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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica (1948) A Análise Crítica do Filme

Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica (1948) A Análise Crítica do Filme

Por: Tela Crítica

1 - Introdução 

O objetivo desse trabalho é, por intermédio da análise de um filme específico, refletir sobre conceitos como trabalho, capitalismo, proletarização, condição de proletariedade, precariedade e precarização do trabalho. A análise de filmes nos fornece um interessante suporte para o debate, o estudo e a compreensão de conceitos e teorias da sociologia. O foco da análise do filme será sempre a sociologia, seus conceitos e suas teorias. 

A metodologia utilizada foi aquela descrita na obra Tela Crítica – A Metodologia, de Giovanni Alves. “O Projeto Cinema Como Experiência Crítica ou Projeto Tela Crítica surgiu em 2004 na UNESP – Campus de Marília como um projeto pedagógico que busca utilizar a análise crítica de filme para discutir conteúdos temáticos da sociologia.” (ALVES, 2010a, p. 45). 

Nesse relatório, apresentaremos a análise do filme “Ladrões de Bicicleta” 1 , um dos filmes mais importantes e conhecidos do diretor italiano Vittorio De Sica. É uma obra-prima do neorrealismo italiano do século XX. Filmado em locações externas, nos bairros populares de Roma, com trilha sonora de Alessandro Cicognini, e uma fotografia em pretoe-branco de Carlo Montuori, a película foi adaptada da obra literária homônima de Luigi Bartolini. Seu elenco foi formado por amadores. O filme narra a estória de um pai de família desempregado que consegue um emprego da prefeitura como colocador de cartazes, mas tem sua bicicleta roubada, um instrumento de trabalho indispensável.


2 - Ficha Técnica do Filme Ladrões de Bicicleta 


Título no Brasil: Ladrões de Bicicleta; 
Título Original: Ladri di Biciclette; 
Idioma Original: Italiano; 
Duração: 93 min; 
Ano: 1948; 
País: Itália; 
Diretor: Vittorio De Sica; 
Diretor de Produção: Umberto Scarpelli; 
Distribuição: Ente Nazionale Industrie Cinematografiche (ENIC); 
Edição: Eraldo da Roma; 
Desenho de Produção: Antonio Traverso; 
Produção: Giuseppe Amato e Vittorio De Sica; 
Roteiro: Cesare Zavattini baseado em estória de Oreste Biancoli, Suso Cecchi d’Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri e Cesare Zavattini e em romance de Luigi Bartolini; 
Fotografia: Carlo Montuori; 
Estúdio: Produzioni De Sica; 
Música: Alessandro Cicognini; 
Cor: Preto e Branco; 
Gênero: Drama; 
Elenco: Enzo Staiola (Bruno Ricci), Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci), Lianella Carell (Maria Ricci), Elena Altieri (uma dama de caridade), Vittorio Antonucci (Ladrão), Gino Saltamerenda (Baiocco), Carlo Jachino (um mendigo), Michele Sakara (Secretária da Organização de Caridade), Giulio Chiari (um mendigo), Emma Druetti, Ida Bracci Dorati (La Santona), Sergio Leone (Seminarista) e Fausto Guerzoni (Ator Amador).

3 – Sinopse 

Após a segunda guerra mundial, na cidade de Roma, em crise econômica, Antonio Ricci, operário desempregado, não qualificado, consegue trabalho como colocador de cartazes. Mas, para conseguir a vaga, Antonio precisa de uma bicicleta. Apesar de ter uma, ela está penhorada. Para consegui-la de volta, Antonio, com ajuda de sua esposa, penhora os lençóis de sua casa. No primeiro dia de trabalho, sua bicicleta é roubada. Antonio e seu filho saem em busca do ladrão. Os dois perambulam por Roma, em uma tentativa desesperada de encontrar a bicicleta e o ladrão. Após encontrar o ladrão, mas sem testemunhas que comprovem o fato, ele desiste e tenta, sob o olhar reprovador de seu filho, roubar uma bicicleta. Sua tentativa fracassa. Ele volta para casa de mãos dadas com o filho. 

