfixiar o terror do quarteirão. Um pouco mais tarde, a panela de ferro servirá para atingi-lo (ao passo que o cassetete, objeto “funcional”, só conseguira lhe provocar uma leve zoeira nos ouvidos).

Em Um idílio nos campos (1919), uma camisa serve de toalha de mesa, e as mangas, de guardanapo etc. Parece que os objetos só aceitam ajudar Carlitos à margem do sentido que a sociedade lhes atribui. O mais belo exemplo desse descompasso é a famosa dança dos pãezinhos, em que a cumplicidade do objeto explode numa coreografia gratuita.

Examinemos outra gag característica.Em O aventureiro,Carlitos acha que se livrou dos guardas que o perseguiam atirandolhes pedras do alto de um penhasco; os guardas, com efeito, jazem mais ou menos abatidos. Porém, em vez de aproveitar a oportunidade para se livrar deles, Carlitos diverte-se, fanfarrão, atirandolhes outros pequenos seixos. Ao fazer isso, não vê chegar por trás um colega dos policiais, que observa sua atitude. Procurando uma pedra com a mão, Carlitos encontra a sola do sapato do guarda. Admirem seu reflexo: em vez de tentar fugir, o que visivelmente não oferecia chances de sucesso, ou – tendo avaliado o desespero da situação – entregar-se ao vigilante,Carlitos cobre o inesperado pé com um pouco de terra. Você ri e seu vizinho também. A princípio todo mundo ri o mesmo riso. Mas “escutei” essa gag vinte vezes em cinemas diferentes; quando o público, ou pelo menos parte dele, era composto por intelectuais (estudantes, por exemplo), desencadeava-se uma segunda onda de riso de natureza diversa. Nesse instante, a sala não era mais tomada pela explosão de riso inicial, mas por diversos ecos de risos, como numa interferência sonora,refletidos pelo humor dos espectadores como sobre os paredões invisíveis de um abismo. Esses efeitos de ecos nem sempre são perceptíveis nas salas de cinema, em primeiro lugar porque dependem do público, mas sobretudo porque as gags de Carlitos em geral são de tal modo breves que só nos dão o tempo necessário e suficiente para captá-las, não há pausa na narrativa que permita pensar nelas.É o contrário da técnica imposta no teatro para os risos da platéia.

Embora formado na escola do music-hall, Carlitos depurou sua veia cômica recusando-se a ter qualquer complacência com o público.Sua exigência de simplicidade e de eficiência inteiramente dedicada à clareza mais elíptica possível da gag. Porém, mal esta se consuma, ele recusa-se a valorizá-la. A técnica da gag em Carlitos mereceria naturalmente, por si só, um estudo que não podemos empreender aqui. Basta talvez demonstrar que ela atinge uma espécie de perfeição-limite, a densidade suprema do estilo.

É absurdo tratar Carlitos, por exemplo, como um palhaço talentoso. Se o cinema não existisse, Carlitos seria, com efeito, um palhaço talentoso, mas o cinema permitiu-lhe alçar a comicidade do circo e do music-hall ao mais alto nível estético. Chaplin precisava dos recursos do cinema para libertar ao máximo a comicidade da servidão de espaço e tempo imposta pelo palco ou picadeiro do circo. Graças à câmera, e com a evolução do efeito cômico representada gradativamente com maior clareza, não somente era desnecessário engrossar a piada para que toda uma platéia a compreendesse, como também, ao contrário, era possível refiná-la ao extremo, limar e lubrificar suas engrenagens imprimindo-lhes mecânica de alta precisão, capaz de responder de imediato às sensibilidades mais delicadas.

De resto, é significativo o fato de que os melhores filmes de Chaplin podem ser revistos ao infinito, sem que o prazer diminua, muito pelo contrário. Provavelmente porque a satisfação provocada por algumas gags é inesgotável, uma vez que profunda, mas sobretudo porque a forma cômica e o valor estético não devem essencialmente nada à surpresa. Esta, esgotada à primeira vista, dá lugar a um prazer bem mais requintado, que é a expectativa e o reconhecimento de uma perfeição.

