Hollywood e a Crise de 1929
Um pouco da história da capital norteamericana do cinema durante a crise econômica que varreu o país
Por: Pedro Guerra
Will Hays, chefe da Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes, disse em 1934 que “nenhum meio contribuiu tanto quanto o filme para manter o moral nacional durante um período caracterizado pela revolta, revolução e turbulência política”. Durante a Crise de 1929, Hollywood desempenhou um fundamental papel psicológico e ideológico nos Estados Unidos, garantindo segurança e esperança para uma nação despedaçada economicamente. Imagine que mesmo durante os momentos mais negros da Depressão, algo entre 60 e 80 milhões de americanos iam ao cinema toda semana, enquanto os filmes sustentavam os ânimos dos cidadãos desesperados com o desemprego e a miséria.
Embora toda a indústria cinematográfica se considerasse intocável pela crise, Hollywood não era mais imune que qualquer outra empresa aos efeitos catastróficos que afetaram todo o estilo de vida americano. Para financiar a compra de novas salas de projeção e para converter as existentes em cinemas com som, os estúdios triplicaram suas dívidas durante a década de 20, alcançando a incrível soma negativa de 410 milhões de dólares. Como resultado direto, a própria viabilidade do negócio foi colocada em xeque. Por volta de 1933, as bilheterias haviam caído 40% e, para sobreviver, a indústria cortou salários e custos de produção, além de fechar as portas de um terço das salas de exibição de todo o país. Para aumentar as bilheterias os cinemas apostaram nas mais estapafúrdias alternativas, como baixar o preço das entradas para 25 centavos de dólar, distribuir refeições gratuitas e até premiar com dinheiro algum felizardo sorteado.
O maior motivo para tantas pessoas irem ao cinema em meio à Depressão foi o escapismo. No escuro das salas de exibição todos podiam esquecer seus problemas por algumas horas. Críticos esquerdistas comumente comparavam o cinema americano com o “pão e circo” romanos, como uma forma de distrair a população dos problemas, reforçando valores antigos e despejando radicalismo político.
Ainda assim, os filmes eram mais que mero escapismo, porque a maioria dos filmes da época eram baseados na realidade da época. Os tipos de filmes que Hollywood produzia iam mudando de gênero conforme o humor da população. Nos primeiros anos de crise, como o sentimento primário era de desespero, nas telas de cinema foram refletidos uma sucessão de gângsteres com metralhadoras, prostitutas nojentas, políticos ladrões e advogados charlatões. As comédias lançadas nos anos mais escuros da crise expressavam um desdém quase anarquista pelas instituições tradicionais.
Mas os filmes de gângsteres e o abuso da sexualidade nas comédias no início dos anos 30 provocaram católicos e protestantes, criando uma série de boicotes e reclamações de grupos religiosos. Hollywood criou então um escritório para revisar todo script a ser produzido para garantir que não ferisse o Regimento de Produção de Filmes Silenciosos, Sincronizados e Falados. Esse regimento, por sinal, foi escrito por um padre jesuíta, mas os produtores da indústria disseram que as normas deveriam ser mais como uma ferramenta de relações públicas, não funcionando como uma censura. Esse desdém fez os católicos formarem a famosa Legião da Decência, que infernizou não só o cinema mas a música também, até meados da década de 1980.
Ameaçados por um boicote de proporções maiores, os produtores decidiram mudar drasticamente os parâmetros de produção das películas. A partir daí foi proibido filmar nudez, profanação, escravos brancos (sim, escravos brancos), miscigenação, sexo de qualquer natureza e até cenas prolongadas de beijos, além de coibir a glamourização do crime e do adultério. Ou seja, o próprio caráter do cinema foi alterado. O efeito negativo mais óbvio é que não se produzia mais filmes que explorassem a realidade da época, questionando o cenário político e moral norteamericano. Por outro lado, contribuiu com um aperfeiçoamento da técnica, já que roteiristas e diretores agora buscavam formar mais sutis e criativas de burlar o código da sexualidade e violência.
O conhecido New Deal de Roosevelt foi a oficialização do encerramento desse período negro na história econômica norteamericana, e dele surgiu um novo otimismo. Na segunda metade da década de 30 começaram a aparecer novos tipos de filmes. Justiceiros, detetives, defensores da lei e heróis do faroeste substituíram os gângsteres. Ao invés da violência crua e da negatividade, o público passou a ver os dramas de pequenos homens que enfrentavam a corrupção. Os diálogos complexos dos irmãos Marx cederam espaço a um novo gênero, a comédia screwball ou pastelão, enquanto o terror pobre e fantástico foi ganhando novos recursos ao longo das décadas seguintes.
Enfim, o mundo fantasioso do cinema teve um papel social fundamental durante toda a Crise de 29. Diante de um desastre econômico, serviu para manter a crença no sucesso individual, retratou um governo capaz de proteger seus cidadãos e sustentou a visão de um país forte o bastante para resistir. E de lá para cá, Hollywood vem repetindo as mesmas fórmulas. Um garoto pobre usa o crime como uma escada para o sucesso. Uma garota sem talento sobe na profissão através de sorte e esforço próprio. Um oficial restaura a lei e a ordem. Um garoto pobre e uma garota rica se conhecem, passam por diversas situações (ditadas pelo gênero do filme) e se apaixonam. Através desses plots simples, Hollywood restaurou a fé na individualidade, na iniciativa, na eficácia do governo e na unidade da classe norteamericana.
Para assistir e entender
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| O cinema dentro do cinema. Metalinguagem de Allen é bela e precisa. |
Em 1985, Woody Allen lançou a comédia A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985), que conta a história de Cecilia, uma garçonete que durante a Depressão foge da realidade indo ao cinema para ver os mesmos filmes por horas e horas. Allen foi muito feliz ao mostrar um excerto da crise econômica sem exageros ou caricaturas. A realidade de seu marido desempregado e entregue à bebida, a angústia de viver sem esperanças, o oásis que tomava forma na sala de exibição e a forma de superação quando o herói sai da tela de projeção para dar à donzela toda proteção e amor que ela merece. Com Allen no auge de seus textos e Mia Farrow e Jeff Daniels ótimos como protagonistas, A Rosa… é uma comédia doce, divertida e imperdível.
Embora A Rosa Púrpura do Cairo seja perfeito para ilustrar o cinema na Depressão, muitos outros filmes se passam nessa época.
- A Luta pela Esperança (Cinderella Man, 2005)
- O Inventor de Ilusões (King of the Hill, 1993)
- O Sol é para Todos (To Kill a Mockinbird, 1962)
- E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?, 2000)
A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA
RESUMO
Durante toda a história do cinema é possível observar uma evolução em sua linguagem
e influência na sociedade. Com o surgimento da indústria, se tornou uma comunicação
de massa com um papel ativo na transmissão de mensagens. Mas mesmo com tais
evoluções ainda é perceptível um padrão na estrutura dos filmes e o reforço de alguns
estereótipos. A consolidação de Hollywood como centro de produção na indústria
cinematográfica sugeriu meios para sustentar essa produção a fim de valorizar
sua percepção internacional. Assim surgiu o Oscar, cerimônia de premiação mais
acompanhada do mercado cinematográfico. Apesar de seu grande reconhecimento,
a estatueta ainda deixa a desejar na composição de seu júri e consequentemente
na escolha de seus nomeados e premiados. A representação da mulher nos filmes
industriais são exemplos dos estereótipos presentes em Hollywood, que influenciam
também, na participação feminina na indústria e consequentemente na cerimônia do
Oscar.
INTRODUÇÃO
Conforme a evolução na comunicação, os meios e as linguagens foram se
diferenciando e criando estruturas possíveis de atingir cada vez mais pessoas. Foi
o caso do cinema, que além de se tornar um mercado de entretenimento se tornou
também um meio de comunicação influente capaz de representar, ou não, a sociedade.
O início do cinema é analisado de forma a entender como a publicidade conseguiu
transformar a exibição de imagens em um mercado e compreender até que ponto a
forma como essas imagens são transmitidas pode influenciar o comportamento de
uma cultura e as ideologias de uma sociedade.
O surgimento da indústria cinematográfica implica na criação de um padrão na
apresentação de certas mensagem e maneiras de apresentá-las. Com isso procura-se
entender qual a forma predominante em abordar as mensagens presentes nos filmes e
quais os temas que mais chamam a atenção do público. Analisa-se também como se
consolidou um centro de produção na indústria cinematográfica.
Com o domínio dos filmes estadunidenses no mercado, o mundo todo passou a
acompanhar a principal cerimônia de premiação de cinema nos Estados Unidos. O
Oscar se tornou um evento esperado todo ano e utilizado como referência na hora de
avaliar um filme. A premiação que tem mais de 80 anos, já reuniu grandes nomes do
cinema, assim como deixou muitos de fora.
O grande reconhecimento conquistado pelo Oscar trouxe a possibilidade de
escolher os participantes da cerimônia conforme seus padrões e ideais, porém com a
influência que a cerimônia tem hoje sobre os espectadores, ela transmite esses ideais
de forma a ser analisado quais são e porque eles existem.
Os ideais do prêmio estão muito ligados aos estereótipos presentes nos filmes
hollywoodianos, os quais são influenciados pela visão patriarcal da sociedade, tornando
padrão a representação da mulher nesses filmes. Analisa-se a partir disso qual o papel
da mulher na narrativa e como isso tem relação com a indústria cinematográfica.
O reflexo dos padrões no cinema é a participação da mulher fora do filme, que
hoje ainda é mínima, se comparada aos homens, mesmo que tenha uma influência
importante na representação da sociedade nos filmes.
No Oscar, a participação feminina, que já é pouca, se torna além de tudo,
desvalorizada. A falta de reconhecimento com as mulheres gera análise sobre quem e
como escolhe os nomes indicado ao Oscar.
1.BREVE HISTÓRICO DO CINEMA
O que conhecemos como cinema hoje é provavelmente um conceito muito
distante do que era quando ele surgiu. Na verdade, segundo Bernardet, quando
cientistas decidiram usar máquinas para projetar fotos em movimento a intenção era
totalmente científica e eles não acreditavam que aquilo poderia se transformar em entretenimento. Por esse motivo, o cinema era usado de forma documental, a fim
de transmitir informações da maneira mais real possível. Essa realidade, de pronto,
causou estranhamento nos espectadores e fez com o que o cinema passasse por um
processo de aceitação da população. Aos poucos a nova forma de comunicação foi
evoluindo e criando novas linguagens. Passou das pessoas correndo do trem que
estava chegando perto da tela, para o entendimento da passagem de uma cena para
outra de forma que a história ficasse contínua para quem estava assistindo. Tendo em
vista que o novo um dia fica velho, o cinema foi se tornando um hábito.
Esse processo teve um empurrão da publicidade, que ao perceber o potencial
daquela prática, evoluiu a simples exibição de imagens para um processo de
comercialização não só do filme, mas também de tudo que poderia estar vinculado à
ele. Os primeiros 20 anos da história do cinema, de acordo com o estudioso Mascarello,
foram considerados um período experimental, que serviu apenas para evoluir a forma
como ele era produzido e visto pela sociedade.
Os irmãos Lumière não foram os primeiros a comercializar filmes, mas eram
os pioneiros na época em que o cinema se tornou algo lucrativo. Isso se deve à
experiência que eles criaram de ir a um café e se reunir com amigos enquanto viam
máquinas reproduzirem imagens. Além de cobrar por essa experiência, eles vendiam
as máquinas e com isso iniciou-se um mercado.
Os planos eram vendidos separadamente como filmes individuais, em rolos
diferentes. Era o exibidor quem controlava a exibição final, decidindo quais
rolos e em que ordem seriam exibidos e até em que velocidade as cenas seriam
mostradas. Musser mostrava assim que os primeiros filmes eram formas abertas
de relato e que a coerência narrativa não era inerente aos filmes, mas estava no
ato de apresentação e recepção (Mascarello, 2008, p. 25).
Antes de mais nada, os filmes deveriam retratar algo que interessasse o público e
criar tempos durante as cenas para que quem assistisse pudesse interagir com o filme
complementando e interpretando suas ideias. A partir disso era necessário entender
esse público. Uma forma de descrever como essa interação funcionava foi por meio de
signos descritos no livro Cinema como prática social de Turner, na qual existem os
significantes e o significado. Os signos são a forma como os telespectadores assistem
e interpretam os filmes, ou seja, o cineasta pode adicionar inúmeros elementos
significantes no seu filme mas quem irá atribuir os significados é a plateia decorrente
de seus ideais e sua base cultural. Por conta disso muitos acreditam que o cinema seja
a representação de uma sociedade ou de uma cultura (TURNER, 1997, p. 51).
Se o cinema retrata uma sociedade e um ponto de vista cultural, o domínio de
uma indústria estrangeira em um país poderia fazer com que o público começasse a
perder a nacionalidade e se inserir em uma cultura que não é a que está habituado a
viver. Foi o caso da Austrália que depois da tomada da indústria estadunidense fechou
as portas para comerciais estrangeiros a fim de nacionalizar o país.
Assim surge muito do que conhecemos como cinema hoje. Mesmo com várias
especulações do seu fim, percebe-se que o hábito de sair de casa para assistir a um filme permanece, talvez não como antigamente, em que a média familiar era ir ao
cinema uma vez por semana, mas essa ação ainda é consagrada.
Durante toda a história do surgimento do cinema consegue-se perceber que ele
sempre esteve lado a lado com seu contexto cultural mostrando que um filme não é
apenas cenas aleatórias, mas uma composição de simbologia que de alguma forma
retrata uma sociedade, o ponto de vista de um diretor sobre a sociedade ou até mesmo
a interpretação que a sociedade obteve sobre aquele produto. De qualquer forma, o
que se procura entender é até qual grau a sociedade foi influenciada pelo cinema ou o
cinema foi influenciado pela sociedade e medir os formatos de vendas desses filmes e
um possível padrão de conduta na representação de certos símbolos.
1.1.INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA
Mascarello divide as primeiras décadas do cinema em duas fases: cinema de
atração e cinema de transição. O cinema de atração se baseia no processo de seu
surgimento, onde as imagens visavam o real e a grande atração do filme era a
exibição. Nessa época, o cinema, com George Méliès, abusava do ilusionismo para
impressionar o público e se caracterizava pelo uso de filmes de truques e histórias de
fadas. Os atos cômicos curtos se tornavam cada vez mais populares em espetáculos de
variedades em vaudeviles, music halls, museus de cera, quermesses ou como atrações
exclusivas em shows itinerantes e travelogues (conferências de viagem ilustradas).
O período de atrações (1894 a 1903) se caracteriza pela produção documental,
os chamados filmes de atualidade, em geral com um único plano. A partir de 1903
começam a ser produzidos filmes de ficção com narrativas simples e experimentações
de linguagem. Mas ainda é o exibidor quem formata o espetáculo exibindo os rolos de
filme como entende a narrativa. Já o cinema de transição (1907 a 1913) se caracteriza
pela organização industrial e pela especialização na produção e exibição dos filmes,
que passam para uma média de 3 a 15 minutos (MASCARELLO, 2008, p. 37).
É o momento em que Hollywood começa a se consolidar como centro da indústria
cinematográfica. No início da década de 1910 alguns produtores independentes lutam
contra o monopólio da Motion Pictures Patents Company (MPPC) e criam, em 1914,
em um subúrbio de Los Angeles, o primeiro grande estúdio, a Paramount, que teve
origem num estúdio chamado Famous Players Film Company, comandado por Adolph
Zukor. Em 1925 com a Metro-Goldwyn-Mayer, ou MGM, se dá a consolidação
definitiva de Hollywood.
A Europa, até então, dominava esse mercado. A Pathé, na França, era a maior
empresa produtora da época e produzia mais do que o mercado interno conseguia
comprar, o que levava à exportação de seus filmes. A indústria estadunidense sempre se dedicou às vendas domésticas, mas também já estudava uma expansão de
mercado e internacionalização de seus filmes, o que foi facilitado durante a Primeira
Guerra Mundial quando as grandes produtoras francesas e italianas perderam força.
Nesse momento em que os rolos passam a ser vendidos no mundo todo e em maior
quantidade, tanto os cineastas quanto a indústria, passam a ver a necessidade de uma
padronização no âmbito da produção e comercialização. ‘’As empresas produtoras
procuram satisfazer também as pressões do Estado e de grupos organizados quanto a
certos temas e maneiras de abordá-los.’’ (MASCARELLO, 2008, p. 38). Além de uma
boa publicidade se percebia temas e atores que atraíam o público.
A partir da padronização procura-se analisar até que ponto os temas abordados
podem ser influenciados e manipulados.
2. BREVE HISTÓRICO DO OSCAR
Com a consolidação de Hollywood e o início do domínio dos Estados Unidos
no cinema industrial, os nove principais estúdios estadunidenses se reúnem com os
sindicatos dos técnicos e assinam o Studio Basic Agreement, acordo que visa fortalecer
a produção hollywoodiana a fim de criar um cenário internacional e expandir a venda
dos filmes. Semanas depois do acordo assinado, em janeiro de 1927, acontece a
primeira reunião da Academia, que objetiva criar meios para manter o mérito dos
filmes estadunidenses dentro da padronização do mercado e idealiza então, o que
conhecemos hoje como Oscar (LISBOA, 2003, p. 25).