4 – Diretor 

Vittorio De Sica, nascido em Sora (Itália) aos 07 de julho de 1901 e morto em Neuilly-sur-Seine aos 13 de novembro de 1974, foi um dos mais importantes diretores do cinema italiano, tendo dirigido 36 longa metragens. Cresceu em Nápoles e trabalhou como empregado de escritório. Estreou como ator de cinema com apenas 15 anos, no filme mudo de aventura dirigido por Alfredo de Antoni, Il Processo Clémenceau. Em 1923, entrou em uma companhia de teatro onde fez imenso sucesso, tornando-se conhecido do público, e voltou ao cinema para participar do filme La Bellezza del Mondo (1927). Como ator, participou de mais de 150 filmes, na sua maioria comédias ligeiras. O último filme em que participou como ator, foi Storia de fratelli e de cortelli (1974). 

Sua estreia como diretor foi em 1939, com o filme “Rosas Escarlates” (Rose Scarlatte). Em 35 anos de carreira, como diretor, recebeu três prêmios Oscar de melhor filme estrangeiro: 1946 – “Vítimas da Tormenta” (Sciuscià), 1948 – “Ladrões de Bicicleta” e 1971 – “O Jardim dos Finzi-Contini” (Il Giardino dei Finzi-Contini). 

Considerado um dos pais do neorrealismo italiano, Vittorio De Sica foi um dos pioneiros a se valer de não atores em suas produções além de técnicas nada ortodoxas de preparação de cenas como quando o diretor aperta as faces do protagonista (Bruno Ricci) de “Ladrões de Bicicleta” para que sua expressão de tristeza e angústia fossem mais convincentes. Foi também ele o responsável por trazer ao estrelato, nomes como Sophia Loren e Marcello Mastroianni, que trabalharam em vários de seus filmes. 

5 – Roteirista 

Cesare Zavattini, nascido em Luzzara (Itália) aos 20 de setembro de 1902 e morto em Roma aos 13 de outubro de 1989, foi um dos mais importantes teóricos e roteiristas do cinema italiano, tendo trabalhado com Vittorio De Sica em 26 filmes.

6 - Contexto Histórico 

O lançamento de “Roma, Cidade Aberta”, em 1945, é considerado o marco inicial do neorrealismo italiano. Este movimento cinematográfico, que está diretamente ligado ao contexto político e econômico da Itália do pós-guerra, serviu de contraponto ao estilo de filmes que era produzido no país durante o governo fascista de Mussolini. Por mais de duas décadas, toda a produção cultural do país esteve submissa à estética romântica e positivista imposta pelo regime. Os filmes rodados neste período camuflavam a realidade dura experimentada pela população e buscava reforçar a influência e o domínio fascista. Ao contrário destes, os neorrealistas não estavam interessados em esconder a real situação do país; pelo contrário, o propósito deles era captar a angústia, a miséria e a dor vivenciada pela parcela mais pobre e oprimida da população. 

O neorrealismo começa a ganhar expressão com o fim da ocupação alemã no país. A Itália começava, então, a se ver livre do julgo fascista. No entanto, o país estava completamente devastado, as desigualdades sociais tinham atingido uma proporção inimaginável e o desemprego chegou a níveis altíssimos. Este contexto fatalista e opressivo teria sido propício ao movimento de cineastas que queriam levar as câmeras paras ruas e que propunham uma revolução não só estética, mas também política, no cinema. 

O neorrealismo italiano bebeu da fonte de Jean Renoir, Jacques Prévert e outros nomes do realismo poético francês e influenciou direta ou indiretamente grande parte do que foi produzido na sétima arte a partir de então. É possível perceber ecos deste movimento na Nouvelle Vague francesa, no Cinema Novo brasileiro e até em clássicos hollywoodianos como “Sindicato de Ladrões” (1954) de Elia Kazan. 

