O Riso Negro de Kubrick
Uma análise da elaboração estética do cômico no cinema de Stanley Kubrick
A estética do cômico no cinema de Kubrick:
Análise dos filmes Lolita, Dr. Fantástico, Laranja Mecânica e Nascido para Matar.
Stanley Kubrick (1928 – 1999) foi um controverso diretor e produtor de
cinema do séc. XX. Novaiorquino do Bronx, caracterizou-se pela crítica contumaz à
típica neurose e frustração da sociedade liberal norte-americana em suas mais variadas
instâncias.
Deseja-se com este projeto analisar como quatro de seus filmes mais conhecidos
elaboram cinematograficamente a categoria do cômico conforme ela foi pensada por
Bergson em seu livro O Riso: ensaio sobre a significação da comicidade.
Kubrick estreou no cinema aos 22 anos, após ter trabalhado como fotógrafo freelance da revista Look, em Nova Iorque. Sua narrativa cinematográfica é fortemente
influenciada pelo jazz e pelo xadrez, elementos presentes na vida de Kubrick desde a
infância.
As três primeiras produções de Stanley foram renegadas pelo próprio diretor e
não se encontram em circulação. São elas os curta-metragens: Day of the Fight (1951),
Flying Padre (1951), e o longa Fear and Desire (1953).
Em 1955, Kubrick realiza Killers Kiss, um noir que relata as experiências de um
jovem repórter no mundo do boxe. No ano seguinte, o diretor produz O Grande Golpe
(1956), filme que conta a história de um fracassado roubo a um hipódromo. Glória feita
de Sangue (1957) é um libelo anti-belicista que retrata a história verídica de soldados
franceses durante a primeira grande guerra que são condenados à morte por covardia,
após terem sidos enviados a uma missão suicida. Spartacus, de 1960, é um épico sobre
um gladiador romano que luta por liberdade. Lolita, de 1962, é baseado na obra
homônima de Nabokov, cujo enredo repousa sobre a história de um professor de
literatura apaixonado por uma ninfeta. Em 1964, Kubrick lança Dr. Fantástico, uma
comédia sobre os terrores de um holocausto iminente a uma guerra nuclear. Quatro anos
depois, em 1968, adapta para o cinema a obra de Arthur C. Clarke: 2001: Odisséia no
Espaço que é uma ficção científica/ poema visual sobre o próximo passo na evolução da
raça humana e nas tecnologias. Laranja Mecânica de 1971 é uma comédia negra acerca
da natureza pérfida dos seres humanos. Barry Lyndon (1975) é um filme histórico sobre
um homem que busca dinheiro e ascensão social. O Iluminado de 1980 é um thriller
sobre um escritor com bloqueio criativo num hotel assombrado. Em 1987 Kubrick
produz Nascido para matar e conta a história da degradação moral de um soldado.
Finalmente em 1999 Kubrick começa as filmagens de De olhos bem fechados, um filme
que versa sobre a infidelidade, porém, o diretor acaba por morrer antes mesmo do
lançamento, aos 81 anos de idade, em sua casa na Inglaterra.
O projeto almeja analisar a forma como o cinema de Kubrick elabora
esteticamente as categorias da comicidade, conforme elas foram identificadas e
elaboradas nos escritos de Henri Bergson. Depois de uma breve caracterização da
trajetória, obra e lugar no mundo do cinema de Kubrick, far-se-á uma descrição do
papel do cômico na cultura e na comunicação contemporâneas, valendo-nos, para tanto,
das contribuições, entre outras, de Lipovetsky e Eugênio Trivinho. Feito isso, passamos
a uma análise dos seguintes filmes de Kubrick: Doutor Fantástico (Dr. Strangelove,
1964), Laranja Mecânica ( Clockwork Orange, 1971), Nascido para Matar (Full Metal
Jacket, 1987) e Lolita (1962).
Estima-se que este projeto possa revelar aspectos do cômico inusitados ou pouco
suspeitos no âmbito da cultura de massas, mas que iluminados pelo gênio criador do
cineasta possam relativizar a contraposição mecânica entre as esferas morais do bem e do mal. O riso, portanto, serve de elemento mediador dos nossos dilaceramentos morais
e atua como elemento enriquecedor da compreensão do ser humano na cultura no
mundo contemporâneo.
Em conclusão, trata-se de identificar os procedimentos cômicos que esses filmes
elaboram e de comentá-los, no tocante ao significado, dentro do contexto cultural
lançado com a ajuda dos autores mencionados.
