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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Primeiro filme sonoro completa 92 anos

Primeiro filme sonoro completa 92 anos


Por Davi de Castro


A sétima arte nunca esteve tão moderna. Hoje em dia existem salas de exibição com tecnologia 4D – isso mesmo, não basta mais assistir em três dimensões, o espectador agora pode ter a sensação de estar dentro do filme, com direito a fumaça, movimento, chuva e até cheiro. Quem olha assim – sobretudo os mais jovens – nem se dá conta de que em um passado não tão distante o cinema se resumia a imagens em movimento – sem som e muito menos qualidade de imagem HD.
Pois há 92 anos o mundo entrava em êxtase com a integração de algo que hoje é tão simples e imprescindível: o som. Foi o início de uma nova era, a do cinema falado. Aconteceu no dia 6 de outubro de 1927 com a exibição de "O cantor de jazz" (The Jazz Singer), de Alan Crosland, em Nova York. O filme foi o primeiro a ter passagens faladas e cantadas e a usar um sistema sonoro eficaz, conhecido como Vitaphone, lançado um ano antes, em 1926, pela Warner Bros.
O longa não era completamente falado – trazia ainda cenas mudas –, mas era possível ouvir perfeitamente a voz do protagonista nas cenas com som do famoso cantor de jazz da época, Al Jolson, assim como da banda que o acompanhava. O filme contava a história de um garoto judeu que queria ser cantor, mas enfrentava a oposição da família.
A voz de Jolson ecoando pela sala de exibição encantou plateias de todo o mundo e fez tanto sucesso que ajudou a salvar a Warner da falência. A experiência pioneira, entretanto, ainda tinha uma técnica de som precária, mas foi essencial para impulsionar a transição do cinema mudo para o sonoro.
“O Cantor de Jazz” foi indicado ao Oscar por melhor roteiro adaptado, mas levou apenas uma estatueta especial pelo pioneirismo na produção de filme falado. Há quem diga que ele não levou o prêmio de melhor filme porque os produtores dos outros estúdios alegavam que era concorrência desleal com os filmes mudos.
Veja galeria de fotos do primeiro filme falado dos cinemas:








Revolução
A chegada do som aos cinemas norte-americanos revolucionou a produção cinematográfica mundial. Em 1929, dois anos após o lançamento de “O Cantor de Jazz”, o cinema falado já representava 51% da produção dos Estados Unidos.
A década seguinte, 1930, permitiu a consolidação dos grandes estúdios e consagrou astros e estrelas em Hollywood. Houve uma multiplicação dos gêneros, como western, os filmes de gângster e o musical, que ganhou bastante destaque.
A inserção do som foi tão importante e contou com a adesão de tantos estúdios que acabou reformulando os fundamentos da linguagem cinematográfica.  Essa reestruturação pela qual passou o cinema deu impulso para o aumento e o fortalecimento da indústria cinematográfica. No entanto, nem tudo são flores. E teve gente, muito relevante, por sinal, que resistiu às mudanças. Sem contar que muitos atores, roteiristas e diretores sentiram dificuldades em se adaptar e perderam espaço nesse novo modelo, que veio para ficar.
O filme vencedor do Oscar 2012, “O Artista”, aborda justamente esse período de transição entre o cinema mudo e o falado. O protagonista George Valentin (Jean Dujardin), estrela absoluta do cinema mudo, resiste à super novidade dos filmes falados (ou melhor, cantados) e vê seu estrelato ameaçado pelo novo sistema. E, como a vida imita a arte e vice-versa, tivemos grandes diretores, como Charles Chaplin e René Clair, que também resistiram à nova tecnologia, mas acabaram aderindo posteriormente. Chaplin acreditava que seu personagem mais popular, o Carlitos, só teria sucesso com a pantomima, arte de narrar com o corpo. O diretor Serguei Eisenstein chegou a escrever o “Manifesto do Som”, em que argumenta contra a implementação da técnica.
Apesar da oposição de grandes nomes e da derrocada de muitas estrelas dos filmes mudos, o cinema falado trouxe fôlego aos estúdios, deixando-os afastados da recessão que assolou o mundo em 1929 com a queda da bolsa de Nova York.
Silêncio?

O cinema falado só surgiu em 1926, mas o som nos cinemas já existia desde o final do século 19. Como forma de atrair e seduzir o público e completar a experiência visual oferecida pelas imagens, as exibições eram acompanhadas por músicos contratados para tocar durante a sessão e dar ambiência ao filme. Cada exibição, portanto, era única. Aos poucos, a figura do narrador também foi sendo incorporada e ele tinha um papel importante em explicar certos acontecimentos.

O Som em Ficção Cinematográfica 

Análise de pressupostos na criação de componentes sonoras para obras Cinematográficas / Videográficas de Ficção


O acto de investigar e classificar a componente sonora de obras cinematográficas ou videográficas não tem como objectivo formar uma teoria que permita compreender a essência e o significado do som em obras de ficção, mas sim o objectivo de criar uma linguagem de análise e referência que permita aos criadores nesta área um trabalho mais efectivo e consciente. 

Em obras de ficção tipicamente 80% do som final é criado em pós-produção incluindo diálogos, música, paisagens sonoras e efeitos especiais, o que significa que quase toda a componente sonora de uma obra de ficção não passa de uma representação virtual de fenómenos psico-acústicos que têm o objectivo de criar na audiência a ilusão de um ambiente real e credível. 

A criação da componente sonora em cinema/vídeo embora produzida independentemente, é sempre conduzida em função da imagem e corresponde normalmente ao último estágio final do processo de produção. 

Os objectivos por trás da sonorização passam normalmente por procurar criar predisposição para as cenas e ajudar/influenciar a interpretação da acção, preferencialmente sem que os elementos da audiência se apercebam da forma como estão a ser conduzidos, sendo por este motivo que, paradoxalmente, se classificam como os melhores efeitos/bandas sonoras aqueles que passam despercebidos. 

Numa primeira análise observando o processo de produção da componente sonora de uma obra de ficção típica podemos distinguir: 

Diálogos: quase sempre gravados posteriormente em estúdio especialmente em cenas de exterior. 

Efeitos Sonoros: tipicamente subdivididos em duas categorias: a paisagem sonora e os efeitos especiais. 

Música: elemento criado com o objectivo de conduzir emocionalmente a audiência.

No entanto do ponto de vista de análise do discurso sonoro como forma de expressão, impõe-se uma perspectiva diferente que não seja orientada por processos ou técnicas de criação, mas sim pela mensagem transmitida. 

1. A Diegese 

Na publicação "Teaching the Sound Track - Quarterly Review of Film Studies" de Novembro de 1976, Claudia Gorbman propôs uma classificação para os elementos sonoros em cinema na perspectiva narrativa, segundo a qual o som pode ser diegético1 , não diegético ou meta diegético. 

Som Diegético: sonoridades objectivas; todo o universo sonoro que é perceptível pelos personagens em cena, tais como a paisagem sonora (o som dos carros numa cidade, o ruído de uma multidão, os pássaros no campo, a música num bar, etc), ou o diálogo entre personagens. Os sons diegéticos podem decorrer dentro do enquadramento visual da cena ou não (on screen / off screen). 

Som não Diegético: sonoridades subjectivas; todo o som imposto na cena que não é percepcionado pelos personagens, mas que tem um papel muito importante na interpretação da cena, ainda que de uma forma quase subliminar para a audiência; sons não diegéticos são tipicamente, voz de narração, música de fundo ou efeitos sonoros especiais. 

Som Meta Diegético: sonoridades subjectivas; sonoridade que traduz o imaginário de uma personagem normalmente com o seu estado de espírito alterado ou em alucinação. Um dos primeiros exemplos de utilização do discurso meta diegético em cinema ocorre na longa metragem "BlackMail" - 1929 de Alfred Hitchock, na cena em que a personagem Alice (Anny Ondra) após ter assassinado um atacante com uma faca se encontra à mesa na loja dos seus pais e ouve a conversa de uma personagem feminina também presente. Aos poucos a forma como Alice percepciona esta conversa vai-se alterando unicamente para a repetição consecutiva da palavras "Knife, Knife, Knife,…" como reflexo subjectivo do seu estado de espírito perturbado. Neste caso a conversa adulterada da personagem corresponde a um som meta diegético. No entanto este discurso pode expressar-se sob a forma de qualquer tipo de som, surgindo normalmente como um exagero de sonoridades do universo diegético. 
Um caso particular do discurso meta diegético com maior expressão em obras cinematográficas designa-se por onírico2 , e corresponde à representação visual e sonora de uma experiência em que um personagem abandona o seu estado sensorial normal da realidade entrando num plano de percepção emocional muito aproximado de um sonho, onde permanece durante algum tempo, retornando bruscamente à realidade (normalmente por efeito de um evento diegético). 
O diagrama que se segue representa as fases de um momento onírico e as respectivas características sonoras e visuais.