As principais características técnicas e estilísticas do neorrealismo são, segundo Mariarosaria Fabris (MASCARELLO, 2006, pp. 205-206), as seguintes: 

1. A utilização frequente dos planos de conjunto e dos planos médios e um enquadramento semelhante ao utilizado nos filmes de atualidades: a câmera não sugere, não disseca, só registra; 

2. A recusa dos efeitos visuais (superimpressão, imagens inclinadas, reflexos, deformações, elipses), caros ao cinema mudo: o neorrealismo; 

3. Uma imagem acinzentada, segundo a tradição do documentário; 

4. Uma montagem sem efeitos particulares, como convém a um cinema não tão acentuadamente polêmico ou revolucionário; 

5. A filmagem em cenários reais; 

6. Uma certa flexibilidade na decupagem, que implica um recurso frequente à improvisação, como decorrência da utilização de cenários reais; 

7. A utilização de atores eventualmente não profissionais, sem esquecer, no entanto, que o neorrealismo se valeu de intérpretes famosos como Lúcia Bosè, Aldo Fabrizi, Vittorio Gassman, Massimo Girotti, Gina Lollobrigida, Sophia Loren, Folco Lulli, Anna Magnani, Silvana Mangano, Giulietta Masina, Amedeo Nazzari, Alberto Sordi, Paolo Stoppa, Raf Vallone e Elena Varzi, só para citar os italianos; 

8. A simplicidade dos diálogos e a valorização dos dialetos, que levou diretores como Visconti e Emmer a usá-los, na ilusão de transmitir ao público uma imagem verdadeira da Itália, sem intermediários, sem tradução; 

9. A filmagem de cenas sem gravação, com sincronização realizada posteriormente, o que tornava possível uma maior liberdade de atuação; 

10. A utilização de orçamentos módicos: o cinema social de alto custo não existe, caso contrário, deixa de ser social. 

O neorrealismo buscava, como tarefa política e estética, mostrar os condicionantes materiais e sociais da pobreza. A inspiração neorrealista é uma inspiração política e ideológica, que visa a transformação da sociedade. Para essa corrente cinematográfica, o cinema deve mostrar a realidade dos oprimidos. E retratar essa realidade é retratar a verdadeira realidade. Os filmes neorrealistas2 questionam, implicitamente, o espectador: O que você vai fazer? 

7 - Análise do Filme Ladrões de Bicicleta 

O filme de Vittorio De Sica, “Ladrões de Bicicleta”, de 1948, nos mostra com vigor neorrealista uma crônica trágica da proletariedade extrema de um trabalhador, colador de cartazes da prefeitura, que tem a sua bicicleta, seu indispensável instrumento de trabalho, roubada. 

Na primeira sequência, homens desempregados3 descem de um ônibus e se dirigem para um edifício de um típico conjunto residencial de proletários (do tipo dos conjuntos residenciais do extinto BNH4 ), localizado no bairro de Valmelaina, nos subúrbios de Roma. Nesse edifício, surge um homem (provavelmente um funcionário público) com ofertas de trabalho. O funcionário chama Ricci, para lhe ofertar uma vaga de colador de cartazes. Ricci não se encontra com o grupo de proletários. Ricci, proletário não qualificado, desempregado há mais de um ano, está sentado distante do grupo de proletários, desolado e um companheiro vai lhe chamar. O funcionário público só tem vagas para operários não qualificados, como se pode verificar do seguinte diálogo: 

Operário – E só porque eu sou um pedreiro preciso morrer de fome? Funcionário Público – O que você quer de mim? Seja paciente. Veremos o que podemos fazer. Tentaremos encontrar alguma coisa.

O funcionário alerta Ricci que é necessário ter uma bicicleta para assumir a vaga de colador de cartazes. Ricci responde que tem uma, mas ela está quebrada5 . O funcionário retruca que sem a bicicleta, a vaga será preenchida por outro operário. Nesse momento, vários operários dizem que possuem bicicletas, para tentar ficar com a vaga de Ricci. 