3-) Material de Análise
3.1-) Lolita
- Título Original: Lolita
- Tempo de Duração: 152 minutos
- Ano de Lançamento (Inglaterra): 1962
- Estúdio: Steven Arts Production / Anya / Harris-Kubrick / Transwood
- Distribuição: MGM
- Direção: Stanley Kubrick
- Roteiro: Vladimir Nabokov, baseado no livro homônimo de Vladimir Nabokov
- Produção: James B. Harris
- Música: Bob Harris e Nelson Riddle
- Direção de Fotografia: Oswald Morris
- Direção de Arte: William C. Andrews
- Figurino: Gene Coffin
- Edição: Anthony Harvey
James Mason (Professor Humbert Humbert), Sue Lyon (Dolores "Lolita" Haze / Sra.
Richard Schiller). Gary Cockrell (Dick Schiller), Jerry Stovin (John Farlow), Diana
Decker (Jean Farlow), Lois Maxwell (Enfermeira Mary Lore), Cec Linder (Físico), Bill
Greene (George Swine), Marion Mathie (Miss Lebone), Peter Sellers (Clare Quilty)
Baseado romance de Vladimir Nabokov, o filme Lolita versa sobre o amor do
Professor de Literatura Humbert (James Mason), um homem de meia-idade, que
apaixona-se pela dissimulada adolescente Dolores Haze (Sue Lyon). Chamado para dar
aulas na Universidade de Ohio, o Prof. Humbert decide alugar um quarto para passar
alguns dias de férias. Visitando a casa da viúva Charlotte Haze (Shelley Winters), que
aluga quartos para ganhar dinheiro, ele acaba encantando-se pela jovem filha de
Charlotte que toma sol no jardim. Para permanecer perto da adolescente, Humbert casase com a mãe da menina.
Kubrick retrata o cotidiano da classe-média norte-americana e transforma o
romance de Nabokov em uma comédia de costumes, na qual o que está em jogo é a
ironia à pseudo-cultura e aos valores burgueses da época.
Com seu refinado e peculiar humor, Stanley trás à luz no cinema os recônditos
da alma humana; leitmotiv de toda sua obra.
3.2-) Dr. Fantástico
- Título Original: Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the
- Bomb
- Tempo de Duração: 93 minutos
- Ano de Lançamento (Inglaterra): 1964
- Estúdio: Hawk Films
- Distribuição: Columbia Pictures
- Direção: Stanley Kubrick
- Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern e Peter George, baseado em livro de Peter
- George
- Produção: Stanley Kubrick
- Música: Laurie Johnson
- Direção de Fotografia: Gilbert Taylor
- Desenho de Produção: Ken Adam
- Direção de Arte: Peter Murton
- Edição: Anthony Harvey
Elenco : Peter Sellers (Capitão Lionel Mandrake / Presidente Merkin Muffley / Dr. Fantástico),
C. Scott (General "Buck" Turgidson), Sterling Hayden (Brigadeiro Jack D. Ripper), Keenan Wynn (Coronel "Bat" Guano), Slim Pickens (Major T.J. "King"
Kong), Peter Bull (Embaixador Alexi de Sadesky), James Earl Jones (Tenente Lothar
Zogg), Tracy Reed (Srta. Scott), Jack Creley (Sr. Staines), Frank Berry (Tenente H.R.
Dietrich), Robert O'Neil (Randolph), Glenn Beck (Tenente W.D. Kivel) Roy Stephens
(Frank), Shane Rimmer (Capitão G.A. "Ace" Owens)
A ameaça de aniquilação nuclear durante a Guerra Fria é o mote da comédia
mais famosa de Stanley. A cúpula americana tenta impedir um ataque dos Estados
Unidos à União Soviética que fora ordenado por um Tenente americano impotente e
paranóico. A Rússia, no entanto, possui uma máquina do juízo final capaz de destruir
toda a vida na Terra caso sejam atacados, e também um presidente carente e deprimido.
O alto escalão reúne-se para pensar numa solução. Kubrick permeia as cenas com
diálogos hilariantes e ironias, tais como: “ Cavalheiros, vocês não podem brigar aqui.
Esta é a Sala de Guerra.”.
Em qualquer abordagem acerca do cômico em Kubrick, esta é uma obra
obrigatória.
3.3-) Nascido para Matar
- Título Original: Full Metal Jacket
- Tempo de Duração: 117 minutos
- Ano de Lançamento (EUA): 1987
- Estúdio: Warner Bros.
- Distribuição: Warner Bros.