Carlitos e o tempo
De toda forma,vê-se bem que a gag que citamos antes abre,ao primeiro choque cômico,um abismo espiritual que provoca no espectador, sem que este tenha tido oportunidade de explorá-la, essa vertigem deliciosa que modifica rapidamente a tonalidade do riso. Isso porque Carlitos leva ao absurdo sua tendência fundamental de não ultrapassar o instante. Ao se desvencilhar de dois guardas graças à capacidade de utilizar os acidentes do terreno e os objetos,assim que o perigo passa,ele pára de pensar em constituir uma reserva de prudência suplementar:o castigo não se faz esperar. Mas, dessa vez, ele é tão grave que Carlitos não consegue encontrar a solução instantânea (porém, podemos ter certeza de que não vai demorar a fazê-lo), não conseguindo superar o reflexo e o simulacro da improvisação. Um segundo, o tempo de um gesto de negação,e a ameaça será ilusoriamente afastada, apagada por essa borracha imperceptível. Não confundir, grosseiramente, o gesto de Carlitos com o do avestruz, que enfia a cabeça na areia! Todo o comportamento de Carlitos seria o oposto disso.Ele é a própria improvisação,a imaginação sem limites diante do perigo. Mas a rapidez da ameaça e, sobretudo, sua brutalidade, em contraste com o estado de espírito eufórico em meio ao qual ela surge,não lhe permitem safar-se imediatamente desta vez. Em lugar de resolver o problema, Carlitos não tem outro recurso senão suprimir as aparências. Quem sabe, em todo caso, aquele gesto,pela surpresa que provoca no guarda,que esperava um movimento de medo, não acabará por lhe oferecer a fração de segundo de que precisa para achar um jeito de fugir?

Esse gesto de apagar o perigo, aliás, faz parte de um conjunto de gags características de Carlitos, entre as quais incluiríamos a célebre camuflagem em árvore de Ombro, armas! (1918). “Camuflagem” não é a palavra certa. Trata-se, mais exatamente, de uma operação de mimetismo.A rigor,os reflexos de defesa resultam,em Carlitos, numa reabsorção do tempo pelo espaço. Acuado num perigo supremo e inevitável, Carlitos se apega às aparências como um caranguejo na areia (e isso vai além de uma metáfora: no início de O aventureiro, vemos o detento sair da areia onde estava escondido e se cobrir novamente quando o perigo retorna).A árvore pintada no pano,onde Carlitos se esconde,confunde-se de forma alucinante com as da floresta. Faz com que pensemos nos bichos-pau indiscerníveis entre os gravetos,ou naqueles bichos-folha que imitam as folhas inclusive nas partes devoradas pelas lagartas.A brusca imobilidade vegetal da “árvore-Carlitos” é também a mesma do inseto que se finge de morto (comparem também com a gag de Carlitos que finge ter sido morto pelo disparo de fuzil do guarda em O aventureiro).Mas o que distingue Carlitos do inseto é a presteza com que passa, quando quer, da dissolução espacial no cosmo à mais perfeita readaptação ativa. Assim, imóvel em sua árvore, ataca, um depois do outro, com um movimento de “galhos” rápido e preciso, os soldados alemães que passam ao seu alcance.

O pontapé é o homem
Carlitos exprime esse isolamento supremo em relação ao tempo biográfico e social em que estamos mergulhados – e que é para nós causa de remorso e preocupação – com um gesto familiar e sublime: o extraordinário pontapé para trás que lhe serve tanto para se livrar da casca de banana que acaba de comer e da cabeça imaginária do gigante Golias como, mais idealmente ainda, de todo pensamento embaraçoso. É significativo que Carlitos nunca desfira pontapés para adiante. Mesmo os pontapés nos traseiros de seus parceiros,ele dá um jeito de desferilos olhando para o outro lado.

Um sapateiro provavelmente veria nisso apenas a conseqüência do enorme bico dos sapatos. Permitam-me, entretanto, ir além desse realismo superficial e identificar no estilo e na utilização tão freqüente e pessoal do pontapé para trás o reflexo de uma atitude vital. Por um lado, Carlitos não gosta de encarar, se assim posso dizer,a dificuldade;gosta mais de atacá-la de surpresa,virando-lhe as costas; por outro lado, e sobretudo quando deixa de ter uma utilidade precisa (ainda que a de simples vingança),esse pontapé para trás exprime perfeitamente a preocupação constante de Carlitos de não se vincular ao passado,não arrastar nada atrás de si.Esse admirável pontapé torna-se,aliás,capaz de exprimir mil nuances,desde a vingança despretensiosa até a expressão lépida do “enfim livre”, a menos que ele não sacuda o pé para se livrar de algo inoportuno.

O pecado da repetição
A tendência à mecanização é o resgate que Carlitos paga por não aderir aos acontecimentos e aos fatos.Como o objeto nunca se projeta no futuro,segundo uma previsão utilitária, quando Carlitos mantém com ele uma relação de duração contrai bem rápido uma espécie de câimbra mecânica, um hábito superficial em que desaparece a consciência da causa inicial do movimento. Essa maçante inclinação sempre lhe prega peças. Ela está no princípio da famosa gag de Tempos modernos (1936) em que Carlitos, trabalhando na linha de montagem, continua espasmodicamente a apertar parafusos imaginários.Mas podemos identificá-la sob uma forma mais sutil em Carlitos policial,por exemplo. No quarto onde é perseguido pelo grandalhão, Carlitos coloca a cama entre ele e o adversário. Segue-se uma série de fintas, quando correm,cada qual por seu lado,a cama ao comprido.Ao fim de certo tempo, Carlitos acaba, a despeito do perigo evidente, por se habituar a essa tática de defesa provisória e, em vez de subordinar suas meias-voltas à atitude do adversário,põe-se mecanicamente a fazer vaivéns como se esse gesto por si só bastasse para separá-lo eternamente do perigo.Naturalmente,por mais estúpido que seja o adversário,basta-lhe,por uma vez,quebrar o ritmo para que Carlitos caia em seus braços.Acho inclusive que não há,em toda a obra de Chaplin, exemplo de mecanização que não lhe pregue peças.