Os proletários que se aglomeram ao redor do funcionário público estão inseridos em formas extremas de precariedade salarial, uma vez que todos eles vivem uma situação de desemprego de longa duração. A Itália é um país capitalista em crise econômica, com sua economia desestruturada pela derrota na segunda guerra mundial. Não existem empregos suficientes para acomodar toda população economicamente ativa e, por isso, o nível de pobreza é alto. Esta situação histórica de precariedade salarial constitui uma característica comum dos seres humanos submersos na condição de proletariedade. 

“A “condição de proletariedade” designa a condição existencial objetiva historicamente constituída pelo modo de produção do capital e no interior da qual pode (ou não) se constituir o sujeito histórico de classe. A condição de proletariedade é uma categoria social descritiva dos atributos existenciais das individualidades pessoais de “classe” subsumidas ao modo de produção capitalista. Estar imerso na condição existencial de proletariedade não significa necessariamente pertencer à classe social do proletariado. Nesse caso, são apenas proletários, homens e mulheres da “multidão” ou homens e mulheres do “povo” que pertencem à “classe” do proletariado (com aspas).” (ALVES, 2011a, p.72). 

“Na sociedade burguesa, a pessoa está subsumida (ou subordinada organicamente) à classe social (tanto enquanto condição de proletariedade ou “classe”, com aspas; quanto classe do proletariado, ou classe sem aspas, que pressupõe, pelo menos, a consciência de classe em si). Esta é uma dimensão da alienação/estranhamento na sociedade burguesa: a cisão das individualidades humano-sociais em pessoa versus classe.” (ALVES, 2009b, p.3). 

“Os proletários “precários” vivem, com intensidade inaudita, a condição de proletariedade com todos os seus atributos existenciais: subalternidade às leis do mercado (este ente abstrato que subsume homens e mulheres ao “destino” das coisas); acaso e contingência; insegurança e descontrole existencial; incomunicabilidade, deriva pessoal e sofrimento; risco e periculosidade; invisibilidade social; experimentação e manipulação; prosaísmo e desencantamento; e corrosão do caráter.” (ALVES, 2009a, p.2).


No momento em que os operários dizem que possuem bicicletas, para tentar ficar com a vaga de Ricci, explicita-se a não solidariedade de “classe” do proletariado (com aspas). Essa atitude pode ser explicada pelo fato de aqueles operários não ultrapassaram a condição de proletariedade extrema. 

Após receber a proposta de emprego, Ricci caminha pelo conjunto residencial e encontra sua esposa Maria, que está pegando água. A partir desta cena, podemos inferir que o conjunto residencial não possuía água encanada, o que demonstra o nível de pobreza dos moradores6 . Ricci lamenta com Maria que, apesar de ter conseguido uma boa oferta de um emprego municipal, não poderá assumi-lo porque não possui uma bicicleta. Maria, muito mais objetiva e pragmática, diz para Ricci: “Tudo bem. Cuidaremos disso, Antonio”. Maria é duplamente expropriada, duplamente oprimida. É expropriada pelo sistema capitalista e pelo marido. Ao caminhar em direção a sua moradia, ela carrega dois pesados baldes de água. Seu marido demora a ajudá-la e, mesmo assim, quando resolve ajudá-la só carrega um balde. Ao chegar à sua casa, Maria, ao contrário de seu marido que fica apático, apresenta rapidamente a solução para o problema. Conseguirá um empréstimo na loja de penhores7 por intermédio da penhora dos seus lençóis de casamento e, com o dinheiro do empréstimo, resgatará a bicicleta que tinha sido penhorada, na mesma loja de penhores, para comprar alimentos. O casal Ricci consegue um empréstimo de 7.500 liras, dando como garantia os seis lençóis (dois novos e quatro usados) de linho e algodão. Com esse dinheiro, Antonio resgata sua bicicleta pagando 6.100 liras. Pode-se observar que no guichê onde as pessoas penhoram seus objetos pessoais existe uma grande fila, o que demonstra a penúria das pessoas. Já no guichê onde Antonio resgata sua bicicleta, ele está sozinho, o que demonstra que pouquíssimas pessoas têm condição de resgatar seus bens penhorados. 