Um caso específico na expressão cinematográfica que muitas vezes se aproxima em termos estéticos do onírico é o Flash Back, que no entanto, tem um significado diferente pois remete a audiência para um momento diegético no passado, mas que, ao ser percepcionado no presente pela memória do personagem tem características aproximadas às de um sonho, não se tratando da percepção adulterada de um momento presente. 
Em 1979 na publicação "Film Art: An Introduction", David Bordwell e Kristin Thompson propõem um grau de detalhe maior nas especificações dos elementos sonoros em obras cinematográficas, olhando para a relação temporal entre o som diegético ou não diegético com a imagem, e propondo também as subcategorias: Som Externo para o som diegético de percepção comum entre os personagens em cena e o Som Interno referente aos sons percepcionado unicamente pelo personagem sobre o qual está centrada a cena.
Em 1994 na publicação "Audio-Vision: Sound on Screen", Michel Chion expande o conceito de Som Interno propondo que este pode ser Objectivo (respiração, batimentos cardíacos, etc), ou Subjectivo (sons ou vozes mentais).
O Som Interno Objectivo é frequentemente enfatizado nos momentos em que se tira proveito do Silêncio como efeito de expressão dramática para criar apreensão na audiência, enquanto que o Som Interno Objectivo surge mais frequentemente sob a forma de Monólogo Interior.
2. Os Diálogos
Os diálogos são um dos elementos mais complexos do ponto de vista de implementação, pois são criados em grande percentagem na fase de pós produção e não em tempo real durante as filmagens, o que pressupõe da parte dos Actores a capacidade de reproduzir a sua performance em estúdio, ou como alternativa a subsetituição por outros Actores que permitam uma performance vocal mais adequada. Frequentemente as gravações do que se designam como Over Dubs de voz por parte dos actores é feita no próprio local das filmagens a seguir aos takes para captar a predisposição, ritmo e carga emocional que o Actor tem no momento da filmagem da respectiva cena e simultaneamente tirando proveito das condições acústicas do próprio local da gravação, que desta forma são facialmente preservadas. 
Como excepção temos os casos dos monólogos interiores (discurso meta diegético ou interior subjectivo) e da narração (discurso não diegético) que não necessitam de um sincronismo com a imagem ao mesmo nível que os diálogos visualmente explícitos (exemplos explícitos de monólogo interior e narração podem ser encontrados respectivamente nos filmes "Dune" - 1984 de David Lynch e "ShawShank Redemption" - 1994 de Frank Darabont) . Genericamente é possível, com relativa facilidade modificar os parâmetros essenciais do formato sonoro de diálogos ou qualquer outro som, nos sistemas de pós produção audio actuais. 
O parâmetros que podem ser manipulados /transformados em pós-produção de som são: 
A Amplitude : o volume com que percepcionamos um determinado som, que pode ser manipulado muito facilmente em cada som individual transformando a sua curva envolvente (a envolvente representa a variação de volume ao longo do tempo).
A Tonalidade : corresponde à frequência fundamental do som que normalmente identificamos como a nota musical de determinado som. Ao transformarmos a tonalidade tornamos o som mais grave ou mais agudo aproximadamente da mesma forma que transformamos o som de um registo em disco de vinil ao variarmos as rotações do gira discos. 
O Timbre : característica que permite distinguir dois sons com a mesma tonalidade, mas originados por fontes com características físicas distintas (o som de uma flauta a tocar a nota Lá 440Hz é claramente diferente do som de um piano a tocar a mesma nota). Podemos modificar o timbre de qualquer som através de filtros digitais como reverberação ou equalização transformando assim a noção do espaço físico em que o som ocorre. 
A Espacialização : corresponde à simulação do posicionamento no espaço físico da fonte sonora. Em sistemas de som Stereo (vídeo) é possível a manipulação de panorâmica (desvio de um som para a esquerda ou direita da audiência) e a profundidade pode ser simulada variando apenas o volume de som (som mais distante tem um volume mais baixo que o som mais próximo). Em sistemas de Som Surround (produções cinematográficas profissionais), a manipulação espacial é muito mais flexível sendo normalmente possível o recurso a dois monitores sonoros frontais (Esquerda e direita), dois laterais, dois na rectaguarda e um subwoffer central (para amplificar som muito graves tipicamente abaixo dos 80hz). 
Por razões de acondicionamento da percepção das audiências, dado o fenómeno de exposição ao formato cinematográfico, tipicamente não se actua na espacialização de diálogos mas sim em todo o tipo de efeitos sonoros (que podem naturalmente incluir voz). 
O posicionamento Temporal e duração : Em sistemas não lineares digitais editar e transformar a duração de som ou o seu posicionamento temporal é extremamente simples e facilita toda a problemática do sincronismo entre o som e a imagem. Para além do benefício natural em efeitos sonoros e narração, aplicações de software como o Vocalign prometem revolucionar o processo de pós produção de diálogos feitos em Over Dub. 
Um outro aspecto muito importante do domínio da acústica, que não corresponde verdadeiramente a um fenómeno sonoro, mas sim a uma característica da percepção humana, é a audição selectiva.
Esta capacidade humana permite, por livre arbítrio num ambiente ruidoso focar um determinado som e percepcioná-lo com mais clareza que todo o restante som ambiente (por exemplo, numa festa focamos a conversa de alguém e conseguimos ouvi-la destacada das outras, apesar desta ter, na realidade, o mesmo volume). A simulação de audição selectiva em expressão cinematográfica pode ser atingida por simples manipulação dos volumes individuais dos vários sons, sendo que a opção da focagem sonora é do criador e não da audiência. Um exemplo de focagem sonora levado ao extremo pode ser encontrado no genérico de abertura do filme "The Player" - 1992 de Robert Altman, onde num plano contínuo com duração de 5 minutos, o enquadramento percorre um ambiente trabalho com muita actividade em que diversas personagens entram e saem de cena, sendo focados sucessivamente os diferentes diálogos dos personagens que passam. 
3. Os efeitos Sonoros 
Os efeitos sonoros, para além do papel de simulação da realidade psico-acústica tal como a conhecemos, são frequentemente utilizados para a introdução de novas realidade e conceitos sonoros, sendo que neste momento, em que estão instituídas plataformas e edição não linear, as possibilidades criativas são maiores do que nunca. 
Ainda assim, para além das técnicas e métodos já analisadas para o dialogo, que tem também aplicação no âmbito dos efeitos sonoros, impõe-se a análise das principais técnicas vocacionadas para efeitos sonoros, que estando instituídas na cinematografia clássica, produzem resultados inequívocos. 
Som Presente/Ausente : Som presente corresponde ao universo diegético já abordado, sendo que estes sons podem ocorrer dentro ou fora do enquadramento. Som ausente corresponde a uma situação em que no enquadramento temos a correspondência visual a um som, mas não o ouvimos (por exemplo duas pessoas a falar por trás de uma janela dentro de um café e o nosso ponto de vista é no exterior, não permitindo ouvir o diálogo devido a barreira da janela e ao ruído da rua, embora seja possível ver as pessoas a falar). 
Máscara Auditiva : Efeito sonoro ou mesmo musical que se utiliza tipicamente para conceber a sonorização em excertos de avanço no tempo, condensando o tempo real, ou para ocultar informação redundante.
Imposição do Ambiente : um efeito sonoro é muitas vezes suficiente para estabelecer o ambiente de uma cena, por exemplo o som de uma gaivota é suficiente para criar na audiência a sensação de que a cena se passa perto do mar, ou um galo a cantar numa cena escura dá a ideia de ser madrugada. 
Sobreposição : Sempre que na transição entre duas cenas o som se mantém em continuidade. Muitas vezes utilizado de uma forma irónica ou também para impor uma passagem temporal. 
Antecipação : Sempre que num corte um som correspondente à cena seguinte começa a ser ouvido antes da transição, permitindo antecipar a acção que vai iniciar. 
Segundo de Antecipação : Um segundo de silêncio antes de um evento de grande impacto, como uma explosão ou um tiro faz com que o efeito do evento seja muito mais eficaz. 
Exagero de efeitos sonoros : O exagero de fenómenos auditivos especialmente os diegéticos, pode ter um efeito dramático ou cómico, dependendo do contexto. 
Em geral ao criarmos diálogo ou efeitos sonoros, devemos ter em mente que o som em cinema ou vídeo tem o objectivo de criar uma experiência auditiva na audiência de forma a que esta possa transcender o suporte da narrativa emergindo-se o mais possível neste mundo virtual. 
4. A Música 
A música original em obras de ficção cinematográficas ou videográficas não deve ser abordada sob a mesma perspectiva da música lúdica, pois neste caso particular o compositor tem o propósito claro de ajudar o influenciar a forma como a audiência interpreta a imagem. Esta música por si só não faz sentido e podemos pensar nela como plenamente dependente da componente visual da obra, pois mesmo quando se publica em CD audio a banda sonora de uma obra cinematográfica a componente visual da obra está sempre presente no imaginário da audiência.
Por vezes os realizadores podem recorrer a adaptação de música já existente sendo necessário a adaptação da componente visual e coreográfica a musica seleccionada. 
Os princípios básicos sobre composição de música para uma narrativa de ficção passam normalmente pelo pressuposto de que queremos criar uma determinada predisposição à audiência começando pela música do genérico. A música de abertura de uma narrativa que normalmente decorre com o genérico estabelece o tom para todo o filme e é o primeiro contacto a este nível com a audiência, pelo que é extremamente importante e não pode de forma nenhuma ser descurada por parte do criador. 
No caso concreto de narrativas em parábola no final da narrativa o espectador é novamente colocado no início, pelo que também aqui a música deve ter um papel muito importante, sem que tenha que se repetir a mesma orquestração no final, mas o tema poderá ser o mesmo para reforçar a parábola emocionalmente. 
Tipicamente ao longo da narrativa a música nunca é interrompida abruptamente (a menos que se pretenda um efeito especifico como a surpresa), mas decorre continuamente modificando o seu teor de acordo com os pontos em que a narrativa visual é emocionalmente acentuada, sendo que também a música sofre acentuações sem interromper a fluxo contínuo que se designam por Hit points. Os Hit Points existem em função da imagem e são utilizados para acentuar momentos mais fortes, ou para fazer a transição de uma forma suave entre momentos musicais distintos (por exemplo numa mudança de cena). 
Outro dos elementos musicais clássicos é o Leit Motif que corresponde a uma peça musical que é associada a um determinado personagem. Depois de estabelecido o Leit Motif (a música aparece em simultâneo com a personagem algumas vezes no início da narrativa), basta que este seja introduzido sonoramente na narrativa para que a audiência assuma a presença da personagem ainda que esta não esteja presente no enquadramento.