A razão disso é que, de certa forma, a mecanização é o pecado fundamental de Carlitos, a tentação permanente. Sua liberdade a respeito das coisas e dos fatos só pode se projetar na duração sob forma mecânica, como uma força de inércia que se deflagra a partir de um acionamento inicial.A ação do homem-da-sociedade,isto é, vocês e eu, é organizada pela previsão e controlada ao longo de seu desenvolvimento por uma referência constante à realidade que ela quer modificar. A ação adere por inteiro à evolução do acontecimento no qual se insere. A de Carlitos, ao contrário, é feita de uma sucessão de instantes: para cada um deles, um obstáculo. Mas vem a preguiça, e Carlitos reproduz nos instantes seguintes a solução que convinha em outro dado momento.O pecado capital de Carlitos – e ele, de resto, não hesita em nos fazer rir à sua custa – é a projeção,no tempo,de uma forma apropriada ao instante:a “repetição”.

Acredito inclusive ser necessário vincular ao pecado da repetição a família de gags bem conhecidas em que vemos Carlitos feliz, chamado à ordem pela realidade. A célebre gag de Tempos modernos em que Carlitos quer se banhar e mergulha no rio... que tem apenas vinte centímetros de água,ou ainda a do início de Carlitos policial, quando, convertido pelo amor, sai esfregando as mãos e olhando para o céu... e cai de cara na escada. Embora não tenha feito um inventário mais preciso, eu afirmaria intuitivamente que todas as vezes que Carlitos nos faz rir à sua custa,e não à dos outros, é porque cometeu, de uma maneira ou de outra, a imprudência de assimilar o futuro ao presente, ou de retornar ingenuamente ao jogo dos “homens-da-sociedade” e acreditar em algumas de suas grandes máquinas de fabricar o futuro: máquinas morais, religiosas, sociais, políticas...

Um homem fora do sagrado Pois um dos aspectos mais característicos da liberdade de Carlitos em relação à sociedade é sua total indiferença às categorias do sagrado. Naturalmente entendo por sagrado, em primeiro lugar, os diversos aspectos sociais da vida religiosa.Os velhos filmes de Carlitos constituem a mais formidável súmula anticlerical que se pode imaginar a respeito da sociedade provinciana e puritana dos Estados Unidos. Basta lembrar Pastor de almas e aquelas prodigiosas fisionomias de diáconos, sacristãos, carolas amargas e desdentadas, quacres solenes e angulosos. O mundo de Dubout não passa de criancice diante dessa caricatura social digna de Daumier.

Mas a força principal do quadro resulta do fato de que o ácido que sulcou essa água-forte não é de forma alguma o anticlericalismo, mas antes o que conviria chamar de um aclericalismo radical. É, em todo caso, o que permite ao filme permanecer nos limites do tolerável:não há intenção sacrílega (até mesmo um pastor não se escandalizaria com o espalhafato de Carlitos).

Mas é bem pior: uma espécie de redução ao nada da justificação desses personagens, suas crenças e seus atos. Carlitos não tem absolutamente nada contra eles. Pode inclusive simular todos os ritos da missa de domingo, imitar o sermão para lhes dar prazer ou desviar as suspeitas da polícia, é quase como se introduzisse uma dança negra no ritual.

Ao mesmo tempo, ritos e fiéis são repelidos para um mundo absurdo, reduzidos a uma existência de objetos ridículos e quase obscenos porque são privados de sentido. Por um paradoxo ridículo, os únicos atos que assumem sentido nessa cerimônia são justamente os de Carlitos verificando o peso da coleta, agradecendo com um sorriso aos doadores mais generosos e franzindo um cenho reprovador em direção aos mais sovinas. É igualmente sua forma de vir agradecer diversas vezes depois do sermão como um ator de music-hall contente consigo – e não é um acaso o único espectador que entra em seu jogo e o aplaude ser um moleque atrevido que não parou durante toda a missa,a despeito das recriminações da mãe, de contemplar o vôo das moscas.