A estória narrada em “Ladrões de Bicicleta” é ambientada em um país que estava saindo da primeira modernidade e entrando na segunda modernidade do capital – a Itália capitalista, nação derrotada na Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto sócio-histórico, o proletariado está submetido à barbárie histórica . 

A primeira modernidade do capital se caracteriza pela ascensão histórica do capitalismo comercial e capitalismo manufatureiro. Nessa modernidade de constituição do capitalismo moderno, as sociedades europeias ainda estavam imersas em relações sociais tradicionais, marcadas pela dominação de classes aristocráticas e agrárias, ainda não subsumidas à lógica do capital industrial, mas apenas à lógica do capital mercantil. A segunda modernidade do capital é a modernidade da Primeira e Segunda Revolução Industrial, do surgimento da grande indústria, do modo de produção capitalista propriamente dito, da subsunção real do trabalho ao capital, da transição dolorosa e luminosa para a última modernidade do capital, a terceira modernidade. (ALVES, 2011c). 

Antonio Ricci vive sua condição de proletariedade extrema com todos os seus atributos existenciais, sobretudo o acaso e a contingência. Será um acontecimento contingencial (o furto da bicicleta) que irá desencadear todo o sofrimento de Antonio. A tragédia de Antonio não é uma tragédia individual e sim uma tragédia social. Apesar de a bicicleta ter sido furtada por um indivíduo do lumpemproletariado, sua condição de proletariedade extrema é inerente às épocas de crise do capitalismo. A bicicleta representa a passagem de Antonio da condição de proletariedade extrema para uma condição de proletariedade regulada, da condição de miserável que necessita empenhar seus objetos pessoais para sustentar sua família para uma condição de funcionário público municipal capaz de recuperar seus objetos pessoais empenhados e sustentar sua família. Ou seja, a relação de Antonio com o sistema social depende de uma coisa (a bicicleta)9. A bicicleta é a coisa se colocando entre o homem e sua atividade vital (o trabalho), entre o homem e sua dignidade, entre o homem e seu acesso a sociedade de consumo. 

Depois de recuperar a bicicleta na loja de penhores, Antonio e Maria vão até a repartição, onde Antonio deve se apresentar para o emprego. É uma sexta-feira. Antonio recebe seu uniforme e lhe informam que o trabalho começa as 6:45 horas do dia seguinte (sábado). Seu salário será de 6.00010 liras mais uma pensão para a família e a possibilidade de fazer horas extras. Antonio, ao sair da repartição, satisfeito, orgulhoso, conversa com sua mulher, que tinha ficado lhe esperando do lado de fora da repartição. Ao tentar mostrar para Maria a repartição pública, uma janela é bruscamente fechada, interditando para a mulher o acesso àquele local de trabalho. No fascismo italiano, a função da mulher era cuidar do lar, do marido, da prole, além de gerar o maior número de filhos para que compusessem os exércitos de trabalhadores e soldados. Antonio diz, ainda, para Maria, que além do salário ele pode fazer horas extras. 

A nova condição de proletariado de Antonio, trabalhador empregado, não altera estruturalmente a sua situação de precariedade. Sua condição de proletariedade é, ainda, extremamente precária. Seu salário mensal representa o preço de uma bicicleta usada. Antonio sonha com uma vida digna para sua família e não percebe a exploração a que é submetido. Sua jornada de trabalho é pesada. Seu salário é baixo. O salário na sociedade capitalista é apenas um dos símbolos da exploração da força de trabalho do trabalhador, uma vez que o valor pago a este não condiz com o que é produzido, nem com o tempo trabalhado e é aí que reside a grande lógica do sistema capitalista.

“O salariato precário é a afirmação plena da categoria do trabalho capitalista, ou seja, do trabalho estranhado11 (outra denominação para o trabalho abstrato, que funda a produção social do capital).” (ALVES, 2005, p. 123). 