Sonoridades do cinema: 

Tarkovsky e a heterocronia da escuta

Por:Rodrigo Fonseca e Rodrigues
Resumo 
Neste artigo, propõe-se abordar a trilha sonora no cinema, problematizando a simbiose entre a composição musical e o design sonoro. O cinema se tornou uma arte que imantou muitas competências e materiais para assumirem responsabilidades movediças em prol da ideia do filme, não havendo, por tal razão, nenhuma hierarquização entre música, sons e ruídos. Mediante a apreciação da trilha sonora do filme Stalker, de Tarkovsky, valemo-nos do conceito bergsoniano de endosmose (o complexo de durações heterogêneas pelo qual se produz a nossa experiência) para afirmar que a arte cinematográfica não seria uma simples combinação de materiais (texto, imagens, personagens, sons, etc.), mas um agenciamento de durações, uma composição de tempos: uma heterocronia de memórias, experiências e sensações. Na escuta, esse conceito ganha o nome de sonoridades. O paradoxo, condição da força de toda a arte, sobrevém quando o artista logra restituir, mesmo sob as codificações da linguagem, a sensação da imprevisível renovação do mundo-sempre-em-devir.

Quaisquer questões sobr e a intercessã o entr e drama e sons antecedem, obviamente, o advento do cinema. Recorde-se do papel do coro no teatr o grego, da músic a nas festividades pagãs, nas representações litúrgicas medievais, no melodrama no Pós-Renascimento, com o nas peças shakerspearianas, óperas e balés. A trilha sonor a como arte coadjuvante do cinema se estabeleceu, historicamente, por meio dos diversos agenciamentos entr e música, efeito e vo z em mútua intervenção co m o texto e a imagem em movimento. Trata-se, com o é bem sabido, d e um trabalho coletiv o que envolv e muitas negociações durante todo o seu processo de criação: precisa ser planejada desde o roteiro, projetada na pré-produção, executada na gravação, ter sua conexão audiovisual sincronizad a na montagem, definida na edição de so m e finalizad a na mixagem. 

O cinema se tornou, por conseguinte, uma arte que incorporou diversos saberes, materiais e técnicas. E a importância da trilha sonora se estabeleceu como uma arte coadjuvante na mobilização da escuta em face do flux o plástico de uma ideia narrada. Compositores e editores de so m passaram, gradativamente, a vislumbrar a grande eficácia que a mú - sic a e a sonoplastia poderiam ter par a intensificar a forç a da imagem e do enredo. Foi preciso, par a tanto, inventar modos de amalgamá-las ao s ritmos textuais e dramáticos, à trama de um argumento, à s inflexões dos diálogos, ao s contrapontos expressivos do silêncio e ao s saltos episódicos nos tempos narrados. Nossa digressã o se ocupará, no entanto, d e outras temporalidades: as durações ínfimas subjacentes à própria duração cronológica do filme. 

Música e sonoplastia no cinema 

Nesse universo de estratégias convencionais par a a sonorização da imagem e de tudo o que ve m co m ela, fixaram-se historicamente muitas táticas co m fins à mobilização de nossos afetos em face do flux o plástico da narrativa, condicionando os estados emocionais da audiência. Estão há muito consolidados incontáveis paradigmas técnicos e estéticos par a compositores e sound designers na produção cinematográfica: mú - sic a diegétic a e extradiegética, utilização de composições preexistentes, recursos de harmonização (acordes musicais) par a se criar suspensão, tensã o ou acomodaçã o psicológic a (como também o bitonalismo, par a sugerir ambiguidade; o atonalismo, par a provocar sensações de instabilidade e caos; ou a escala de tons inteiros – o familiar “debussismo”ou impressionismo musical –, para evocar, por exemplo, sensações bucólicas). O leitmotif wagneriano, já utilizado no teatro musical, cria associações de trechos melódicos a determinado personagem. Os ostinatos (células rítmicas acentuadas na regiã o grave, por exemplo, s e notabilizaram em Tubarã o), além de estratagemas dinâmicos – andamento (aceleração ou desaceleração do ritmo) e volumetria (intensidade sonora) – e os efetivos recursos de timbragem (a “paleta sonora”, que referencia uma época, uma cultura, etc.). Há outras muito conhecidas aptidões da música, como a ampliaçã o do espaço concreto sugerido pelos sons, dentr o ou par a fora do campo visual mostrad o no filme . 

A músic a fílmica pode se desdobrar operar em diversos fluxos paralelos na experiência do espectador: marca referencialmente a narrativa, enfatiz a emoções particulares sugeridas por ela, produz conotações e funciona como recurso de continuidade . A trilha sonor a pode, igualmente, aludir a um estado sentimental de uma personagem ou de uma coletividade, sugerir pressentimentos ou assumir uma espécie de função retórica. Co m ela também se pode evocar uma époc a histórica, indicar um contexto cultural, uma hor a do dia ou uma estaçã o do ano, bem como direcionar a atenção par a algum detalhe da cena em especial. As canções (theme songs), também, sã o utilizadas co m frequência em razã o de o cinema ser – a partir das décadas de 1920 e 1930 co m o cinema falado e n as décadas de 1940 e 1950,na chamada Era de Ouro – articulado à evolução da radiofonia e da indústria do disco. E, por fim, há muitas interessantes realizações nas quais as características estruturais da mú - sic a sã o aproveitadas na construção e no flux o da narrativa. Existe uma estratégia aparentemente contraditória, no entanto, muito utilizada, que é a deliberada não redundância da música com a imagem, pela qual o elemento sonor o pode até mesmo exercer papel ativ o na narrativa fílmica2 . Não se pode recusar o fato de que a música, que em tantas situações é presente e até onipresente, coexiste co m circunstâncias em que até mesmo o próprio som é abolido. O s períodos de completo silêncio, por seu turno , podem contribuir par a o realce da músic a e assim por diante . 

O pensamento composicional, quando cooptado pela ideia cinematográfica, precisa sofrer uma reviravolta em relação à criação musical estrita. Essa é uma questã o importante no que diz respeito à simbiose entr e a sensibilidade do músico e o do sound designe r num trabalho fílmico. A músic a e a sonoplastia cooperam intimamente entr e si em prol da forç a enunciativa, plástic a e cênic a de um filme, não havendo razões para se dizer que uma arte deve sobrepujar a outra. E, quando se fala em sonoplastia, deve-se atentar, também, para o sentido que esta possui, que não é apenas de captar os sons ambientes, sintetizá-los, tratá-los no estúdio e editá-los em conformidade co m as imagens. O sonoplasta precisa ter um compromisso artístico quando as sonoridades – inclusive o silêncio – sã o criadas par a afetar a imagem, um movimento, u m gesto, uma nuance psicológica, uma transição de cena, de ritmo, de velocidades, etc. 

A escolha dos materiais, técnicas e estilos de composição passa, portanto, a provocar não apenas uma mudança na atitude do compositor. Isso também implica, além de uma consciência da própria prátic a profissional, na qual determinadas soluções precisam ser dadas, o que requer certas estratégias composicionais específicas para o seu trabalho. O artista deve analisar constantemente a interação de sua proposta de composição à concepção original do filme e ao s meios narrativos já estabelecidos para controlar o resultado como um amálgama entre imagem, músic a e linguagem. Quem compõe nã o pode se furtar, n o entanto, à experimentaçã o co m as conexões múltiplas entr e as infinitas durações coexistentes na fluência heterocrônic a do filme . 

A música e a sonoplastia, portanto, cooperam entr e si e co m os demais materiais de criaçã o no cinema, nã o havendo, hoje, razões par a se dizer que qualquer delas sobrepuja uma à outra. Po r mais estranho que possa parecer, a música, uma das artes mais sofisticadas, quando é cooptada no cinema, torna-se um dos muitos importantes elementos na amálgama em que o agenciamento de sons e ruídos se confunde comacomposição musical estrita. A força da enunciação, da imagem encenada, ritmada, os processos de expectativas e retenções que ela cria podem se intensificar ou se transfigurar pela criatividade na sonoplastia, a ponto de esta se tornar tã o decisiva na trilha sonor a quanto a músic a stricto sensu . 