- Direção: Stanley Kubrick
- Roteiro: Michael Herr e Stanley Kubrick, baseado em livro de Gustav Hasford
- Produção: Stanley Kubrick
- Música: Vivian Kubrick
- Direção de Fotografia: Douglas Milsome
- Desenho de Produção: Anton Furst
- Direção de Arte: Keith Pain, Nigel Phelps, Rod Stratfold e Leslie Tomkins
- Figurino: Keith Denny
- Edição: Martin Hunter
Elenco: Matthew Modine (Recruta Joker / Narrador)Adam Baldwin (Animal Mother),
Vincent D'Onofrio (Recruta Gomer Pyle), R. Lee Ermey (Sargento Hartman), Dorian
Harewood (Recruta Eightball), Arliss Howard (Recruta Cowboy), Kevyn Major
Howard (Recruta Rafterman), Ed O'Ross (Tenente Walter J. "Touchdown" Tinoshky),
John Terry (Tenente Lockhart), Kieron Kecchinis (Crazy Earl), Kirk Taylor (Recruta
Payback), Jon Stafford (Doc Jay), Ian Tyler (Tenente Cleves), Papillon Soo, Bruce Boa
Nascido para Matar (1987) é um filme anti-guerra (o segundo de Stanley, que já
havia filmado Glória Feita de Sangue). A história, brutalmente realista e por vezes
surreal, sobre a Guerra do Vietnan, se passa em 3 atos: 1) O recrutamento e treinamento
dos soldados. Estes são sistematicamente atacados, insultados, maltratados e
2280
envergonhados pelo sargento Hartmann, culminando na morte de Pyle, um gordo
desengonçando que não consegue cumprir a tarefa alguma, ri de qualquer coisa e
apanha dos companheiros. A primeira parte é finalizada com o assassinato de Hartmann
e o suicídio de Pyle. 2) Num segundo instante observamos o soldado Joker, que ganhou
esse apelido dos colegas em conseqüência de seu sarcástico humor (Curinga em inglês)
tornar-se um jornalista e observar o que de mais cruel acontecia na guerra do Vietnam,
tornando-se cada vez mais frio e insensível. 3) No último terço do filme, Kubrick revela
a transformação de seres humanos em assassinos, com bastante ironia e sarcasmo, que
podem ser observados pela postura de Joker ao dar entrevistas.
Pretendemos defender que Kubrick, assim como o escritor Kurt Vonnegut no
romance Slaughterhouse V, utiliza o humor como crítica (sanção, segundo Bergson) aos
horrores da guerra, cujas conseqüências são – algumas delas - a perda da humanidade e
da sanidade. É com humor que Kubrick denuncia a atmosfera do descontrole inerente à
Guerra e a transformação de jovens em assassinos.
3.4-) Laranja Mecânica
- Título Original: A Clockwork Orange
- Gênero: Ficção Científica
- Tempo de Duração: 138 minutos
- Ano de Lançamento (Inglaterra): 1971
- Estúdio: Warner Bros. / Hawk Films Ltd. / Polaris Production
- Distribuição: Warner Bros.
- Direção: Stanley Kubrick
- Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de Anthony Burgess
- Produção: Stanley Kubrick
- Música: Wendy Carlos
- Direção de Fotografia: John Alcott
- Desenho de Produção: John Barry
- Direção de Arte: Russell Hagg e Peter Shields
- Figurino: Milena Canonero
- Edição: Bill Butler
Elenco: Malcolm McDowell (Alex DeLarge), Patrick Magee (Frank
Alexander)Michael Bates (Chefe Barnes), Warren Clarke (Dim), Adrienne Corri (Sra.
Alexander), Carl Duering (Dr. Brodsky), Paul Farrell (Tramp), Clive Francis (Lodger),
Michael Glover (Diretor do presídio), James Marcus (Georgie), Aubrey Morris(P.R.
Deltoid), Godfrey Quigley (Chaplain)
Laranja Mecânica foi um romance distópico e futurista de Anthony Burgess.
Lançou o conceito de ultra-violence na cultura. Kubrick o adaptou para o cinema em
1962. Conta a história de Alex (Malcolm McDowell), um jovem psicopata e
carismático, cujas paixões são a música clássica (especialmente Beethoven), o estupro e
a ultraviolência. Alex é líder de uma pequena gangue de delinqüentes, os quais ele chama “Droogs” (do russo: amigo) que lhe acompanham pelas noites em alguma cidade
britânica, não especificada no filme, colocando em prática o horrorshow.
A demolidora reflexão de Kubrick-Burgess, com seu
sangrento escárnio da chamada ‘ moral dos bons
sentimentos’, levantou, como era de se esperar, uma
polvorosa polêmica. O incômodo moral da película
se incrementava pelo fato de que Alex era
apresentado como brilhante e inteligente, enquanto
suas vítimas apareciam como desagradáveis ou
mesquinhas.(GUBERN, 1972)
Kubrick evidencia o maniqueísmo da alma humana, fazendo de Alex um
personagem bem-humorado, inteligente e sensível, porém genuinamente mau.
Defenderemos que é através do subterfúgio do humor em sua narrativa, que Kubrick
seduz o telespectador a simpatizar com Alex, a despeito de seus desvios morais,
colocando a platéia em contato com seu próprio Leviatã (nos termos em que o definiu
Hobbes).
Pretendemos analisar a estética cinematográfica Kubrickiana com o auxílio das
distinções conceituais sobre o riso e a comicidade apresentadas por Bergson na série de
três artigos sobre o assunto publicados na Revista de Paris em 1899 e reunidos em livro
em 1900 sob o título de O Riso: ensaio sobre a significação do cômico.
Henri Bergson nasceu em Paris em 1859. Estudou na École Normale Supérieure
de 1877 a 1881 e viveu os 16 anos seguintes como professor de filosofia. Em 1900
tornou-se professor no Collège de France e, em 1927, ganhou o prêmio Nobel de
Literatura. Bergson morreu em 1941.
Nesta obra, o autor define o cômico, suas formas e movimentos. Estabelece as
propriedades que faz as situações, as palavras e o caráter dotados de comicidade.
O cômico é, para Bergson, um desvio negativo da ordem das coisas, formas e
ações estabelecidas socialmente. A essa ordem ele atribui a maleabilidade, a
flexibilidade dos corpos, das ações, dos acontecimentos. O desvio é a rigidez mecânica
aplicada sobre o que é vivo, é a incapacidade de contornar os obstáculos.
O que há de risível num caso ou noutro é certa
rigidez mecânica quando seria de se esperar a
maleabilidade atenta, a flexibilidade vívida de uma
pessoa. (BERGSON, 1900:8)
Em contrapartida, o riso é a sanção funcional a este mecanicismo. Ele
reestabelece a ordem do indivíduo e da sociedade, é um fenômeno absolutamente
humano, cuja função social é o aperfeiçoamento do homem, e seu meio natural é a
sociedade que é quem lhe atribui significado.
O riso deve ser alguma coisa desse tipo, uma
espécie de gesto social. Pelo medo que inspira, o
riso reprime as excentricidades, mantêm
constantemente vigilantes e em contato recíproco
certas atividades de ordem acessória que correriam
o risco de isolar-se e adormecer. (BERGSON,
1900:15)
Tendo feita a análise categorial dos filmes com a ajuda das idéias de Bergson,
vamos interpretar os resultados à luz do que, sobre o riso e o humor na cultura de
massas atual, nos dizem Trivinho e Lipovetsky.
Lipovetsky, assim como Bergson, afirma que cada cultura desenvolve de modo
preponderante um esquema cômico, esmiuçando três grandes fases do cômico: o cômico
na Idade Média, o cômico na Era Burguesa e o cômico na Pós-Modernidade. Se na
Idade Média a estética do cômico tinha matizes grotescas, populares, de um riso
violador de regras oficiais (como na imagem do bobo da côrte), na Era Burguesa ele se
tornara privado, disciplinado, aleatório, como no riso abafado e dissimulado dos salões
da Belle Époque.
Já a pós-modernidade decretou a liquefação, a pauperização do riso. Contudo, a
época é sobressaturada de signos humorísticos e somente ela pode dizer-se humorística.
Se esse código se impôs, é porque corresponde aos novos valores, aos novos gostos, ao
novo tipo de individualidade que aspira o ócio, a desconcentração, o avesso à
solenidade do sentido que esta sociedade - a sociedade do consumo - utiliza como
código de contato nas mais variadas esferas da vida. Esferas estas como a arte, a
publicidade, a moda e própria interação com o Outro.
“Mas o fenômeno não pode sequer ser circunscrito
à produção expressa dos signos humorísticos ainda
eu ao nível de uma produção de massas: o
fenômeno designa simultaneamente o devir
inelutável de todas as nossas significações e
valores, do sexo ao Outro, da cultura ao político e
isto contra a nossa própria vontade. A descrença pós-moderna, o neo-nihilismo que ganhou corpo,
não é nem ateu, nem mortífero, mas doravante
humorístico.” (LIPOVETSKY, 1983:127)
Por outro lado, em “Contra a Câmera Escondida”, Eugênio Trivinho analisa um
dos recursos de entretenimento da cultura de massas que consiste na vexação de sujeitos
aleatoriamente escolhidos nos espaços públicos, seguida da captação destas situações
tidas como hilárias e posteriormente divulgadas em programas populares, a fim de
causar riso nos telespectadores.