Após a conversa com Maria na porta da repartição pública, Antonio a leva de bicicleta até a Via della Paglia, onde Maria entra em um edifício. Maria esconde de Antonio o motivo de sua visita. Ela foi pagar a uma vidente pelo fato de Antonio ter conseguido um emprego. Maria, apesar de católica12, é supersticiosa, e como a maior parte dos seres humanos oprimidos pela miséria, agarra-se a qualquer tipo de promessa realizada por charlatões. Antonio, ao descobrir o motivo da visita de Maria, não a deixa pagar a vidente e a repreende de forma grosseira. Ao recorrer à magia para enfrentar uma situação social de miséria, Maria age da mesma forma que agia o ser humano, nas tragédias da Antiguidade Grega, em sua luta contra os Deuses. Na tragédia grega, a única forma de combater os Deuses era por intermédio da magia. Na tragédia moderna, real, não se pode combater o verdadeiro responsável pela miséria da Família Ricci – o capital - com magia, e de forma individual, alienando-se da realidade concreta. 

A sequência da vidente poderia induzir o espectador a acreditar que os acontecimentos que acontecerão com Antonio Ricci, a partir de então, seriam decorrentes de sua atitude de impedir Maria de pagar a vidente, em agradecimento por Antonio ter conseguido um emprego. Esta interpretação poderia se reforçar quando, em outra sequência do filme, Antonio, após as infrutíferas tentativas de recuperar sua bicicleta, retorna a casa da vidente para pedir sua ajuda. Entretanto, as sequências da vidente não invalidam a crítica social realizada pelo filme. Ao contrário, mostram a situação de desespero de trabalhadores esmagados pela miséria e pela incapacidade do Estado em garantir seus direitos básicos. 

Na sequência seguinte do filme “Ladrões de Bicicleta”, no sábado de manhã, às 6:30 horas, o filho mais velho de Antonio, Bruno Ricci, com cerca de dez anos de idade, já está de pé limpando a bicicleta. Maria, por sua vez, já preparou o almoço de Antonio, e está costurando o chapéu do seu uniforme. Após essa sequência, o filme se concentrará nos personagens Antonio e seu filho Bruno. A relação entre os dois, do ponto de vista da dramaturgia, é o ponto alto do filme. É interessante notar, já neste ponto do filme, a acentuada alienação de Antonio frente ao mundo e às relações sociais. Antonio não percebe a origem de sua tragédia pessoal. Parece não enxergar a situação terrível de seus familiares. Sua tragédia, segundo ele, é fruto do azar, das contingências da vida. 

Antonio sai de casa com seu filho e o deixa no local de trabalho. Antonio diz para seu filho: “Vejo você a noite, às 19 horas. Espere aqui por mim.” O menino de dez anos trabalha em um posto de gasolina da ESSO, em uma jornada de trabalho de 12 horas, de segunda a sábado. Pode-se dizer que o tema central do filme é a superexploração do proletariado pelo capital. O filme mostra na sua forma crua a condição de proletariedade de todos os personagens (crianças, mulheres, operários empregados, operários desempregados, artistas, lumpemproletariado, funcionários públicos). 

Antonio chega ao local onde iniciará seu trabalho acompanhado de um companheiro que lhe ensina como fazer a colagem dos cartazes. Nesse momento, duas crianças bem novas pedem esmola. Depois disso, o companheiro de Antonio vai embora e ele começa a trabalhar sozinho. No momento que Antonio está concentrado, no alto da escada, colando um cartaz, um jovem homem, do lumpemproletariado, ajudado por cúmplices, rouba sua bicicleta, seu instrumento de trabalho, sem o qual ele perderá o emprego. Ricci corre atrás do ladrão, mas mesmo com a ajuda de um motorista ele não consegue alcançá-lo. 

Vittorio De Sica busca, com seu filme, despertar o espectador para que ele lute, coletivamente, contra um sistema opressivo - o capitalismo - e busca, também, demonstrar a condição de proletariedade da maior parte dos trabalhadores da Itália do pós-guerra. Esses proletários são vítimas da classe capitalista que os expropria. A tragédia moderna desses operários tem um culpado – o sistema do capital. Entretanto, no filme, Vittorio De Sica utiliza um lumpemproletário para desencadear a tragédia individual de Antonio Ricci. 