De início, a originalmente chamada Academy Award of Merit, era apenas a
estatueta dourada de um guerreiro que tinha o intuito de agregar valor aos profissionais
do cinema. ‘’Na época, os referentes mais próximos do que viria ser a entrega dos
prêmios de mérito da Academia eram o Prêmio Nobel (...) e o Prêmio Pulitzer’’
(LISBOA, 2003, p. 27), ambos em memória de seus idealizadores.
Desde que a primeira estatueta foi entregue, em 16 de maio de 1929, os valores
ligados ao prêmio e aos profissionais foram se alternando conforme o cenário do
mercado. Nos primeiros anos, quando o Oscar era uma simples reunião realizada pela
Academia, quem trazia importância ao prêmio eram os grandes cineastas premiados.
O fim do cinema mudo começa a contribuir para que esses valores invertam, pois
permite que Hollywood se reinvente através dos filmes sonoros, trazendo uma nova
visibilidade ao Oscar. A estatueta também começa a ganhar certo reconhecimento
no final dos anos 30, devido à boa publicidade e relações públicas feita ao longo do
tempo e reflexo da Era dos Estúdios4
e ausência da TV. (LISBOA, 2003, p. 20).
Durante toda a história desde seu surgimento, alguns fatos como o declínio do
cinema com o surgimento da TV e o relaxamento da censura nos filmes fez com
que o Oscar fosse encontrando dificuldades ou facilitando sua oportunidade de
crescimento. De qualquer forma, os membros da Academia sempre contornaram as
diferentes situações e prepararam um cenário para que prêmio ganhasse cada vez mais valor. Com a transmissão televisiva, em 1953, o Oscar foi se tornando o centro das
atenções do público e se concretizou como um grande espetáculo em 1966, quando
a transmissão passou a ser ao vivo. Por ser uma cerimônia de premiação de filmes
industriais nos Estados Unidos, sempre teve uma relação direta com Hollywood,
centro de produção de filmes industriais. Por esse motivo, conforme Hollywood se
tornava mais reconhecida mundialmente o Oscar crescia na mesma proporção. Com
o apoio da mídia e a curiosidade do público foi se transformando em uma premiação
acompanhada pelo mundo todo, sendo referência de qualidade nos filmes padrões. Até
no Brasil utilizamos o Oscar para referenciar uma premiação ou situação.
Com 87 cerimônias e 2.947 estatuetas entregues, o Oscar é hoje, a terceira
exibição ao vivo mais assistida do mundo.
5 2.1.INFLUÊNCIA DO OSCAR NA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA
Para entender melhor como Hollywood se tornou o centro da produção industrial
padronizada deve-se conhecer um pouco da sua história. Segundo os estudos de
Tom Lisboa, Hollywood foi fundada e, pelos primeiros anos, conduzida não só por
estadunidenses, mas em sua maioria, por judeus e estrangeiros no geral. O famoso
american way of life era na verdade a idealização, principalmente da Europa Oriental,
de um estilo de vida e não o reflexo real da cultura nos Estados Unidos. Essa ‘’ideologia
propagada através dos filmes que tinha como objetivo popularizar mundialmente as
atitudes, roupas e mitologias americanas’’ (LISBOA, 2003, p. 37) contribuiu para o
padrão criado especificamente em Hollywood e atraiu uma vantagem no cinema norteamericano pois fez com que se tornasse ‘’um lugar onde eles vão arquitetar, através
de um poderoso oligopólio, seu próprio universo tanto na tela quanto na vida real’’
(LISBOA, 2003, p. 37). É importante perceber que ao criar esse universo e utilizar
um padrão, os filmes dentro da indústria cinematográfica deixam de ser materiais
artísticos produzidos com individualidade por cada cineasta e passam a ser produtos
que fazem uso da arte para serem vendidos.
Além de criar essa forma de vender filmes como produtos, no Oscar, a busca pelos
premiados fica limitada ao comércio nos Estados Unidos, a partir do regulamento
instituído em 1934 e que permanece inalterado até hoje.
Os prêmios de mérito da Academia devem ser conferidos aos trabalhos
relacionados com filmes de longa-metragem (definidos como de mais de trinta
minutos de projeção) exibidos publicamente pela primeira vez em 35 ou 70
mm, com ingresso pago (pré-estréias excluídas), em uma casa comercial de
espetáculos de Los Angeles, compreendida por Los Angeles, West Los Angeles
ou Beverly Hills, entre 1º de janeiro e à meia-noite de 31 de dezembro, tendo
tal exibição um mínimo consecutivo de não menos de uma semana após o
lançamento anterior à meia-noite de 31 de dezembro, seguindo-se a exploração
e a publicidade normais utilizadas pelo produtor para este ou outros filmes
dentro de suas datas especificadas. (LEVY, 1990, p.12)
A estatueta busca, neste universo exclusivo, um profissional que mereça o mérito de se destacar dentro do sistema industrial, o que gera uma contradição ao que se entende por produção industrial, ‘’Quanto mais a indústria cultural se desenvolve, mais ela apela para a individuação, mas também tende a padronizar esta individuação’’ (MORIN, 1997, pág. 31). Mesmo que a cada filme os diretores e produtores tentem se reinventar e buscar uma identificação direta com a sua obra eles ainda fazem parte de um sistema que utiliza a padronização. A Academia, por mais reconhecimento que queira passar para um profissional específico, incentiva que este profissional mostre sua excepcionalidade em um cenário limitado e reforça isso ao selecionar seu júri dentro das especificações que a convém: ‘’podem votar apenas membros ligados à indústria do cinema’’ (LISBOA, 2003, p. 33).
Nos primeiros anos de premiação, os membros da Academia fizeram contato com algumas das principais Universidades dos Estados Unidos e negociaram a inserção de cursos de cinema voltado para a indústria, criando assim, uma cultura preparada para receber uma premiação no contexto industrial.
Percebe-se então, por todos os requisitos criados pelo Oscar que, além de um padrão nos filmes, existe um sistema na busca dos nomes ligados ao prêmio, o qual favorece a produção estadunidense. Além da produção estadunidense como um todo, procura-se observar se todo esse sistema padronizado pode influenciar também na participação de certos grupos tanto na cerimônia do Oscar quanto na indústria cinematográfica em geral.
3. REPRESENTAÇÃO DA MULHER NOS FILMES INDUSTRIAIS
De todos os filmes de gangster ou filmes faroeste que você já assistiu, quantos deles constroem a narrativa tendo como personagem principal ou até secundária uma mulher? Se a resposta não for nenhum, com certeza é um número bem pequeno. De acordo com o livro A mulher e o cinema de Kaplan, isso se dá ao fato de que a mulher nos filmes de Hollywood se encaixa apenas ao gênero denominado melodrama. Tais filmes utilizam da formação patriarcal6 e posicionam a mulher sempre em ambientes ‘’femininos’’. Para entender a distinção de feminino e masculino nesse contexto, Kaplan busca por um histórico sociológico que coloca o homem como dominante e a mulher como submissa. Sendo assim, algo masculino é algo que tem domínio sobre as mulheres, que se permite ter desejo pois tem o poder de realizá-los. Logo, feminino é a submissão a esse poder, algo que não pode ter desejo, mas sim ser desejado. ‘’Kristeva diz que enquanto devemos reservar a categoria ‘’mulher’’ para exigências sociais e publicidade, à palavra ‘’mulher’’ ela dá o sentido ‘’daquilo que não representado, daquilo do qual não se fala, daquilo que é deixado de fora dos significados e das ideologias’’ (KAPLAN, 1995, p. 57). A partir disso é difícil entender o que é ser mulher ou ser feminina dentro do olhar masculino, já que a falta de representação de uma personalidade resulta na dependência da mulher com o homem até em termos de narrativa dentro dos filmes.
Um exemplo de como essa dependência funcional é o filme Os homens preferem as louras com Marilyn Monroe e Jane Russell. Sob um olhar masculino, as duas personagens são fortes representações femininas pois se importam uma com a outra e manipulam os homens em busca de seus próprios desejos. O problema é que através desse olhar, essas duas personalidades são construídas de forma sexualizadas, ‘’feitas para serem olhadas’’ e todas as atitudes manipuladoras que poderiam ser consideradas como força se tornam cômicas e não fazem com que o homem perca seu poder de domínio. Até porque, mesmo que elas busquem por realizar seus desejos através dos homens, elas ainda dependem que os homens as desejem, assumindo novamente a posição de submissa (KAPLAN, 1995, p. 57).
Essa estrutura patriarcal dos filmes é resultados da padronização dos filmes industriais, que utiliza, como já visto anteriormente, um estilo de vida idealizado para representar uma sociedade. Essa idealização acaba se relacionando com o desejo, na maioria das vezes inconsciente, de quem está produzindo o filme, participando como espectador e até como personagem.
Christian Metz, Stephen Heath e outro mais demonstraram que os processos do cinema de várias maneiras imitam os processos do inconsciente. Os mecanismos que Freud identifica como relativos ao sonho e ao inconsciente vincularamse aos mecanismos do cinema. Nessa análise, as narrativas dos filmes, como os sonhos, simbolizam conteúdos latentes reprimidos, a não ser pelo fato de que agora os conteúdos referem-se não ao inconsciente de um indivíduo, mas ao inconsciente do patriarcado em geral. Se a psicanálise é o instrumento que revela o significado dos sonhos, poderá também desvendar o significado dos filmes (KAPLAN, 1995, p. 58).
Se o inconsciente pode interferir no significado do filme, é necessário entender qual inconsciente é dominante na indústria cinematográfica para tentar criar então um equilíbrio na representação de alguns estereótipos.
Dominante, o cinema feito em Hollywood é construído de acordo com o inconsciente patriarcal: as narrativas dos filmes são utilizadas por meio de linguagem e discurso maculinos que paralelizam-se ao discurso do inconsciente. No cinema as mulheres não funcionam portanto como significantes de um significado (a mulher real) como suponham as críticas sociológicas, mas como significante e significado suprimidos para dar lugar a um signo que representa alguma coisa no inconsciente masculino (KAPLAN, 1995, p. 53).
A partir disso percebe-se que o desejo inconsciente pode trazer inúmeros significantes ao filme assim como a sociedade pode atribuir certos significados a esses desejos. O que se procura entender é se ao mudar o desejo, ou seja, o olhar com que o filme é feito ou assistido, esses signos podem ser invertidos.
3.1.MULHERES NA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA
Ao longo da história do cinema, do surgimento da indústria cinematográfica e do Oscar percebe-se inúmeros nomes masculinos que contribuíram para que essas histórias chegassem ao que conhecemos hoje. De fato, as mulheres tiveram que lutar muito mais para conquistar um espaço nesse cenário, assim como foi para conquistar espaço no mercado de trabalho como um todo. O feminismo, definido no Dicionário Brasileiro Contemporâneo de Francisco Fernandes por ‘’doutrina social que concebe à mulher direitos civis e políticos iguais aos do homem’’, foi o movimento que permitiu a participação de algumas mulheres em partes importantes dessa história.
Entre elas estão Dorothy Arzner e Penny Marshall, ambas estadunidenses, que tiveram participação na indústria como diretoras. Dorothy entrou na Paramount como datilógrafa e foi promovida para roteirista e editora até se tornar diretora em 1927, ainda no início da história da indústria cinematográfica. Já Penny dirigiu seu primeiro filme em 1983 e depois de algumas outras experiências tornou-se um grande nome na indústria recebendo, inclusive, inúmeras nomeações ao Oscar, porém nunca como diretora. As duas declaradas feministas7 sempre introduziram a quebra dos estereótipos nos seus filmes (KRISTENSEN; EVANS, 2007, p. 111).
Outra diretora, mais contemporânea, que representa bem a participação da mulher na indústria é Sofia Coppola, já nomeada inúmeras vezes em diferentes categorias no Oscar e premiada como roteirista.
Atualmente, poucas diretoras jovens têm tanta influência em Hollywood quanto Sofia Coppola. Além disso, o fato de seus filmes serem bem divulgados e distribuídos, alcançando certo êxito em bilheterias, converteram-nos num objeto atraente para estudos sobre um imaginário fílmico contemporâneo. É interessante então, considerar até que ponto a visão autoral de uma cineasta pode penetrar, através de suas histórias e personagens, na condição da mulher (CONTRERAS, 2009, p. 10).
Os filmes de Coppola trazem força às personagens mulheres, porém de forma a ser igualada ao homem e não invertendo a situação de domínio-submissão visto anteriormente. Ao colocar a mulher como uma peça forte, de acordo com as teorias trabalhadas neste artigo, a diretora influência que essa imagem seja refletida na sociedade a fim de causar o reconhecimento dessa força nas mulheres dentro e até fora do contexto do cinema.
Além de diretoras como estas citadas acima, a participação de algumas atrizes hollywoodianas por trás das câmeras também fizeram diferença na percepção da mulher. Como Jane Fonda, que juntamente com Robin Morgan e Gloria Steinem fundou em 2005 o Women Media Center, ou WMC, uma organização que objetiva analisar a inserção da mulher na mídia nos Estados Unidos a fim de valorizar sua participação. A organização trabalha com pesquisas, mídia monitorada, treinamentos e campanhas promovendo as mulheres mais experientes no mercado, para que as histórias femininas sejam contadas e suas vozes sejam ouvidas. Um dado obtido pela WMC que inclui diretamente o cinema é que em 2013 apenas 9% dos diretores entre os 250 top “domestic grossing films” eram mulheres, concluindo que atrás das câmeras as mulheres sempre eram mais cotadas para serem produtoras e a porcentagem feminina nessa função só diminuiu quando a profissão começou a ganhar prestígio.
Como se pode observar, a participação feminina na indústria e até no cinema como um todo, muda o cenário dos filmes podendo influenciar na representação de alguns símbolos. Apesar de ser crescente ao longo dos anos, essa participação feminina ainda é mínima e por isso a simbologia nos filmes hollywoodianos ainda é predominantemente transmitida pelo olhar masculino, que ainda pode ser definido por visão patriarcal.
3.2. MULHERES NO OSCAR
A WMC analisa também a participação da mulher especificamente no Oscar. A partir dos dados obtidos pela organização observa-se que a participação da mulher ainda é muito baixa, especialmente em funções de maior prestígio como direção. De 2012 à 2015, apenas 19% dos nomeados em categorias que não incluem atuação, eram mulheres. Em outros números, a cada 5 homens 1 mulher é nomeada (figura 1). Os números diminuem ainda mais quando se trata das estatuetas conquistadas. Em 87 anos de premiação apenas 1 diretora foi consagrada com a estatueta: Kathryn Bigelow, em 2010.
Levantando os dados dos últimos dez anos da cerimônia (2006 a 2016) ainda encontra-se números bem baixos para as mulheres nomeadas e premiadas. Em roteiro, considerando individuais e em grupo, de 164 nomeados, 19 são mulheres. Em edição, de 83 editores, 11 são mulheres. Nesse período, entre os 59 ganhadores do Oscar apenas 5 são mulheres.
Outro dado relevante para análise, também apontado pelo WMC, é a composição da Academia até o ano de 2015, em que 76% são homens e apenas 24% são mulheres. (figura 2) Em 2016, devido a inúmeras críticas à essa estrutura a Academia se viu obrigada a começar a alterar os números e adicionou cerca de 600 novos membros, dentre eles mulheres, negros e asiáticos.
A estadunidense Patrícia Arquette, ao ganhar o Oscar de melhor atriz em 2015 disse em seu discurso: ‘’Obrigada (...) à cada mulher que concebeu cada contribuinte e cidadão desta nação. Nós temos lutado pelos direitos iguais de todas as outras pessoas. É nossa hora de ter igualdade salarial de uma vez por todas e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos da América.’’
Com isso percebe-se que é notável, até para os membros da Academia e profissionais relacionados a ela, que a inserção das minorias é necessária pois elas fazem parte da sociedade e precisam ser representadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Analisando a história do cinema e todos os períodos de experimentação e aceitação pelos quais ele teve que passar, entende-se que tudo que é novo precisa se adaptar à sociedade em que está se inserindo. Contudo, o cinema já deixou de ser uma novidade. Os únicos olhares considerados novos são os que saem do padrão que foi determinado durante o surgimento da indústria cinematográfica. A objetificação da mulher nos filmes e a falta de participação feminina por trás das câmeras em Hollywood são reflexos de uma sociedade patriarcal que criou, a partir desse patriarcado, um sistema industrial para representar a sociedade como um todo.
A partir dos desejos inconscientes que foram inseridos em um contexto antigo e idealizado da sociedade, os indivíduos ainda se enxergam nos estereótipos presentes nos filmes, sendo mulher ou homem e continuam a acreditar que é essa a cultura em que precisam viver.
A forma de mudar a sociedade através dos filmes é uma via de mão dupla pois assim como se deve buscar um equilíbrio nos olhares em que os filmes são feitos, para que cada espectador possa se identificar de forma clara e direta com as personagens, também deve haver uma conscientização no olhar desse espectador para que haja espaço para esses diferentes olhares se inserirem no mercado. Essa conscientização pode acontecer através do mérito dado aos filmes em estruturas influentes como o Oscar. Mas para que a Academia comece a premiar filmes fora do seu padrão, é preciso que ela insira membros, de forma equilibrada, de diferentes personalidades, que através de seus desejos inconscientes e base cultural, poderão se identificar com estruturas diferentes de filmes.
La historia del cine Una odisea 03 Los años 20, la década dorada Español
Veja o video pelo link https://youtu.be/dUWotYnamOg




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