A heterocronia e as sonoridades do cinema 

Os conceitos do pensamento do cinema nã o são, obviamente, dados pelo cinema. É preciso que a atitude experimental do pensar lide co m o impensado na arte, n o caso da músic a e da sonoplastia, artes que se coimplicam no cinema. E, par a problematizarmos a poiesis que subjaz à composição da trilha sonora, valemo-nos do conceito filosófico bergsoniano de endosmose e que o renomeamos aqui como heterocronia. Henri Bergson o emprega inicialmente para conceber o mundo como um imenso complex o de durações heterogêneas pelo qual se produz nossa experiência, um processo no qual se implicam durações muito diferentes, superiores e inferiores à nossa. As durações às quais o filósofo se refere são basicamente duas: as virtuais, que são modulações imperceptíveis do tempo, que se implicam e produzem as durações “segundas”, durações atuais, ou seja, em ato, sentidas como experiência perceptiva da passagem do tempo. A coimplicação de durações virtuais, impalpáveis, que se atualizam para a experiência das durações humanas, produz uma realidade posterior, fenomenológica de tempos, por assim dizer, cinemáticos. Cada percepção nossa nada mais é que uma síntese de infinitos acavalamentos de durações imperceptíveis: os virtuais. Quando chegamos a perceber qualquer duração como uma qualidade sentida, diz Bergson, é porque estamos a contrair milhões de vibrações não sentidas, no curso heterogêneo do tempo.

O que dá tal espessura temporal perceptiva a essas durações pré-sensíveis é, de acordo com Bergson, uma síntese mista de trabalhos especializados da memória. A multiplicidade de durações mutuamente implicadas são sintetizadas pelas nossas competências mnemônicas, que nos dão um presente vivido, sensível, fenomênico, consciente e descritível: o aqui-e-agora da experiência. O tempo sentido, percebido e lembrado da experiência humana é justamente a síntese de contrações mnemônicas desse processo de modulações ínfimas do tempo, incorpóreas, imateriais, inexpressas, rítmicas, intensivas. E não podemos sequer discernir o que é realmente percepção e o que é lembrança. Isso significa que misturamos às sensações (que nascem do nosso confronto contínuo e imprevisível com o devir) milhares de detalhes de nossa experiência (fruto das sínteses da memória). A inovação inexorável do mundo capturada como sensações é, por força da “educação ” da memória, constantemente represada.

Para lidarmos com o problema da heterocronia ligada aos sons do cinema, empregamos aqui a palavra sonoridades 3 . Esse conceito pode nos ajudar a pensar a escuta como um evento múltiplo pelo qual se implicam ritmos – virtuais – que extrapolam tanto a objetividade fenomenológica do som quanto a subjetividade interpretativa – atuais – da música. O termo sonoridades expressa justamente o que se processa para aquém e além dos tempos perceptivos e lingüísticos na escuta. Tudo aquilo que soa não é, por conseguinte, apenas o som, mas, sim, a implicação de muitas durações heterogêneas – virtuais e atuais – portanto, nem todas sonoras. As sonoridades modulam tanto os tempos da música que soa quanto os tempos não musicais sintetizados pela escuta. Ao escutarmos, efetuamos operações de reconhecimento pelas memórias, mas também somos atravessados por sensações e reminiscências insonoras. Assoma, nos interstícios da objetividade fenomenológica, sonora, um apetite inominável de dar saltos paradoxais no tempo, d e mergulhar no futur o ou de se esquecer no passado. E m suma: as sonoridades sã o a heterocronia que se processa pela escuta. A escuta, porque ela “s e faz”, ela também se cria na condição de espalhar ouvidos em toda parte, por exemplo, e m uma estrutura, em uma narrativa, em uma imagem, em um texto, etc. E, se a escuta nã o repousa apenas no musical ou sonor o e nã o é uma ação puramente auditiva, a imagem, por sua vez, nã o é apenas visual.

As sonoridades em Stalker 

Um exemplo notável e bastante ilustrativ o par a nossa questã o é a película Stalke r, realizad a por Andrei Tarkovsky, lançad a em 1979. Ele trabalhou a atmosfer a sonor a do filme co m o compositor Edwar d Artemiev. Este, a o ser convidado pelo diretor, comentou: “Tarkovsky me disse que nã o precisava de um compositor. Ele precisava do ouvido do compositor e de sua maestria no comando do som, para mixar a música e fazer os efeitos sonoros”.4 Vale dizer que a trilha sonora de Stalke r, com o acontece em todos os filmes de Tarkovsky, possui uma concepção e uma condução absolutamente meticulosas. Depois de rejeitar a primeir a ideia que Artemie v lhe apresentou, que er a concebida para orquestra, o diretor acolheu com entusiasmo a segunda composição, criad a a partir de sintetizadores, co m um caráter marca - damente minimalista e cujos temas sofreriam variações ao longo d o filme. Amalgamaram-se à músic a muitos sons ambientes, or a captados, ora sintetizados, e muitas vezes não chegamos a distinguir o que é natural ou artificial. Em certos momentos,Tarkovsky inseriu trechos incidentais de peças do repertório da músic a clássica, como a Nona de Beethove n e o Bolero de Ravel.

No decorrer da narrativa, dá-se ao s diversos sons provenientes da água um tratamento especial: chuva, gotejamentos, ruídos subaquáticos, sons impactantes dos passos sobr e um terreno encharcado e a pujante massa sonora de uma cachoeira volumosa.Tarkovsky confunde intencionalmente esses tipos de sons e confer e valores musicais a sons supostamente aleatórios provenientes dos lugares percorridos pelos personagens. O realizador chega reduzir o flux o de imagens estritas par a dar proeminência às “imagens internas”suscitadas pela música.A despeito de o diretor declarar que todo filme de acentuado cunho conceitual nã o tem lugar par a a música, essa película explora com um cuidado meticuloso toda a intensidade da presenç a sonora. Ocorre, de fato, uma espécie de atrofia do olhar que acaba por promover a imaginaçã o e produzir uma impregnaçã o mais incisiva do som. Visualidades e sonoridades têm, de fato, suas fronteiras borradas, uma ve z que a músic a afeta toda a sensaçã o visual, e vice-versa. Tarkovsky (2008) também experimenta a conhecida tátic a das desconexões entre imagem e som que provocam uma escuta descontínua diante das transições visuais lentas e mudanças sonoras bruscas.Tudo isso acaba por sugerir ritmos que desestabilizam a percepção (durações atuais) e renovam a sensaçã o (durações virtuais) do fluir heterogêneo do tempo . Para o próprio Tarkovky (2008), o mundo sonor o agenciado num filme é, em sua essência, musical; e essa é a real forç a da músic a no cinema.

O casamento entr e enunciação, imagem e sonoridades em Stalke r, se seguirmos esse pensamento, poder á nos retirar da experiência trivial co m o cinema e nos impelir a desmontar alguns condicionamentos na apreensão de suas durações tão heterogêneas, de sua potencial heterocronia, ou melhor, sua heterorritmia. É preciso refrisar, a esse respeito, uma premissa: toda a arte se faz, antes de ser musical, sonora, cinemática, literária, plástica, por meio de um jogo de retenções e de liberações das nossas relações mnemônicas comotempo. O artista, em sua lida criativa, conjuga, exibe ou inibe durações e, assim, desestabiliz a alguns condicionamentos habituais da memória que perfazem nossa experiência. A força da arte – tudo o que ela pode em nós – nasce justamente da re-instauração de uma sensação da realidade que é, por princípio, paradoxal. O paradoxo–diferente da contradição – sobrevém quando o artista logr a nos restituir, a o tornar indecidível a percepção da passagem do tempo, a renovação incógnita do mundo-sempre-em-devir.Tentamos demonstrar que a força da arte – e m nosso caso, d o cinema – nasce da realidade paradoxal urdida pelos embates da experiência com as sensações livres – já imanente à própria natureza, sempre recomeçante, mas codificada pela nossa educação da memória e pelas convenções da linguagem e da cultura.

A experiência e a sensação como materiais da arte cinematográfica 


Essa aproximaçã o à arte de Tarkovsky nos leva, por fim, a uma problematização conceitual sobreomaterial na arte (entenda-se o conceito de material que empregamos aqui como qualquer matéria investida de experiência humana: linguagem, literatura,sistemas musicais,tecnologias, história,saberes e técnicas, o imaginário, a cultura, etc.). O material é um conceito que pode nos ajudar a reavaliar as estanques distinções vigentes entre as artes e reconhecer uma tarefa artística no trabalho de criaçã o como a do designe r sonoro. O que muda é o material, mas é preciso que ele exerça um pensamento criativo tal como se exig e em qualquer modalidade da arte.O sonoplasta precisa lidar com os mesmos impasses poéticos co m os quais lidam o diretor e o compositor: materializar ideias de modo a afetar nossas sensações, mas sob um paradox o constante: ao mesmo tempo em que se evita o clichê, deve-se respeitar a ideia mestr a do filme , par a que a nossa experiência nã o sucumba a um mergulho indiscernível num experimentalismo gratuito e desprovido de ritmo .