Antonio vai até a delegacia registrar a ocorrência, na esperança de que os policiais irão procurar e achar o ladrão e recuperar sua bicicleta. Mas, na delegacia, após o registro da queixa, o policial lhe diz que ele deve procurar sua bicicleta, sozinho. Antonio utiliza um transporte coletivo para ir buscar seu filho. Ele chega 30 minutos atrasado. Seu filho lhe pergunta onde está a bicicleta. Ele responde que a bicicleta está quebrada. Antonio leva seu filho para casa, mas não entra. Ele vai procurar ajuda com seus amigos que trabalham na coleta de lixo. Seus amigos estão provavelmente em um sindicato do Partido Comunista, que funciona no subsolo de um edifício. Em 1947, o Partido DemocrataCristão expulsou os comunistas e seus aliados socialistas do governo. Alguns (incluindo o Vaticano) chegaram a propor, em 1948, a decretação da ilegalidade do Partido Comunista. Por isso, as atividades do Partido Comunista estarem sendo realizadas em um subsolo. Um detalhe interessante é que entre os participantes da reunião do Partido Comunista está o funcionário público que arrumou o emprego para Antonio Ricci. Seria um espião ou seria um comunista que ajudou Antonio por serem, ambos, simpatizantes ou militantes do Partido Comunista? 

Em uma sala do sindicato, Antonio encontra sindicalistas que discutem a crise na Itália. O drama individual de Antonio não interessa aos sindicalistas. Em outra sala, os amigos de Antonio estão ensaiando uma peça de teatro. Baiocco, amigo de Antonio e chefe dos lixeiros, promete que no dia seguinte (domingo) lhe ajudará. A promessa de Baiocco, de que eles encontrarão a bicicleta no dia seguinte, é absolutamente irreal. O próprio Baiocco diz a Antonio que sua bicicleta já deve ter sido desmontada e que as peças, provavelmente, serão vendidas no mercado no dia seguinte. Como, em uma cidade como Roma, com milhares de bicicletas, um grupo pequeno de pessoas (Antonio, seu filho, Baiocco, Meniconi e Bogonghi) poderia encontrar as peças de uma bicicleta roubada espalhadas por diversos mercados. 

No domingo bem cedo, Antonio e Bruno encontram Baiocco, Meniconi e Bogonghi e vão até o mercado da Praça Vittorio Emanuele II tentar encontrar a bicicleta roubada. As buscas são infrutíferas, como era de se esperar. Baiocco pede, então, para Meniconi levar Antonio e Bruno até o mercado de Porta Portese. Somente, a contingência ou o acaso poderia fazer com que Antonio encontrasse e recuperasse sua bicicleta. Quando chegam a Porta Portese, Antonio e Bruno descem do caminhão de lixo debaixo de um temporal. Por causa da chuva, os vendedores já estavam desarmando as barracas para irem embora. Eles correm para se abrigarem debaixo de uma marquise. Bruno cai e Antonio nem percebe. 

Na sequência da marquise, alguns seminaristas se juntam às pessoas que buscavam fugir da chuva. Eles falam alemão. Sua presença lembra duas coisas: que Roma é a cidade do Papa, com a política ambígua do Vaticano durante a Segunda Guerra Mundial, e a ocupação nazista de 1943-1944. 

Em toda a narrativa, Antonio, metáfora de todo ser humano na condição de proletariedade, esmagado pelo desespero de não ter emprego para sustentar sua família, não perceberá a situação de risco em que coloca seu filho Bruno. Bruno, um menino de dez anos, nutre uma grande admiração pelo seu pai. Bruno parece, com seu olhar triste, esperar sempre um gesto de carinho do pai. Bruno corre perigo em diversas ocasiões, sem que seu pai perceba: é abordado por um estranho na Praça Vittorio Emanuele II; cai na porta Portese, ao correr da chuva; fica sozinho por um momento ao perseguir o velho, amigo do ladrão; fica sozinho na ponte, perto de um rio perigoso; fica sozinho, em uma favela de Roma, quando Antonio invade o prostíbulo; quase é atropelado por um carro nas proximidades do Estádio Municipal de Roma. Somente quando Antonio escuta um grito de socorro vindo do rio é que ele se desespera pensando que era Bruno se afogando. Nesse momento ele percebe que apesar de sua situação de infortúnio, são os laços de amor que o une a sua família que são importantes. 