A respeito do humor pós-moderno, Trivinho é bastante explícito e sua crítica
debruça-se sobre o riso perverso e narcísico de que a contemporaneidade faz exploração
mercantil e patológica.
“Diante da tela, o riso apresenta-se potencializado,
indicando a sutil transformação e sua natureza:
converte-se em riso escanecedor.” (TRIVINHO,
1997:72)
Pretendemos elaborar e defender a hipótese de que Kubrick foi um autor
contemporâneo, lançado e financiado por grandes produtoras cinematográficas norteamericanas, porém seu humor escapa às definições de Lipovetsky e Trivinho para o riso
na pós-modernidade.
Se para Trivinho o humor da cultura de massas deprecia o outro, lincha a
alteridade, em Kubrick o humor denúncia a própria condição humana e o fracasso das
instituições que a instauram: a família, o Estado, o exército, o casamento.
Kubrick tem humor porque nos identificamos e nos projetamos no anteparo da
tela, conforme nos sugere uma leitura de Edgar Morin. Sugere ele que devemos rir de
nós mesmos. Se Kubrick provoca graça, é porque sua narrativa revela, critica e nos faz
cúmplices de nossas próprias misérias. É um riso nervoso.
Não pretendemos, enfim, encontrar categorias prontas nas quais
enclausuraremos o humor de Kubrick. Não se trata de cercar o objeto de análise, mas
revelá-lo, caminhar - e quem sabe até rir - junto com ele.
Metodologia:
Para analisar os filmes Laranja Mecânica, Nascido para Matar, Lolita e Dr.
Fantástico procederemos à sua descrição fenomenológica, procurando comentar
momentos do filme com a ajuda da tipologia Bergsoniana, sem perder de vista o todo da
obra. Isto é, depois de um breve resumo ou súmula das características genéricas da
produção e do desenrolar do enredo, selecionaremos cenários, situações e personagens
para análise, permitindo encaminhar a elaboração de argumentos conclusivos.
2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968)
Obra-prima de Kubrick, é mais que um filme de ficção-científica, trata-se de
uma ficção-filosófica. Baseado no livro homônimo de Arthur C. Clarke, 2001 é um
poema visual sobre a evolução da humanidade e da técnica, num tempo em que o maior
inimigo do homem é a máquina: Hal 9000, um computador omnisciente a bordo de uma
nave espacial, a Discovery 1. O filme foi finalizado em 1968, porém sua produção
demandou cinco anos de trabalho, que coincidem justamente com a corrida espacial
disputada entre Estados Unidos e URSS. Uma Odisséia no Espaço é uma experiência não-verbal, ao contrário de Dr. Fantástico (no qual muito do impactante depende dos
diálogos, dos modos de expressão, dos eufemismos empregados).
Para Emir Labaki, por exemplo:
“O filme estrutura-se em quatro grandes partes. A
primeira, ‘The Dawn of Man’ é a mais breve delas.
Durante pouco menos de 15 minutos, acompanha-se
o cotidiano de um grupo de macacos. Pacificamente
eles comem raízes e bebem água ao lado de outros
animais. Um deles é atacado por uma pantera. Duas
turmas de símios reúnem-se em margens opostas de
um pequeno lago. Rosnam uns para os outros. Os
recém-chegados partem para o ataque e assumem o
controle sobre a região (...) A mais longa elipse da
história do cinema transforma um osso que numa
nave espacial. À moda de Eisenstein, resume-se
milhões de anos da evolução.” (LABAKI, 2000:19)
Já para Kagan:
“O homem macaco lança o osso para o alto, este
voa pelos ares girando e se converte, dando um
enorme salto na história, da cultura e da
civilização, em um utensílio sutil e sofisticado de
quatro milhões de anos mais tarde. Um instrumento
que voa, cumprindo as tarefas que lhe foram
designadas.” (KAGAN, 1972:214)
Considerando os trechos acima como resumos de relatos analíticos e
comentários fenomenológicos de uma obra Kubrickiana, tratar-se-á em nossa pesquisa
de proceder analogamente detendo-nos na questão do riso, conforme as linhas mais
gerais indicadas no primeiro parágrafo desta seção.

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