E o trabalho artístico se faz, antes de quaisquer materiais específicos, sejam sonoros, sejam imagéticos ou textuais, por uma espécie de jog o de retenções e de liberações da percepção do tempo que poder á provocar um acavalamento paradoxal de sensações e memórias. Quem compõe estará, na realidade, criando um paradox o par a a experiência feita de memórias, ao desencaminhar linhas sedentárias da percepção e fazer aflorar sensações incomunicáveis. A singularidade na sensaçã o somente se realiz a na condição de ativar uma restituição do indecidível e do oxímor o nos regimes perceptivos e de significação .

Quem compõe estará, na realidade, desencaminhando as cadências habituais da percepção e inventando sensações artificiais e inabarcáveis por qualquer semiose. A sensação, na arte, é alg o como uma experimentação com nossas esperas, hesitações, fadigas, surpresas, enfim, com nossos modos de apreender e de sentir as forças do tempo. S ó a arte tem esse poder de desestabilizar nossas percepções e deixar sobrevir sensações não representáveis, inomináveis, puramente rítmicas. A arte, afinal, vive da heterocronia, das suas interferências nas durações pelas quais nossos hábitos de percepção tentam se acomodar perante o confronto constante e imprevisível co m as forças iminentes do futuro. E nunc a se saberá, de fato, aquilo que a arte vai mover, porque o que ela move sã o precisamente as potências impalpáveis do devir. E toda novidade na arte tem a ve r co m a desmontagem de memórias codificadas que inibem as sensações virgens. O artista é, co m efeito, u m coinovador que nos reapresenta o mundo em sua contínua e recomeçante explosão.

La historia del cine | Una odisea 04 El sonido y los años 30 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Hollywood e a Crise de 1929

Hollywood e a Crise de 1929


Um pouco da história da capital norteamericana do cinema durante a crise econômica que varreu o país









Will Hays, chefe da Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes, disse em 1934 que “nenhum meio contribuiu tanto quanto o filme para manter o moral nacional durante um período caracterizado pela revolta, revolução e turbulência política”. Durante a Crise de 1929, Hollywood desempenhou um fundamental papel psicológico e ideológico nos Estados Unidos, garantindo segurança e esperança para uma nação despedaçada economicamente. Imagine que mesmo durante os momentos mais negros da Depressão, algo entre 60 e 80 milhões de americanos iam ao cinema toda semana, enquanto os filmes sustentavam os ânimos dos cidadãos desesperados com o desemprego e a miséria.
Embora toda a indústria cinematográfica se considerasse intocável pela crise, Hollywood não era mais imune que qualquer outra empresa aos efeitos catastróficos que afetaram todo o estilo de vida americano. Para financiar a compra de novas salas de projeção e para converter as existentes em cinemas com som, os estúdios triplicaram suas dívidas durante a década de 20, alcançando a incrível soma negativa de 410 milhões de dólares. Como resultado direto, a própria viabilidade do negócio foi colocada em xeque. Por volta de 1933, as bilheterias haviam caído 40% e, para sobreviver, a indústria cortou salários e custos de produção, além de fechar as portas de um terço das salas de exibição de todo o país. Para aumentar as bilheterias os cinemas apostaram nas mais estapafúrdias alternativas, como baixar o preço das entradas para 25 centavos de dólar, distribuir refeições gratuitas e até premiar com dinheiro algum felizardo sorteado.
O maior motivo para tantas pessoas irem ao cinema em meio à Depressão foi o escapismo. No escuro das salas de exibição todos podiam esquecer seus problemas por algumas horas. Críticos esquerdistas comumente comparavam o cinema americano com o “pão e circo” romanos, como uma forma de distrair a população dos problemas, reforçando valores antigos e despejando radicalismo político.
Ainda assim, os filmes eram mais que mero escapismo, porque a maioria dos filmes da época eram baseados na realidade da época. Os tipos de filmes que Hollywood produzia iam mudando de gênero conforme o humor da população. Nos primeiros anos de crise, como o sentimento primário era de desespero, nas telas de cinema foram refletidos uma sucessão de gângsteres com metralhadoras, prostitutas nojentas, políticos ladrões e advogados charlatões. As comédias lançadas nos anos mais escuros da crise expressavam um desdém quase anarquista pelas instituições tradicionais.
Mas os filmes de gângsteres e o abuso da sexualidade nas comédias no início dos anos 30 provocaram católicos e protestantes, criando uma série de boicotes e reclamações de grupos religiosos. Hollywood criou então um escritório para revisar todo script a ser produzido para garantir que não ferisse o Regimento de Produção de Filmes Silenciosos, Sincronizados e Falados. Esse regimento, por sinal, foi escrito por um padre jesuíta, mas os produtores da indústria disseram que as normas deveriam ser mais como uma ferramenta de relações públicas, não funcionando como uma censura. Esse desdém fez os católicos formarem a famosa Legião da Decência, que infernizou não só o cinema mas a música também, até meados da década de 1980.
Ameaçados por um boicote de proporções maiores, os produtores decidiram mudar drasticamente os parâmetros de produção das películas. A partir daí foi proibido filmar nudez, profanação, escravos brancos (sim, escravos brancos), miscigenação, sexo de qualquer natureza e até cenas prolongadas de beijos, além de coibir a glamourização do crime e do adultério. Ou seja, o próprio caráter do cinema foi alterado. O efeito negativo mais óbvio é que não se produzia mais filmes que explorassem a realidade da época, questionando o cenário político e moral norteamericano. Por outro lado, contribuiu com um aperfeiçoamento da técnica, já que roteiristas e diretores agora buscavam formar mais sutis e criativas de burlar o código da sexualidade e violência.
O conhecido New Deal de Roosevelt foi a oficialização do encerramento desse período negro na história econômica norteamericana, e dele surgiu um novo otimismo. Na segunda metade da década de 30 começaram a aparecer novos tipos de filmes. Justiceiros, detetives, defensores da lei e heróis do faroeste substituíram os gângsteres. Ao invés da violência crua e da negatividade, o público passou a ver os dramas de pequenos homens que enfrentavam a corrupção. Os diálogos complexos dos irmãos Marx cederam espaço a um novo gênero, a comédia screwball ou pastelão, enquanto o terror pobre e fantástico foi ganhando novos recursos ao longo das décadas seguintes.
Enfim, o mundo fantasioso do cinema teve um papel social fundamental durante toda a Crise de 29. Diante de um desastre econômico, serviu para manter a crença no sucesso individual, retratou um governo capaz de proteger seus cidadãos e sustentou a visão de um país forte o bastante para resistir. E de lá para cá, Hollywood vem repetindo as mesmas fórmulas. Um garoto pobre usa o crime como uma escada para o sucesso. Uma garota sem talento sobe na profissão através de sorte e esforço próprio. Um oficial restaura a lei e a ordem. Um garoto pobre e uma garota rica se conhecem, passam por diversas situações (ditadas pelo gênero do filme) e se apaixonam. Através desses plots simples, Hollywood restaurou a fé na individualidade, na iniciativa, na eficácia do governo e na unidade da classe norteamericana.








Para assistir e entender


O cinema dentro do cinema. Metalinguagem de Allen é bela e precisa.








Em 1985, Woody Allen lançou a comédia A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985), que conta a história de Cecilia, uma garçonete que durante a Depressão foge da realidade indo ao cinema para ver os mesmos filmes por horas e horas. Allen foi muito feliz ao mostrar um excerto da crise econômica sem exageros ou caricaturas. A realidade de seu marido desempregado e entregue à bebida, a angústia de viver sem esperanças, o oásis que tomava forma na sala de exibição e a forma de superação quando o herói sai da tela de projeção para dar à donzela toda proteção e amor que ela merece. Com Allen no auge de seus textos e Mia Farrow e Jeff Daniels ótimos como protagonistas, A Rosa… é uma comédia doce, divertida e imperdível.








Embora A Rosa Púrpura do Cairo seja perfeito para ilustrar o cinema na Depressão, muitos outros filmes se passam nessa época.
  • A Luta pela Esperança (Cinderella Man, 2005)
  • O Inventor de Ilusões (King of the Hill, 1993)
  • O Sol é para Todos (To Kill a Mockinbird, 1962)
  • E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?, 2000)



A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA 


RESUMO
Durante toda a história do cinema é possível observar uma evolução em sua linguagem e influência na sociedade. Com o surgimento da indústria, se tornou uma comunicação de massa com um papel ativo na transmissão de mensagens. Mas mesmo com tais evoluções ainda é perceptível um padrão na estrutura dos filmes e o reforço de alguns estereótipos. A consolidação de Hollywood como centro de produção na indústria cinematográfica sugeriu meios para sustentar essa produção a fim de valorizar sua percepção internacional. Assim surgiu o Oscar, cerimônia de premiação mais acompanhada do mercado cinematográfico. Apesar de seu grande reconhecimento, a estatueta ainda deixa a desejar na composição de seu júri e consequentemente na escolha de seus nomeados e premiados. A representação da mulher nos filmes industriais são exemplos dos estereótipos presentes em Hollywood, que influenciam também, na participação feminina na indústria e consequentemente na cerimônia do Oscar. 

INTRODUÇÃO 

Conforme a evolução na comunicação, os meios e as linguagens foram se diferenciando e criando estruturas possíveis de atingir cada vez mais pessoas. Foi o caso do cinema, que além de se tornar um mercado de entretenimento se tornou também um meio de comunicação influente capaz de representar, ou não, a sociedade. 

O início do cinema é analisado de forma a entender como a publicidade conseguiu transformar a exibição de imagens em um mercado e compreender até que ponto a forma como essas imagens são transmitidas pode influenciar o comportamento de uma cultura e as ideologias de uma sociedade. 

O surgimento da indústria cinematográfica implica na criação de um padrão na apresentação de certas mensagem e maneiras de apresentá-las. Com isso procura-se entender qual a forma predominante em abordar as mensagens presentes nos filmes e quais os temas que mais chamam a atenção do público. Analisa-se também como se consolidou um centro de produção na indústria cinematográfica. 

Com o domínio dos filmes estadunidenses no mercado, o mundo todo passou a acompanhar a principal cerimônia de premiação de cinema nos Estados Unidos. O Oscar se tornou um evento esperado todo ano e utilizado como referência na hora de avaliar um filme. A premiação que tem mais de 80 anos, já reuniu grandes nomes do cinema, assim como deixou muitos de fora. 

O grande reconhecimento conquistado pelo Oscar trouxe a possibilidade de escolher os participantes da cerimônia conforme seus padrões e ideais, porém com a influência que a cerimônia tem hoje sobre os espectadores, ela transmite esses ideais de forma a ser analisado quais são e porque eles existem. 

Os ideais do prêmio estão muito ligados aos estereótipos presentes nos filmes hollywoodianos, os quais são influenciados pela visão patriarcal da sociedade, tornando padrão a representação da mulher nesses filmes. Analisa-se a partir disso qual o papel da mulher na narrativa e como isso tem relação com a indústria cinematográfica. 

O reflexo dos padrões no cinema é a participação da mulher fora do filme, que hoje ainda é mínima, se comparada aos homens, mesmo que tenha uma influência importante na representação da sociedade nos filmes. 

No Oscar, a participação feminina, que já é pouca, se torna além de tudo, desvalorizada. A falta de reconhecimento com as mulheres gera análise sobre quem e como escolhe os nomes indicado ao Oscar. 

1.BREVE HISTÓRICO DO CINEMA 


O que conhecemos como cinema hoje é provavelmente um conceito muito distante do que era quando ele surgiu. Na verdade, segundo Bernardet, quando cientistas decidiram usar máquinas para projetar fotos em movimento a intenção era totalmente científica e eles não acreditavam que aquilo poderia se transformar em entretenimento. Por esse motivo, o cinema era usado de forma documental, a fim de transmitir informações da maneira mais real possível. Essa realidade, de pronto, causou estranhamento nos espectadores e fez com o que o cinema passasse por um processo de aceitação da população. Aos poucos a nova forma de comunicação foi evoluindo e criando novas linguagens. Passou das pessoas correndo do trem que estava chegando perto da tela, para o entendimento da passagem de uma cena para outra de forma que a história ficasse contínua para quem estava assistindo. Tendo em vista que o novo um dia fica velho, o cinema foi se tornando um hábito. 

Esse processo teve um empurrão da publicidade, que ao perceber o potencial daquela prática, evoluiu a simples exibição de imagens para um processo de comercialização não só do filme, mas também de tudo que poderia estar vinculado à ele. Os primeiros 20 anos da história do cinema, de acordo com o estudioso Mascarello, foram considerados um período experimental, que serviu apenas para evoluir a forma como ele era produzido e visto pela sociedade. 

Os irmãos Lumière não foram os primeiros a comercializar filmes, mas eram os pioneiros na época em que o cinema se tornou algo lucrativo. Isso se deve à experiência que eles criaram de ir a um café e se reunir com amigos enquanto viam máquinas reproduzirem imagens. Além de cobrar por essa experiência, eles vendiam as máquinas e com isso iniciou-se um mercado. Os planos eram vendidos separadamente como filmes individuais, em rolos diferentes. Era o exibidor quem controlava a exibição final, decidindo quais rolos e em que ordem seriam exibidos e até em que velocidade as cenas seriam mostradas. Musser mostrava assim que os primeiros filmes eram formas abertas de relato e que a coerência narrativa não era inerente aos filmes, mas estava no ato de apresentação e recepção (Mascarello, 2008, p. 25). 

Antes de mais nada, os filmes deveriam retratar algo que interessasse o público e criar tempos durante as cenas para que quem assistisse pudesse interagir com o filme complementando e interpretando suas ideias. A partir disso era necessário entender esse público. Uma forma de descrever como essa interação funcionava foi por meio de signos descritos no livro Cinema como prática social de Turner, na qual existem os significantes e o significado. Os signos são a forma como os telespectadores assistem e interpretam os filmes, ou seja, o cineasta pode adicionar inúmeros elementos significantes no seu filme mas quem irá atribuir os significados é a plateia decorrente de seus ideais e sua base cultural. Por conta disso muitos acreditam que o cinema seja a representação de uma sociedade ou de uma cultura (TURNER, 1997, p. 51). 

Se o cinema retrata uma sociedade e um ponto de vista cultural, o domínio de uma indústria estrangeira em um país poderia fazer com que o público começasse a perder a nacionalidade e se inserir em uma cultura que não é a que está habituado a viver. Foi o caso da Austrália que depois da tomada da indústria estadunidense fechou as portas para comerciais estrangeiros a fim de nacionalizar o país. 

Assim surge muito do que conhecemos como cinema hoje. Mesmo com várias especulações do seu fim, percebe-se que o hábito de sair de casa para assistir a um filme permanece, talvez não como antigamente, em que a média familiar era ir ao cinema uma vez por semana, mas essa ação ainda é consagrada. 

Durante toda a história do surgimento do cinema consegue-se perceber que ele sempre esteve lado a lado com seu contexto cultural mostrando que um filme não é apenas cenas aleatórias, mas uma composição de simbologia que de alguma forma retrata uma sociedade, o ponto de vista de um diretor sobre a sociedade ou até mesmo a interpretação que a sociedade obteve sobre aquele produto. De qualquer forma, o que se procura entender é até qual grau a sociedade foi influenciada pelo cinema ou o cinema foi influenciado pela sociedade e medir os formatos de vendas desses filmes e um possível padrão de conduta na representação de certos símbolos. 

1.1.INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA 


Mascarello divide as primeiras décadas do cinema em duas fases: cinema de atração e cinema de transição. O cinema de atração se baseia no processo de seu surgimento, onde as imagens visavam o real e a grande atração do filme era a exibição. Nessa época, o cinema, com George Méliès, abusava do ilusionismo para impressionar o público e se caracterizava pelo uso de filmes de truques e histórias de fadas. Os atos cômicos curtos se tornavam cada vez mais populares em espetáculos de variedades em vaudeviles, music halls, museus de cera, quermesses ou como atrações exclusivas em shows itinerantes e travelogues (conferências de viagem ilustradas). 

O período de atrações (1894 a 1903) se caracteriza pela produção documental, os chamados filmes de atualidade, em geral com um único plano. A partir de 1903 começam a ser produzidos filmes de ficção com narrativas simples e experimentações de linguagem. Mas ainda é o exibidor quem formata o espetáculo exibindo os rolos de filme como entende a narrativa. Já o cinema de transição (1907 a 1913) se caracteriza pela organização industrial e pela especialização na produção e exibição dos filmes, que passam para uma média de 3 a 15 minutos (MASCARELLO, 2008, p. 37). 

É o momento em que Hollywood começa a se consolidar como centro da indústria cinematográfica. No início da década de 1910 alguns produtores independentes lutam contra o monopólio da Motion Pictures Patents Company (MPPC) e criam, em 1914, em um subúrbio de Los Angeles, o primeiro grande estúdio, a Paramount, que teve origem num estúdio chamado Famous Players Film Company, comandado por Adolph Zukor. Em 1925 com a Metro-Goldwyn-Mayer, ou MGM, se dá a consolidação definitiva de Hollywood. 

A Europa, até então, dominava esse mercado. A Pathé, na França, era a maior empresa produtora da época e produzia mais do que o mercado interno conseguia comprar, o que levava à exportação de seus filmes. A indústria estadunidense sempre se dedicou às vendas domésticas, mas também já estudava uma expansão de mercado e internacionalização de seus filmes, o que foi facilitado durante a Primeira Guerra Mundial quando as grandes produtoras francesas e italianas perderam força. Nesse momento em que os rolos passam a ser vendidos no mundo todo e em maior quantidade, tanto os cineastas quanto a indústria, passam a ver a necessidade de uma padronização no âmbito da produção e comercialização. ‘’As empresas produtoras procuram satisfazer também as pressões do Estado e de grupos organizados quanto a certos temas e maneiras de abordá-los.’’ (MASCARELLO, 2008, p. 38). Além de uma boa publicidade se percebia temas e atores que atraíam o público. 

A partir da padronização procura-se analisar até que ponto os temas abordados podem ser influenciados e manipulados. 

2. BREVE HISTÓRICO DO OSCAR 


Com a consolidação de Hollywood e o início do domínio dos Estados Unidos no cinema industrial, os nove principais estúdios estadunidenses se reúnem com os sindicatos dos técnicos e assinam o Studio Basic Agreement, acordo que visa fortalecer a produção hollywoodiana a fim de criar um cenário internacional e expandir a venda dos filmes. Semanas depois do acordo assinado, em janeiro de 1927, acontece a primeira reunião da Academia, que objetiva criar meios para manter o mérito dos filmes estadunidenses dentro da padronização do mercado e idealiza então, o que conhecemos hoje como Oscar (LISBOA, 2003, p. 25). 

De início, a originalmente chamada Academy Award of Merit, era apenas a estatueta dourada de um guerreiro que tinha o intuito de agregar valor aos profissionais do cinema. ‘’Na época, os referentes mais próximos do que viria ser a entrega dos prêmios de mérito da Academia eram o Prêmio Nobel (...) e o Prêmio Pulitzer’’ (LISBOA, 2003, p. 27), ambos em memória de seus idealizadores. 

Desde que a primeira estatueta foi entregue, em 16 de maio de 1929, os valores ligados ao prêmio e aos profissionais foram se alternando conforme o cenário do mercado. Nos primeiros anos, quando o Oscar era uma simples reunião realizada pela Academia, quem trazia importância ao prêmio eram os grandes cineastas premiados. O fim do cinema mudo começa a contribuir para que esses valores invertam, pois permite que Hollywood se reinvente através dos filmes sonoros, trazendo uma nova visibilidade ao Oscar. A estatueta também começa a ganhar certo reconhecimento no final dos anos 30, devido à boa publicidade e relações públicas feita ao longo do tempo e reflexo da Era dos Estúdios4 e ausência da TV. (LISBOA, 2003, p. 20). 

Durante toda a história desde seu surgimento, alguns fatos como o declínio do cinema com o surgimento da TV e o relaxamento da censura nos filmes fez com que o Oscar fosse encontrando dificuldades ou facilitando sua oportunidade de crescimento. De qualquer forma, os membros da Academia sempre contornaram as diferentes situações e prepararam um cenário para que prêmio ganhasse cada vez mais valor. Com a transmissão televisiva, em 1953, o Oscar foi se tornando o centro das atenções do público e se concretizou como um grande espetáculo em 1966, quando a transmissão passou a ser ao vivo. Por ser uma cerimônia de premiação de filmes industriais nos Estados Unidos, sempre teve uma relação direta com Hollywood, centro de produção de filmes industriais. Por esse motivo, conforme Hollywood se tornava mais reconhecida mundialmente o Oscar crescia na mesma proporção. Com o apoio da mídia e a curiosidade do público foi se transformando em uma premiação acompanhada pelo mundo todo, sendo referência de qualidade nos filmes padrões. Até no Brasil utilizamos o Oscar para referenciar uma premiação ou situação. 

Com 87 cerimônias e 2.947 estatuetas entregues, o Oscar é hoje, a terceira exibição ao vivo mais assistida do mundo.

5 2.1.INFLUÊNCIA DO OSCAR NA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA 


Para entender melhor como Hollywood se tornou o centro da produção industrial padronizada deve-se conhecer um pouco da sua história. Segundo os estudos de Tom Lisboa, Hollywood foi fundada e, pelos primeiros anos, conduzida não só por estadunidenses, mas em sua maioria, por judeus e estrangeiros no geral. O famoso american way of life era na verdade a idealização, principalmente da Europa Oriental, de um estilo de vida e não o reflexo real da cultura nos Estados Unidos. Essa ‘’ideologia propagada através dos filmes que tinha como objetivo popularizar mundialmente as atitudes, roupas e mitologias americanas’’ (LISBOA, 2003, p. 37) contribuiu para o padrão criado especificamente em Hollywood e atraiu uma vantagem no cinema norteamericano pois fez com que se tornasse ‘’um lugar onde eles vão arquitetar, através de um poderoso oligopólio, seu próprio universo tanto na tela quanto na vida real’’ (LISBOA, 2003, p. 37). É importante perceber que ao criar esse universo e utilizar um padrão, os filmes dentro da indústria cinematográfica deixam de ser materiais artísticos produzidos com individualidade por cada cineasta e passam a ser produtos que fazem uso da arte para serem vendidos. 

Além de criar essa forma de vender filmes como produtos, no Oscar, a busca pelos premiados fica limitada ao comércio nos Estados Unidos, a partir do regulamento instituído em 1934 e que permanece inalterado até hoje. 

Os prêmios de mérito da Academia devem ser conferidos aos trabalhos relacionados com filmes de longa-metragem (definidos como de mais de trinta minutos de projeção) exibidos publicamente pela primeira vez em 35 ou 70 mm, com ingresso pago (pré-estréias excluídas), em uma casa comercial de espetáculos de Los Angeles, compreendida por Los Angeles, West Los Angeles ou Beverly Hills, entre 1º de janeiro e à meia-noite de 31 de dezembro, tendo tal exibição um mínimo consecutivo de não menos de uma semana após o lançamento anterior à meia-noite de 31 de dezembro, seguindo-se a exploração e a publicidade normais utilizadas pelo produtor para este ou outros filmes dentro de suas datas especificadas. (LEVY, 1990, p.12)


A estatueta busca, neste universo exclusivo, um profissional que mereça o mérito de se destacar dentro do sistema industrial, o que gera uma contradição ao que se entende por produção industrial, ‘’Quanto mais a indústria cultural se desenvolve, mais ela apela para a individuação, mas também tende a padronizar esta individuação’’ (MORIN, 1997, pág. 31). Mesmo que a cada filme os diretores e produtores tentem se reinventar e buscar uma identificação direta com a sua obra eles ainda fazem parte de um sistema que utiliza a padronização. A Academia, por mais reconhecimento que queira passar para um profissional específico, incentiva que este profissional mostre sua excepcionalidade em um cenário limitado e reforça isso ao selecionar seu júri dentro das especificações que a convém: ‘’podem votar apenas membros ligados à indústria do cinema’’ (LISBOA, 2003, p. 33).

Nos primeiros anos de premiação, os membros da Academia fizeram contato com algumas das principais Universidades dos Estados Unidos e negociaram a inserção de cursos de cinema voltado para a indústria, criando assim, uma cultura preparada para receber uma premiação no contexto industrial.

Percebe-se então, por todos os requisitos criados pelo Oscar que, além de um padrão nos filmes, existe um sistema na busca dos nomes ligados ao prêmio, o qual favorece a produção estadunidense. Além da produção estadunidense como um todo, procura-se observar se todo esse sistema padronizado pode influenciar também na participação de certos grupos tanto na cerimônia do Oscar quanto na indústria cinematográfica em geral.

3. REPRESENTAÇÃO DA MULHER NOS FILMES INDUSTRIAIS 


De todos os filmes de gangster ou filmes faroeste que você já assistiu, quantos deles constroem a narrativa tendo como personagem principal ou até secundária uma mulher? Se a resposta não for nenhum, com certeza é um número bem pequeno. De acordo com o livro A mulher e o cinema de Kaplan, isso se dá ao fato de que a mulher nos filmes de Hollywood se encaixa apenas ao gênero denominado melodrama. Tais filmes utilizam da formação patriarcal6 e posicionam a mulher sempre em ambientes ‘’femininos’’. Para entender a distinção de feminino e masculino nesse contexto, Kaplan busca por um histórico sociológico que coloca o homem como dominante e a mulher como submissa. Sendo assim, algo masculino é algo que tem domínio sobre as mulheres, que se permite ter desejo pois tem o poder de realizá-los. Logo, feminino é a submissão a esse poder, algo que não pode ter desejo, mas sim ser desejado. ‘’Kristeva diz que enquanto devemos reservar a categoria ‘’mulher’’ para exigências sociais e publicidade, à palavra ‘’mulher’’ ela dá o sentido ‘’daquilo que não representado, daquilo do qual não se fala, daquilo que é deixado de fora dos significados e das ideologias’’ (KAPLAN, 1995, p. 57). A partir disso é difícil entender o que é ser mulher ou ser feminina dentro do olhar masculino, já que a falta de representação de uma personalidade resulta na dependência da mulher com o homem até em termos de narrativa dentro dos filmes.

Um exemplo de como essa dependência funcional é o filme Os homens preferem as louras com Marilyn Monroe e Jane Russell. Sob um olhar masculino, as duas personagens são fortes representações femininas pois se importam uma com a outra e manipulam os homens em busca de seus próprios desejos. O problema é que através desse olhar, essas duas personalidades são construídas de forma sexualizadas, ‘’feitas para serem olhadas’’ e todas as atitudes manipuladoras que poderiam ser consideradas como força se tornam cômicas e não fazem com que o homem perca seu poder de domínio. Até porque, mesmo que elas busquem por realizar seus desejos através dos homens, elas ainda dependem que os homens as desejem, assumindo novamente a posição de submissa (KAPLAN, 1995, p. 57).

Essa estrutura patriarcal dos filmes é resultados da padronização dos filmes industriais, que utiliza, como já visto anteriormente, um estilo de vida idealizado para representar uma sociedade. Essa idealização acaba se relacionando com o desejo, na maioria das vezes inconsciente, de quem está produzindo o filme, participando como espectador e até como personagem.

Christian Metz, Stephen Heath e outro mais demonstraram que os processos do cinema de várias maneiras imitam os processos do inconsciente. Os mecanismos que Freud identifica como relativos ao sonho e ao inconsciente vincularamse aos mecanismos do cinema. Nessa análise, as narrativas dos filmes, como os sonhos, simbolizam conteúdos latentes reprimidos, a não ser pelo fato de que agora os conteúdos referem-se não ao inconsciente de um indivíduo, mas ao inconsciente do patriarcado em geral. Se a psicanálise é o instrumento que revela o significado dos sonhos, poderá também desvendar o significado dos filmes (KAPLAN, 1995, p. 58). 

Se o inconsciente pode interferir no significado do filme, é necessário entender qual inconsciente é dominante na indústria cinematográfica para tentar criar então um equilíbrio na representação de alguns estereótipos.

Dominante, o cinema feito em Hollywood é construído de acordo com o inconsciente patriarcal: as narrativas dos filmes são utilizadas por meio de linguagem e discurso maculinos que paralelizam-se ao discurso do inconsciente. No cinema as mulheres não funcionam portanto como significantes de um significado (a mulher real) como suponham as críticas sociológicas, mas como significante e significado suprimidos para dar lugar a um signo que representa alguma coisa no inconsciente masculino (KAPLAN, 1995, p. 53). 

A partir disso percebe-se que o desejo inconsciente pode trazer inúmeros significantes ao filme assim como a sociedade pode atribuir certos significados a esses desejos. O que se procura entender é se ao mudar o desejo, ou seja, o olhar com que o filme é feito ou assistido, esses signos podem ser invertidos.

3.1.MULHERES NA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA 


Ao longo da história do cinema, do surgimento da indústria cinematográfica e do Oscar percebe-se inúmeros nomes masculinos que contribuíram para que essas histórias chegassem ao que conhecemos hoje. De fato, as mulheres tiveram que lutar muito mais para conquistar um espaço nesse cenário, assim como foi para conquistar espaço no mercado de trabalho como um todo. O feminismo, definido no Dicionário Brasileiro Contemporâneo de Francisco Fernandes por ‘’doutrina social que concebe à mulher direitos civis e políticos iguais aos do homem’’, foi o movimento que permitiu a participação de algumas mulheres em partes importantes dessa história.

Entre elas estão Dorothy Arzner e Penny Marshall, ambas estadunidenses, que tiveram participação na indústria como diretoras. Dorothy entrou na Paramount como datilógrafa e foi promovida para roteirista e editora até se tornar diretora em 1927, ainda no início da história da indústria cinematográfica. Já Penny dirigiu seu primeiro filme em 1983 e depois de algumas outras experiências tornou-se um grande nome na indústria recebendo, inclusive, inúmeras nomeações ao Oscar, porém nunca como diretora. As duas declaradas feministas7 sempre introduziram a quebra dos estereótipos nos seus filmes (KRISTENSEN; EVANS, 2007, p. 111).

Outra diretora, mais contemporânea, que representa bem a participação da mulher na indústria é Sofia Coppola, já nomeada inúmeras vezes em diferentes categorias no Oscar e premiada como roteirista.

Atualmente, poucas diretoras jovens têm tanta influência em Hollywood quanto Sofia Coppola. Além disso, o fato de seus filmes serem bem divulgados e distribuídos, alcançando certo êxito em bilheterias, converteram-nos num objeto atraente para estudos sobre um imaginário fílmico contemporâneo. É interessante então, considerar até que ponto a visão autoral de uma cineasta pode penetrar, através de suas histórias e personagens, na condição da mulher (CONTRERAS, 2009, p. 10). 

Os filmes de Coppola trazem força às personagens mulheres, porém de forma a ser igualada ao homem e não invertendo a situação de domínio-submissão visto anteriormente. Ao colocar a mulher como uma peça forte, de acordo com as teorias trabalhadas neste artigo, a diretora influência que essa imagem seja refletida na sociedade a fim de causar o reconhecimento dessa força nas mulheres dentro e até fora do contexto do cinema.

Além de diretoras como estas citadas acima, a participação de algumas atrizes hollywoodianas por trás das câmeras também fizeram diferença na percepção da mulher. Como Jane Fonda, que juntamente com Robin Morgan e Gloria Steinem fundou em 2005 o Women Media Center, ou WMC, uma organização que objetiva analisar a inserção da mulher na mídia nos Estados Unidos a fim de valorizar sua participação. A organização trabalha com pesquisas, mídia monitorada, treinamentos e campanhas promovendo as mulheres mais experientes no mercado, para que as histórias femininas sejam contadas e suas vozes sejam ouvidas. Um dado obtido pela WMC que inclui diretamente o cinema é que em 2013 apenas 9% dos diretores entre os 250 top “domestic grossing films” eram mulheres, concluindo que atrás das câmeras as mulheres sempre eram mais cotadas para serem produtoras e a porcentagem feminina nessa função só diminuiu quando a profissão começou a ganhar prestígio.

Como se pode observar, a participação feminina na indústria e até no cinema como um todo, muda o cenário dos filmes podendo influenciar na representação de alguns símbolos. Apesar de ser crescente ao longo dos anos, essa participação feminina ainda é mínima e por isso a simbologia nos filmes hollywoodianos ainda é predominantemente transmitida pelo olhar masculino, que ainda pode ser definido por visão patriarcal.

3.2. MULHERES NO OSCAR 


A WMC analisa também a participação da mulher especificamente no Oscar. A partir dos dados obtidos pela organização observa-se que a participação da mulher ainda é muito baixa, especialmente em funções de maior prestígio como direção. De 2012 à 2015, apenas 19% dos nomeados em categorias que não incluem atuação, eram mulheres. Em outros números, a cada 5 homens 1 mulher é nomeada (figura 1). Os números diminuem ainda mais quando se trata das estatuetas conquistadas. Em 87 anos de premiação apenas 1 diretora foi consagrada com a estatueta: Kathryn Bigelow, em 2010.



Levantando os dados dos últimos dez anos da cerimônia (2006 a 2016) ainda encontra-se números bem baixos para as mulheres nomeadas e premiadas. Em roteiro, considerando individuais e em grupo, de 164 nomeados, 19 são mulheres. Em edição, de 83 editores, 11 são mulheres. Nesse período, entre os 59 ganhadores do Oscar apenas 5 são mulheres.



Outro dado relevante para análise, também apontado pelo WMC, é a composição da Academia até o ano de 2015, em que 76% são homens e apenas 24% são mulheres. (figura 2) Em 2016, devido a inúmeras críticas à essa estrutura a Academia se viu obrigada a começar a alterar os números e adicionou cerca de 600 novos membros, dentre eles mulheres, negros e asiáticos.

 A estadunidense Patrícia Arquette, ao ganhar o Oscar de melhor atriz em 2015 disse em seu discurso: ‘’Obrigada (...) à cada mulher que concebeu cada contribuinte e cidadão desta nação. Nós temos lutado pelos direitos iguais de todas as outras pessoas. É nossa hora de ter igualdade salarial de uma vez por todas e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos da América.’’

 Com isso percebe-se que é notável, até para os membros da Academia e profissionais relacionados a ela, que a inserção das minorias é necessária pois elas fazem parte da sociedade e precisam ser representadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 


Analisando a história do cinema e todos os períodos de experimentação e aceitação pelos quais ele teve que passar, entende-se que tudo que é novo precisa se adaptar à sociedade em que está se inserindo. Contudo, o cinema já deixou de ser uma novidade. Os únicos olhares considerados novos são os que saem do padrão que foi determinado durante o surgimento da indústria cinematográfica. A objetificação da mulher nos filmes e a falta de participação feminina por trás das câmeras em Hollywood são reflexos de uma sociedade patriarcal que criou, a partir desse patriarcado, um sistema industrial para representar a sociedade como um todo.

A partir dos desejos inconscientes que foram inseridos em um contexto antigo e idealizado da sociedade, os indivíduos ainda se enxergam nos estereótipos presentes nos filmes, sendo mulher ou homem e continuam a acreditar que é essa a cultura em que precisam viver.

A forma de mudar a sociedade através dos filmes é uma via de mão dupla pois assim como se deve buscar um equilíbrio nos olhares em que os filmes são feitos, para que cada espectador possa se identificar de forma clara e direta com as personagens, também deve haver uma conscientização no olhar desse espectador para que haja espaço para esses diferentes olhares se inserirem no mercado. Essa conscientização pode acontecer através do mérito dado aos filmes em estruturas influentes como o Oscar. Mas para que a Academia comece a premiar filmes fora do seu padrão, é preciso que ela insira membros, de forma equilibrada, de diferentes personalidades, que através de seus desejos inconscientes e base cultural, poderão se identificar com estruturas diferentes de filmes.

La historia del cine Una odisea 03 Los años 20, la década dorada Español


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