Na Porta Portese, Antonio, novamente fruto do acaso, vislumbra o ladrão conversando com um velho. Antonio e Bruno correm atrás do ladrão que consegue escapar de bicicleta. Os dois voltam para a praça e tentam encontrar o velho para saber o endereço do ladrão. O velho não diz nada e entra em uma Igreja, onde damas e homens da sociedade católica fornecem comida e fazem a barba e o cabelo dos desabrigados e desvalidos13 . Antonio e Bruno entram na Igreja atrás do velho, conseguem o endereço do ladrão (Via della Campanella, nº 15), mas perdem de novo o paradeiro do velho. Ao sair da Igreja, Antonio se desentende com Bruno e o esbofeteia e lhe diz para esperar na ponte enquanto ele procura o velho. 

Bruno que desde o começo do filme demonstra uma admiração pelo seu pai, seu herói, começa a perceber que ele é fraco (ele deixa escapar o velho; tem pouca iniciativa; é submisso). Bruno contesta a forma como o pai procura pela bicicleta, e, por isso, ele lhe esbofeteia. Bruno fica triste com a injustiça. Na última sequência do filme, Bruno descobre seu pai verdadeiro. Não o herói do início do filme, mas o ser humano real, com suas fraquezas, e que ama, acima de tudo, sua família. Um ser humano disposto a fazer qualquer sacrifício para cuidar de sua família. O choro de Bruno no final do filme é o choro de uma criança, obrigada pela condição de proletariedade a amadurecer antes da hora, e que percebe, a sua maneira, as qualidades e as fraquezas de seu pai. Bruno, ao ver seu pai chorar, pega na sua mão, mostrando todo o amor e confiança naquele ser humano capaz até de roubar para sustentar sua família. 

Na sequência do afogamento, ao escutar um grito de socorro vindo do rio, Antonio se desespera, ao pensar que Bruno tivesse se afogado. Antonio corre e percebe que não era seu filho que tinha se afogado. Ele o encontra sentado no alto de uma escadaria. Neste momento do filme, Antonio se reconcilia com seu filho e o leva para comer uma pizza. Entretanto, Antonio, ao invés de entrar numa pizzaria, entra em um restaurante. Antonio ainda tinha um resto de dinheiro que tinha sobrado do empenho dos lençóis. No restaurante, em uma outra mesa, está uma família aparentemente abastada que esbanja dinheiro com comidas e bebidas que Antonio jamais poderia comprar. Antonio diz para Bruno: “para comer como eles, você tem que ganhar pelo menos um milhão por mês”. A Segunda Guerra Mundial não aboliu as classes sociais. Pelo contrário, a sociedade continuou desigual, como não podia deixar de ser em uma sociedade capitalista. O mundo dos seres humanos em condição de proletariedade não se mistura ao mundo dos detentores do capital. A cena do restaurante é paradigmática a esse respeito. O olhar de desprezo do menino burguês é esclarecedor.



Ainda no restaurante, Antonio, subitamente, fica triste e começa a calcular quanto ele poderia ganhar por mês se recuperasse sua bicicleta. Somente com a recuperação da bicicleta ele e sua família poderiam voltar a viver. 

Ao sair do restaurante, Antonio vai até a casa da mesma vidente que sua mulher tinha estado no sábado. Em seu desespero, Antonio, que antes repreendera sua mulher por ter procurado a vidente, procura a vidente na busca de uma ajuda mágica, ou seja, Antonio submerge na alienação religiosa.

Ao sair da casa da vidente, em outro golpe do acaso, Antonio Ricci cruza, em uma rua vazia, com o ladrão de sua bicicleta. O ladrão tenta escapar e entra em um prostíbulo. