40 ANOS DE STAR WARS: A SAGA E O PÚBLICO
Por: André Luis Belletini1, Luli Hata
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo desvendar e compreender os artifícios que fizeram com
que a saga Star Wars (Guerra nas Estrelas, em português) conseguisse manter, ao longo de quatro
décadas, um público fiel que possibilitou não só a manutenção como também a expansão da saga
com o chamado Universo Expandido. Para o estudo, foram analisados dados e informações a
respeito da saga em revistas especializadas, artigos e livros, em especial que tratam sobre a
interação e assimilação, por parte das pessoas, de uma figura mítica como o herói. Concluiu-se
que a jornada do herói como base arquetípica favoreceu o sucesso, bem como o próprio Universo
Expandido, apoiada em outras estratégias pertinentes ao seu período de produção.
INTRODUÇÃO
A série Star Wars, uma das mais famosas e lucrativas da história, é repleta de mitos e
junções de valores de varias épocas e localidades. O primeiro filme da série, Episódio IV, foi
lançado em 25 de maio de 1977 e logo se tornou um clássico popular; os dois episódios seguintes
(V e VI) foram lançados com três anos de intervalo, em 1980 e 1983, respectivamente. Tem-se
então um hiato de dezesseis anos até o lançamento da segunda trilogia da série, cujo último
lançamento ocorreu em 2005.
A temática da série está embasada em um mundo futurista com valores e perspectivas
bastante complexas em que se tem um constante atrito entre os “lados da Força”, em suma, o
bem e o mal. O personagem de maior assimilação popular, sem dúvida, foi Lord Vader, uma
espécie de vilão que as pessoas “adoravam odiar”. A grande questão é que o ser humano sempre
se identifica com esse personagem, uma vez que ele é o mocinho, inverte seus valores e depois se
redime, tendo então características bastante humanas.
A própria criação da série tem significados com grande potencial de atrair o imaginário
popular, uma vez que George Lucas estudou Joseph Campbell antes de finalizar as cenas dos
episódios em 1975. Lucas tinha em mente as questões que envolviam os arquétipos e as relações
entre a sociedade e o mito que Campbell trata em seu livro O Herói de Mil Faces (1997). Vê-se
então que havia certa intenção de que houvesse uma grande aceitação popular, embora a série
tenha sido elaborada em dois momentos históricos divergentes. O próprio Campbell reflete que
cada sociedade deve adaptar os mitos à sua realidade, assim as diferentes gerações podem estar
olhando para o filme e interpretando de uma forma diferente e aplicando ou observando ali
aspectos da sua realidade.
O interesse pela história por parte dos espectadores fez com que, acabada a segunda
trilogia, a história continuasse a ser reproduzida em desenhos, revistas, gibis e crônicas. Tem-se
então uma busca incessante por novas informações a respeito da história da saga.
Afirmar que o estudo contribui com a perspectiva interdisciplinar de análise científica, na
medida em que História, Antropologia, Psicologia Social, Música e Artes Visuais, entre outras
disciplinas, oferecem as ferramentas próprias necessárias para a pesquisa, enriquecendo a
abordagem, seria muita pretensão. Especificamente neste trabalho, pode-se considerar que foram
lançadas luzes a partir da História, Antropologia e Artes Visuais, esta última muito mais voltada
para questões do imagético mítico, a partir do estudo da religiosidade e arquétipos empreendidos
por Eliade e Campbell.
A partir da análise, visa-se entender as razões que movem diferentes grupos de pessoas, de
gerações diferentes, a compartilhar a aceitação dos filmes, provocando uma interação entre elas
que, não poucas vezes, resulta em encontros onde o tema é a saga Star Wars.
METODOLOGIA
A coleta de dados foi de base bibliográfica, à qual se confrontou a leitura dos filmes nos
vieses imagético, simbólico, arquetípico e mítico. A abordagem discursiva (narrativa) se baseou em
análise comparativa entre o audiovisual e Campbell (2007). A relação do público com a obra se
deu dedutivamente, através de estudo sobre um fã clube da saga (SILVEIRA, 2010) e a
fundamentação teórica em Hernandez (2005), Umberto Eco (1976) e Mircea Eliade (c. 1960 e s.d.).
Entre os dados coletados, buscaram-se referências sobre a recepção dessa produção ao
longo dos anos, bem como críticas e resenhas sobre os filmes, de maneira a subsidiar o
entendimento sobre se há ou não unanimidade entre as diferentes gerações que assistiram a saga.
Não houve entrevistas com pessoas, apenas foram elencados artigos, críticas e resenhas que
apontem para esse aspecto.
RESULTADOS
Ao se entender as relações que se estabelecem entre o inconsciente humano e o mundo
dos arquétipos, se pode compreender então os fatores que levaram a saga Star Wars a conquistar
um grande público.
O estilo de filme, que rompia com os demais filmes da época, criou novidade e ganhou um
grande público devido a censura livre.
Assim pode-se atestar que a adaptação da saga aos movimentos histórico-sociais de sua
época, representando assim a sociedade que lhe era contemporânea, bem como a exploração
deste universo arquetípico e a forma serializada como a saga foi produzida acabaram por prender
a atenção de um público durante um longo período.
A saga
De acordo com Silveira (2010) em comparação com outras sagas “a duração e a
permanência do interesse por Star Wars são muito maiores e se mantém mesmo depois do fim da
produção de filmes sobre a história de ficção cientifica *...+” (SILVEIRA, 2010, p. 14). Sem dúvida, os
momentos históricos em que os filmes são produzidos exercem grande influência não somente no
enredo, como também nos personagens e mesmo cenários. O filme, então, “*...+ se bem analisado, torna-se um excelente documento revelador de importantes aspectos dessa sociedade” (NÓVOA;
FRESSATO; FEIGELSON, 2009, p. 94).
A primeira trilogia foi lançada no final dos anos 1970, um tempo de incertezas e diversas
preocupações. O clima da Guerra Fria estava muito presente, movimentos pela paz no mundo
haviam sido sufocados, os Estados Unidos viviam o trauma da Guerra do Vietnã, a economia ruía e
as pessoas não enxergavam soluções em um futuro próximo. Realizar um filme com a guerra como
tema seria algo arriscado. Entretanto, a saga de Lucas foi um grande sucesso talvez, e justamente,
por trazer em seu enredo uma história diversa da de seu tempo. Podemos até conjecturar que o
próprio título do primeiro episódio lançado – Uma Nova Esperança – queira demonstrar uma
ruptura com aqueles tempos difíceis e desanimadores; assim é possível entender como Star Wars
incendiou um grande público à medida que atendeu às suas expectativas.
Os espectadores entraram em contato com personagens e temas pelos quais se
interessavam e não raras vezes se identificavam com os personagens. A ideia de um mundo
totalmente instável, porém, que ainda tentava conciliar valores e práticas do passado era
totalmente visível do lado de fora das telas: a busca por culturas tradicionais orientais e nativas
norte-americanas, por exemplo, pelo movimento hippie, que, embora tenha perdido popularidade
nos anos 1970, nos EUA, ganhou o resto do mundo a partir dessa década. Assim, o que
provavelmente conquistou o público foi o fato de sempre existir uma esperança nos velhos valores
e crenças (no caso do filme, na Força) e, sem dúvida, por se passar em um mundo fictício, sem a
conhecida referência geográfica da Terra, onde a imaginação humana pudesse deleitar-se no
mundo dos arquétipos.
Muitos fãs se mobilizaram e criaram filmes caseiros sobre a aventura de alguns jedi
isolados na galáxia, cujo império ajudaram a destruir, bem como tentaram fazer filmes que
contassem as passagens anteriores a Uma Nova Esperança e mesmo posterior ao O Retorno do
Jedi. Até certo ponto foram mobilizados a isso por diversos concursos e premiações promovidos
pela Lucas Filmes (SILVEIRA, 2010). O caráter gentil e poderoso dos heróis é constante, pois eles
são sempre “um grande patriarca, mago, profeta ou encarnação”, então “permite-se o
desenvolvimento de prodígios além de todos os limites” (CAMPBELL, 2007, p. 313). Esta ideia se
observa nos jedi, que são os guardiões da paz.
Em 1999 é lançado A Ameaça Fantasma, retomando os três primeiros episódios não
retratados na primeira trilogia. Porém, não bastava apenas ater-se à construção da narrativa,
mantendo uma história coerente, mas deveria se levar em consideração um novo público que
também estaria presente em massa nos cinemas, além daquele que assistiu à primeira trilogia. O
novo público imerso em um contexto diferente, habituado a uma visualidade e códigos diferentes,
também deveriam ser atendidos. O cinema não poderia negá-los porque a cultura
contemporânea:
[...] homogeneíza não apenas as obras arquitetônicas, os modelos dos veículos
(independente de suas marcas), mas as práticas, os costumes, as expressões
artísticas e culturais, identificando e responsabilizando o cinema e o radio quase
que exclusivamente como veículos dessa padronização (NÓVOA; FRESSATO;
FEIGELSON, 2009, p. 90).
Para não haver um rompimento entre as duas trilogias, diversos elementos foram
mantidos, como as transições entre cenas em cortina, o cenário dos planetas e coerência no
figurino. Alguns personagens também foram mantidos para propiciar essa conexão entre as duas
trilogias, por exemplo, Mestre Yoda e Obi-Wan, personagens fundamentais, mas também os dois
andróides aventureiros, R2 e C-3PO, que desenvolveram papel muito relevante na Guerra Civil
Galáctica, ao mesmo tempo em que divertiram o público em diversas situações. Tais personagens
provocaram nostalgia no espectador que se interessava em saber o passado dos personagens da
primeira trilogia, em especial Darth Vader.
Porém, alguns aspectos são notadamente diferentes como o ritmo do filme e o clima de
ação, com lutas e destruições mais detalhadas. Muitos fãs da primeira trilogia criticaram a
segunda justamente devido a estes elementos visuais demasiados, possibilitando assim observar
que não só os filmes, mas também os agentes e os momentos históricos em que foram produzidos
apresentam divergências.
Isso nos revela mais uma vez como os filmes podem representar a sociedade que o
produziu e como “o cinema, de ficção em particular, parece muito produtivo para refletir a noção
de representação” (NÓVOA; FRESSATO; FEIGELSON, 2009, p. 105). Grandes exemplos dessas
representações são Han Solo, na primeira trilogia, e Anakin, na segunda. Conforme exposto, o
clima de Guerra Fria, os movimentos pela paz e, principalmente, as atrocidades no Vietnã, tiveram
grande efeito na opinião pública. Muitos foram os desertores exilados, perdoados pelo presidente
estadunidense em 1977. Han Solo é um personagem representativo desse momento: irreverente,
é o marginal que não está engajado politicamente, nem como situação, nem como oposição. E,
com o agravante de ter aspectos antipáticos: Solo é, inicialmente, um personagem egoísta e que
tenta levar vantagem em tudo que faz, possui imensurável gosto por dinheiro e está “enrolado até
o pescoço” devido às suas dívidas com Jabba, o Hutt. Além disso, é um sedutor cafajeste, que se
evidencia no trato com Leia, e sempre mantém seu orgulho. Porém, revela-se sensível e, devido a
um peso na consciência ao abandonar os novos amigos, Solo ajuda Luke na destruição da Estrela
da Morte e junta-se à Aliança Rebelde.
Han solo é o anti-herói, personagem com características físicas ou morais que o
destituiriam da condição de herói, porém, que acaba realizando feitos importantes para o curso da
história. Em muitos filmes, esses feitos se revertem em algo positivo, neste caso, a vitória
momentânea sobre a situação, dominada pelo mal.
Os idos de 1990 bem como o início dos anos 2000 são marcados pela globalização e já não
há mais o bipolarismo político de outrora. Ações militares como a invasão do Iraque e as
intervenções no Afeganistão puderam ser acompanhadas ao vivo pela televisão. Neste aspecto há
uma juventude muito mais acostumada à agilidade das imagens e efeitos de games, portanto,
familiarizada com imagens que antes impactaram na década de 1970. É neste cenário que surge
Anakin, escravo do desleal mundo dos Hutt (A Ameaça Fantasma) e que se revela ser um jovem
extremamente pragmático e imediatista (O Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith). Justamente
devido a esse aspecto Anakin cede ao lado negro da força (necessitava de uma solução rápida para
evitar que suas premonições com a morte de Padmé se concretizassem).
A constituição de heroínas em Star Wars também revela o momento histórico em que as
narrativas foram produzidas. Nas décadas de 1960 e 1970, ocorre a chamada segunda onda do
feminismo que reivindicava direitos iguais entre os sexos e o fim da discriminação. O movimento
feminista deu a Star Wars uma brilhante guerreira: Princesa Leia.
A princesa Leia se destaca na saga como uma das líderes da Rebelião e no comando das
estratégias, assim como nos próprios combates. Segundo o Universo Expandido1, Leia ingressara
no senado imperial aos 14 anos. A ideia de guerreiras aparece na segunda trilogia com Padmé
Amidala, a mãe de Leia. Padmé foi rainha de Naboo e senadora durante a República, uma grande
líder que lutou contra a Federação ora pessoalmente (A Ameaça Fantasma e O Ataque dos Clones)
ora politicamente (A Vingança dos Sith). Na segunda trilogia temos várias jedi que são mestras,
cavaleiras e padawans, embora nos filmes elas apareçam apenas como figurantes. No Universo
Expandido, muitas delas realizam importantes missões contra a Federação do Comércio.
Uma característica arquetípica de Star Wars pode ser observada na recorrência de
acontecimentos, mas com personagens diferentes. Por exemplo, Luke corta o braço de Vader em
O Retorno do Jedi em retaliação ao seu próprio braço decepado em O Império Contra-Ataca. O
mesmo se passa entre Anakin e Dookan. Outro exemplo de repetição pode ser visto quando os
Wookies confrontam a Federação do Comércio em A Vingança dos Sith e os Ewoks lutam contra as
tropas imperiais em O Retorno do Jedi. Nos dois casos, são exércitos caracteristicamente
primitivos enfrentando tropas bem equipadas. Dois romances, um em cada trilogia, também
reforçam a ideia de repetição. Na primeira trilogia tem-se o romance entre Leia Organa e Han
Solo, embora haja uma repulsa de Leia quanto a Solo devido ao caráter mesquinho e apartidário
deste. Durante a segunda trilogia dá-se o romance entre Anakin e Padmé, que é muito relevante
em O Ataque dos Clones.
A figura de Darth Vader, talvez a mais significativa na saga, também contribuiu para manter
um público cativo. Durante a primeira trilogia é possível descobrir que antes de converter-se ao
lado sombrio, Vader chamava-se Anakin Skywalker e, embora desde A Ameaça Fantasma seja
possível saber quem ele é, diferente de Sidious, tem-se a curiosidade de saber como Anakin foi
cooptado pelo lado sombrio.
Vê-se que Anakin passou por uma série de frustrações, como a proibição de seu
relacionamento com Padmé ou a morte de sua mãe, até que cedesse ao lado sombrio. Durante O
Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith, Anakin muitas vezes se revolta contra os princípios jedi e
isso preocupa Obi-Wan, que nota em seu aprendiz, inclusive, o orgulho, sentimentos estes
(revolta, orgulho) que deveriam ser extintos durante a fase da iniciação, na qual as “ambições
pessoais” devem ser “dissolvidas” (CAMPBELL, 2007, p. 231).
Embora Anakin discordasse de diferentes atitudes jedi em A Vingança dos Sith, o estopim
para sua conversão ao lado sombrio se dá pela necessidade de salvar Padmé. Com a notícia de sua
morte, Vader crê que não há mais redenção para si e permanece como o grande vilão que todos
“amaram odiar” na primeira trilogia.
CONCLUSÃO
Assim pode-se entender o porquê de certas diferenças ou semelhanças entre as trilogias
bem como porque pôde Star Wars manter-se em meio a diferentes gerações. O êxito se dá porque
George Lucas soube dar ao público o que ele ansiava e soube cativá-lo com mudanças quer sejam
elas quase imperceptíveis notáveis. O fato de dividir a história também manteve as expectativas e
as atenções dos fãs.
Além disso, é importante observar que a censura livre não restringe o público, garantindo
um maior número de expectadores sem limite de idade. Soma-se a isso a constituição de um
Universo Expandido, alimentando e sendo alimentado pela produção cinematográfica, contribuiu
muito para a manutenção de um público fiel Os filmes da saga sempre estiveram relacionados ao imaginário popular bem como puderam, ao longo de seus lançamentos, representarem a sociedade que os produziu. Sem dúvida
foram produto de seu tempo, mas também puderam sobressair-se aos demais filmes, pois
trouxeram novidades e esperanças, diversos fã-clubes foram criados e até mesmo uma religião
jedi foi instituída (SILVEIRA, 2010). Se isto aconteceu foi porque se soube muito astuciosamente
lidar com o imaginário arquetípico das pessoas e de seus tempos, e serializando a saga se pôde
por muito tempo cativar um grande público.

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