Mas os ritos religiosos não são os únicos. A sociedade impõe mil cerimônias que não passam igualmente de uma espécie de missa permanente que ela oferece a si própria. Um exemplo disso é a maneira de se comer em sociedade. Carlitos jamais consegue usar os talheres de modo conveniente.Põe sempre o cotovelo dentro dos pratos, derruba a sopa sobre a calça etc. O ápice é seguramente quando ele próprio é garçom de restaurante (em Carlitos patinador, 1916, por exemplo).

Religioso ou não,o sagrado está presente em toda a vida social, não apenas no magistrado, no policial, no sacerdote, mas no ritual de alimentação, nas relações profissionais, nos transportes públicos.É por ele que a sociedade mantém sua coerência,como em um campo magnético. Inconscientemente, a cada minuto, nos posicionamos segundo suas linhas de força. Mas Carlitos é feito de outro metal. Não apenas escapa à sua influência, mas a própria categoria do sagrado não existe para ele, sendo tão inconcebível quanto a rosa para um cego de nascença.

Mais precisamente, uma boa parte da graça de Carlitos nasce dos esforços que tem de fazer (pelas necessidades provisórias da causa) para nos passar à frente: por exemplo, quando tenta comer de forma adequada, até mesmo com delicadeza, ou quando introduz em sua roupa um enfeite ridículo...

Um Rei em Nova York


 

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O GRANDE DITADOR E O ARTISTA MAIOR DOS TEMPOS MODERNOS


O GRANDE DITADOR E O ARTISTA MAIOR DOS TEMPOS MODERNOS

Por: Adriana Schryver Kurtz


Theodor Adorno, que tão poucas concessões fez ao cinema comercial norteamericano, notaria, à respeito de The Great Dictator (1940), numa das notas e esboços de A Dialética do Esclarecimento: “o filme de Chaplin tocou pelo menos um ponto essencial, mostrando a semelhança entre o barbeiro do gueto e o ditador”. Afinal, os líderes contemporâneos ao grande filósofo frankfurtiano, haviam se tornado “o que sempre foram um pouco durante toda a época burguesa: atores representando o papel de líderes” (Adorno; Horkheimer, 1985:.221). Adorno não fez justiça a uma das obras primas do mais genial self-made-man da história do cinema. De fato, O Grande Ditador – como acontece com todas as grandes obras – evoca e ilustra inúmeros (e inusitados) aspectos não apenas daquele a quem Susan Sontag chamaria de “o tema do século XX por excelência”. O filme levanta questões pertinentes à própria natureza desse que foi o mais horripilante fenômeno de massas deste século: o nazismo alemão; bem como de sua guerra planetária e do holocausto judeu.

 Por ironia, o cidadão inglês Charles Spencer Chaplin e o austríaco Adolf Hitler iriam compartilhar algumas características relevantes. Eles nasceriam no mesmo ano de 1889. Ambos, à sua maneira, acalentariam pretensões artísticas e, por fim, imprimiriam sua marca à história do século XX. Amaram os filmes e o cinema e, de forma particular, ajudaram a escrever a história do medium que, surgido em 1895, se transformaria na mais típica – e poderosa – manifestação artística e cultural do século. Como se não bastassem estas coincidências, a semelhança física e o poder carismático de Chaplin e Hitler eram evidentes. Um detalhe crucial do rosto inesquecível de Carlitos, o bigodinho ridículo, lembraria o ditador germânico. Conta a lenda que as palavras do diretor e roteirista norte-americano Garson Kanin foram decisivas para que Chaplin superasse as dúvidas (de fato, as resistências – sobretudo políticas) quanto à realização de O Grande Ditador3 . “Em certa época, na história da humanidade, o pior vilão e o maior comediante conhecidos se parecem um ao outro” teria dito Kanin4 . “Não é preciso decidir coisa alguma sobre este filme: tudo já está decidido. É inevitável” (Gomes Jr., 1997:16). De sua parte, Chaplin escreveria num artigo publicado pouco antes da estréia de seu filme:

O grande ditador poderia ser o título de uma comédia, de uma tragédia ou de um drama; eu quis fazer um coquetel de todos esses gêneros e traçar um perfil, ao mesmo tempo grotesco e sinistro, de um homem que acreditava ser um super herói e pensava que a sua opinião e a sua palavra eram as únicas com valor (Chaplin apud Gomes Jr, ibidem:16-17).

Chaplin e Hitler compartilharam ainda, cada um à seu modo, é verdade, uma admiração pela obra da atriz e cineasta alemã Leni Riefenstahl, a autora “maldita” de dois dos mais conhecidos filmes de propaganda deste século: O Triunfo da Vontade (1936) e Olympia (1937). É sabido que O Grande Ditador (1940) deve parte de sua concepção visual ao mais célebre destes “documentários” – como insiste em chamá-los sua diretora. Qualquer um que tenha assistido a Triunfo reconhecerá, sem sombra de dúvida, a matriz inspiradora de O Grande Ditador, especialmente nas cenas que reúnem o líder e “sua” massa: lá está a vigorosa harmonia estética imprimida pela cineasta alemã ao cenário ritualístico nazista em Nuremberg.

Esta não seria a única citação que o gênio do cinema mudo faria à obra daquela que foi chamada, pelo próprio Führer de “minha mulher alemã perfeita”. Segundo Román Gubern, que assina a introdução das Memorias de Riefenstahl publicadas em Barcelona, Charles Chaplin enviaria um telegrama cumprimentando a atriz (então, uma promissora novata em seu filme de estréia) pela realização de A Luz Azul (1932). Ainda encantado com a obra inaugural da cineasta alemã, Chaplin vestirá sua terceira mulher, a atriz Paulette Goddard, em Tempos Modernos (1936), tal qual a personagem Junta, protagonista e heroína interpretada por Leni no mesmo A Luz Azul. O genial criador de Carlitos (o clown mais popular de toda a história do cinema que, ironicamente, faria sua última aparição nas telas em O Grande Ditador) não será – é bom que se note – o único nome relevante na longa lista que Leni Riefenstahl não cansa de trazer à público.

A admiração de Charles Chaplin por Leni Riefenstahl (e a inequívoca marca da cineasta alemã no registro imagético de O Grande Ditador) não deixa de evocar outras sugestivas – e irônicas – relações, ainda que involuntárias, entre a arte do cinema e a conturbada política da época, marcada pela crescente propagação do fascismo. O vagabundo Carlitos já havia atacado, (sempre) a seu modo, a mística da guerra com Ombro Armas ou Carlitos nas Trincheiras6 (1918): mesmo tendo sido a comédia preferida dos soldados americanos na Primeira Grande Guerra; mesmo tendo mostrado “um herói tão heróico que, sozinho, obtém a vitória para os aliados” (Fassoni apud Labaki, 1995:34), o filme não deixou de ser, como afirma Georges Sadoul, uma ousada e violenta sátira do conflito imperialista.

Em Ombro Armas, a ilusão do vagabundo é a maior mentira da sociedade burguesa, a mentira de que a guerra é heróica e moralmente justificável... Todo o filme é uma fantasia irônica na qual o vagabundo procura desajeitadamente fazer o que dele se espera, dando sua contribuição pessoal para a matança em larga escala (idem).

Lembremos uma das tantas cenas tornadas clássicas na filmografia de Charles Spencer Chaplin – a que encerra Tempos Modernos. O operário Carlitos, depois de enfrentar a desventura de ser uma indefesa cobaia da (in)eficiência da tecnologia moderna, recolhe uma bandeira vermelha caída de um caminhão. Enquanto hasteia a bandeira para o alto, um grupo de grevistas começa a seguí-lo, fazendo do vagabundo o (sem dúvida involuntário) líder do movimento. Esta cena foi expressiva o bastante para que a Itália de Mussolini/Napaloni e a Alemanha de Hitler/Hynkel e Goebbels/Garbistsch – mais do que os críticos europeus que viram coloração “comunizante” na obra – proibissem a exibição do filme.

Daí não causar estranheza que a mais célebre e honrosa (se é possível assim dizê-lo) citação angariada pelo cinema de propaganda nazista tenha sido varrida das telas germânicas e itálicas. O Grande Ditador, e sua clara “homenagem” ao Triunfo de Leni Riefenstahl, não seria apreciado pelo público que, massivamente, ajudava a concretizar o fascismo e o Nacional-Socialismo. Como dissera Krakauer8 , o cinema antecipava a “vida real”. Os tiranos profetizados e imortalizados pelo expressionismo alemão, cujo protótipo definitivo seria encarnado pelo médico/mostro de O Gabinete do Dr. Caligari (1919), mostravam a amplitude de seu poder: inclusive decidindo o que as massas poderiam – ou não – vislumbrar nas telas dos cinemas.

Chaplin foi certamente, o mais célebre cineasta (e provavelmente, o primeiro) a utilizar o material da cineasta preferida do Führer9 , embora não tenha sido – de forma alguma – o único. Durante a Segunda Grande Guerra, e no período imediatamente posterior, o cinema (em especial o de propaganda ideológica) fez um significativo uso – diríamos hoje “politicamente correto” – das imagens que levaram o culto de Hitler à sua expressão estética máxima. Tais filmes utilizaram diretamente cenas tomadas pela própria cineasta, buscando, segundo Furhammar e Isaksson, um “resultado exatamente oposto” ao que chamaram de “sedutora magia do nazismo”10 . Why We Fight (1924), série de documentários liderados por Frank Capra, Anatole Litvak e Antony Veiller, These are the Men, ou Eis os Homens, Nuit et Brouillard, ou Noite e Nevoeiro (1955), de Alain Resnais, Mein Kampf, ou Minha Luta (1959), de Erwin Leiser, e Obyknovenni Fashism, ou O Fascismo Comum (1965), de Mikhail Romm, teriam se apropriado das típicas imagens das colunas em marcha e de suas linhas rígidas para sugerir “um terror maquinal”. Em Germany Calling, ou Fala a Alemanha, (Inglaterra/1940), de Charles Ridley, tais registros comporiam “um ballet grotesco” (Furhammar & Isaksson, 1976:97).

3.1 Capra e Riefenstahl: o “belo técnico” em fronts opostos

Não é de se admirar que a obra de contrapropaganda nazista mais lembrada seja justamente a série de Frank Capra, Why We Fight (1942-1945). Capra deixou a ilha da fantasia hollywoodiana para alistar-se voluntariamente no exército norte-americano. Quando assistiu ao filme que imortalizara o Congresso do Partido Nacional-Socialista em Nuremberg, o cineasta deu-se conta de que “um rasgo genial” animava aquela obra, embora “horripilante”. Ele percebeu em Triunfo a força de uma mensagem tão “nua e brutal como um cano de chumbo” (apud Kurz, 18 maio 1997:3). Daí que os seus filmes buscavam utilizar “o filme dos inimigos a fim de pôr em evidência suas metas escravistas” (ibidem). Mas quais seriam as afinidades entre os dois cineastas-propagandistas?

Segundo Robert Kurz, um dos méritos de Capra era o seu “olho para o detalhe”, para a exatidão. “Obviamente esse olho para o detalhe tem uma dimensão técnica” observa, adequadamente, o sociólogo e articulista alemão. Por hora, parecenos interessante sugerir que esta característica intrínseca à estética de Frank Capra (e Leni Riefenstahl) – que Kurz chama de “dimensão técnica” – corresponde exatamente ao conceito de “belo técnico” resgatado por Willi Bolle em sua análise do que chamou de “culto da técnica”: a mais peculiar e reveladora faceta da “modernidade fascista”.

Há um outro ponto convergente entre as visões de mundo – e de estética – de ambos. O que num primeiro momento apresenta-se como a exata diferença – não esqueçamos, eles lutaram por lados opostos, um deles sob o credo liberal, a outra sob a autoridade ferrenha do líder carismático que une sua comunidade do povo – acabará revelando a mesma forma, distorcida note-se, de transformar os fatos da vida (pessoais, políticos e sociais) em questões transcendentes: “milagres” redentores e “destinos” inapeláveis conformam, respectivamente, os indivíduos e o “povo” idealizados por Capra e Riefenstahl.

 Capra toma o partido do sujeito artístico individual contra a filosofia crítica, da experiência contra a teoria: “Meus filmes penetrarão o coração não com lógica mas com compaixão”. Se se quiser, pode-se reconhecer aqui um eco da crítica de Adorno à “lógica de identidade”, um impulso pelo “não-idêntico” nos homens, que não se resolve nas determinações da estrutura social e de suas “coerções”. Contudo, quando essa posição permanece unilateral e irrefletida, logo não se vê mais a floresta por trás das enormes árvores. Para Capra só existiam as árvores isoladas, e nisto ele é rigorosamente liberal. Justamente por isso, todavia, o contexto social à sua volta só pode ser salvo com seu carregado sentimentalismo, e as soluções têm que vir diretamente de uma milagre, como que pela mão de Deus12 (Kurz, 1997:3).

Capra certamente partilhou sugestivas afinidades com sua colega de medium, ainda que num front inimigo. Mas suas trajetórias profissionais no pós-guerra evidenciam uma notória diferença13: ao contrário do cineasta norte-americano, Riefenstahl pagou caro pela notoriedade alcançada com seus filmes e – de forma adicional, ainda que não necessariamente secundária – com a boataria que, desde sua época de glórias junto ao Terceiro Reich, girava em torno de um romance com o Führer. Durante um longo período, a cineasta colheu frutos amargos: foi presa pelos americanos e, posteriormente, pelos franceses, enfrentando situações um tanto insólitas.

Conforme relata em seu livro biográfico, seus bens ficariam embargados por longos anos; suas propriedades confiscadas; os negativos originais de seus filmes perdidos, retidos pelos governos dos países vitoriosos ou vendidos ilegalmente a colecionadores particulares; já os direitos de distribuição de filmes comercializados internacionalmente e os ingressos do exterior, desde o início de sua meteórica carreira, poucas vezes chegaram a seu destino.

O chamado processo de desnazificação começaria com um primeiro julgamento em dezembro de 1948. Não havendo comprovação de que Riefenstahl ocupara cargos políticos ou fora membro do partido nazista, foi considerada integrante do grupo “não afetado pela lei”. O governo militar francês recorreria e, no ano seguinte, perderia uma vez mais: a primeira sentença é confirmada. Os franceses vão recorrer uma segunda vez: Riefenstahl foi considerada simpatizante do partido nazista, ainda que não tivesse pertencido ao mesmo.

A seguir viriam vários processos contra revistas internacionais que não cansavam de promover matérias sensacionalistas envolvendo o nome da cineasta15 . Estas publicações, conta Leni em suas Memorias, sistematicamente tumultuaram ou abortaram diversas tentativas de ver seus filmes já consagrados (como A Luz Azul) exibidos comercialmente na Europa, bem como em produzir e/ou dirigir novos projetos cinematográficos. Ainda que lutasse obstinadamente para trabalhar com o cinema, as portas iam pouco a pouco se fechando: e a cineasta preferida de Hitler iria amargar um progressivo obscurantismo internacional.

O acordo mais ou menos tácito de apagar a incômoda obra de Leni da memória histórica e do cenário estético da cinematografia mundial surtiu resultados. Seus mais brilhantes filmes de propaganda, Triunfo e Olympia permaneceram inacessíveis ao público, durante décadas, em vários países (entre os quais o Brasil). A cineasta desistiu de seus projetos cinematográficos, parecendo – quem sabe pela primeira vez – não corresponder à sua fama de obstinada. Leni provavelmente cansou-se... ou fez uma retirada estratégica. Seja qual for o verdadeiro impulso por trás de sua atitude, ela inauguraria uma nova fase em sua vida com a viagem para a África, os longos meses de convívio com os Nuba no Sudão e a (re)descoberta da arte fotográfica16. Se o mundo não queria saber de seus filmes (ou sobretudo de sua propaganda ideológica), Riefenstahl, como num refinadíssimo tapa de luvas, ofereceria a beleza estética de suas fotografias.

3.2 Da imperfeição de arquitetos e deusas

Em 1989 é lançado o documentário Arquitetura da Destruição, ou Architektur des Untergangs, (Suécia/1989), de Peter Cohen, um vigoroso levantamento das artes sob o Nacional-Socialismo. A obra, de mais de três horas de duração, defende a tese de que certo projeto de embelezamento da Alemanha e do mundo sonhado pelo arquiteto da destruição, Adolf Hitler, explica muitos aspectos estratégicos não apenas da Segunda Grande Guerra, mas do próprio Holocausto perpetrado contra os judeus europeus. A contribuição de Leni ao cinema nazista praticamente não merece nenhuma menção por parte de Cohen, que parece considerar seus filmes menos representativos em termos de propaganda ideológica do que títulos (não menos famosos, é verdade) como O Judeu Süss e O Eterno Judeu – e sua infame seqüência dos ratos/judeus dos guetos poloneses.

Mas foi o lançamento de Leni Riefenstahl. A Deusa Imperfeita (1993) – no original Leni Riefenstahl. Die Macht der Bilder (Alemanha/Bélgica) –, de Ray Müller, no início da década de 90, que resgataria, de uma vez por todas, é bom que se note, a figura da cineasta alemã do limbo do esquecimento. A Deusa foi, indiscutivelmente, o mais polêmico exemplar de um pequeno número de filmes (de inusitada repercussão mundial) centrados no ideário artístico e cultural do III Reich. De forma mais efetiva do que Arquitetura, o filme de Müller recolocou a discussão sobre o papel da arte e a responsabilidade do artista em seu tempo, através da fascinante trajetória desta que foi a diretora preferida de Hitler. Passados mais de cinqüenta anos do final da II Grande Guerra, o cinema de Leni Riefenstahl ainda suscita embaraçosas questões.

...el caso de Leni Riefenstahl plantea brutalmente y de modo radical la cuestión de la autonomía estética del arte, su autosuficiencia formal, más allá de sus eventuales perversos contenidos o de sus propuestas éticas. Las mejores obras de la autora proclamarían así que la excelencia estética es una categoria aislable de la excelencia ideológica. Leni Riefenstahl se alinea así junto a artistas como Céline, Drieu de la Rochelle o Ezra Pound, cuya adscripción ideológica no dañó la integridad estética de su obra. Y, de un modo más radical todavía, obliga a admitir que el mal puede generar sus proprias obras maestras, susceptibles de gratificar incluso a quienes rechazan su contenido ideológico... (Gubern, in: Riefensthal,1991: 09).

Sabe-se que na época do lançamento de O Grande Ditador não seria tão simples isolar – sem cerimônia – a “excelência” estética da ideológica. Para além de todos as pressões políticas da época, o próprio Chaplin reconheceria este fato quando afirmou que se ele (e o mundo) tivesse conhecimento das atrocidades cometidas nos campos de concentração alemães, não teria podido realizar o filme, pois segundo suas palavras, “não seria capaz de brincar com a demência homicida dos nazistas” (apud Gomes Jr., 1997:24). O maior comediante da história do cinema tinha seus princípios, suas posições políticas e seus pudores19, ao contrário da jovem cineasta cuja obra servira de inspiração para compor visualmente as cenas de Hynkel junto a sua “comunidade do povo”. 

A Deusa Imperfeita mostra magistralmente a insistência de uma idosa senhora em repisar a tese – também antiga, ainda que em voga recentemente – de que, em se tratando de estética, a política nada significa. Diante da câmera de Ray Müller, ela preconiza, com o habitual e inabalável tom de quem, do alto de seus noventa anos intensamente (e, por alguns anos, muito bem) vividos, pôde conferir na prática a validade de suas teorias: “arte e política são coisas diferentes. Nada têm a ver uma com a outra”. Não satisfeita em reiterar as suas firmes convicções pessoais, Riefenstahl ainda aconselha: “...um artista não pode pensar politicamente, se se dedica totalmente ao seu trabalho” (in: A Deusa Imperfeita). Isso valeria, deduzimos, tanto para criar os documentários mais famosos do Terceiro Reich quanto para isentá-la de qualquer implicação a respeito da elegante, intensa e emocionante vida cultural e social20 que marcou seus anos de cineasta predileta do Führer, no mesmo ambiente – eminentemente político. 

Mesmo analisando sua vida e obra retrospectivamente, falta um mínimo de pudor à cineasta alemã ao dizer sobre O Triunfo da Vontade: “O filme não era político. Fotografei os motivos tão bem quanto pude. Se era política ou verduras pouco me importa”. O complemento de tal raciocínio acrobático é soberbo: “Havia filmes com mais suásticas” (idem). Leni Riefenstahl parece ter transferido não só a ousadia e o vigor físico, mas também o ímpeto irracional de suas escaladas em montanhas rochosas, para o âmbito do exercício intelectual. De certa maneira, a implacável ação do tempo – ela está a beira de registrar um século de vida – não causou nenhum dano a seu espírito aventureiro. 

Como que para ilustrar, de forma mais expressiva, a polêmica que Riefenstahl detonou ao romper, finalmente, com todos os esforços (ou as omissões) para que seu nome continuasse no obscurantismo, a década de 90 se encerra com uma outra citação inequívoca de sua obra máxima. O tipo de “representação” de uma comunidade de pares idealizada pelo nazismo e rigorosamente encenada em Nuremberg, no ano de 1934, foi retomada nas cenas inaugurais de Tropas Estelares (1997), de Paul Verhoeven. O espírito de comunhão dos belos guerreiros fotografados por Leni é revivido pelos também belos – ainda que um tanto débeis – (anti)heróis deste filme que é a mais recente citação de O Triunfo da Vontade.

Trata-se, é verdade, de uma queda vertiginosa se pensarmos na importância, na qualidade e na eterna atualidade da obra de Chaplin. Mas por outro lado, eis uma amostra digna da espécie de cinematografia industrial e comercialmente hegemônica de nossa contemporaneidade, nesta cultura que muitos querem ver reconhecida como pós-moderna (ainda que não haja um consenso sobre o que o termo signifique exatamente). Não convém subestimarmos a significação de um gesto tão eloqüente quanto o de citar o Triunfo de Leni Riefenstahl. Tropas Estelares é tão precisamente revelador de nosso final de década – e de século – quanto O Grande Ditador o foi da dramática passagem dos anos 30 aos anos 40.

Chaplin nos legou uma comédia dramática em preto e branco, que relutantemente abria mão das convenções – algumas, mas não necessariamente as mais importantes – do recém “obsoleto” cinema mudo. Foi enorme o impacto da longa fala ao final do filme21, mas a imagem que fica é, sem dúvida, do ditador brincando com o globo – “seu mundo”. Verhoeven nos brinda com uma ficção científica típica do cinema de espetáculo e de entretenimento dos grandes estúdios – com um orçamento milionário e a exuberante amostra de tecnologia, efeitos especiais e recursos computadorizados de última geração, condimentada pela mais pura ideologia reacionária – para não dizer fascista22. Em comum, o fato de ambos serem rigorosamente representativos de sua época. Neste sentido, e apenas nesse, Tropas Estelares pode equiparar-se a uma das obras-primas do gênio maior das imagens em movimento.

Diferenças abissais à parte, O Grande Ditador (1940) e Tropas Estelares (1997) nos sugerem que apenas a “espécie de beleza imperecível” (o termo é de Sontag) da esteta e aventureira do Terceiro Reich envelheceu. O mito Leni Riefenstahl não apenas exibe sua resistência à passagem do tempo: derrotando a batalha surda contra o obscurantismo de sua obra, mostra-se rejuvenescida e com novo fôlego. Pois estes documentos fílmicos, “monumentos de cultura e barbárie”, como diria Walter Benjamin23 nos relembram o poder das imagens da cineasta a quem o Führer incumbiu de expressar – artisticamente – a força de seu movimento.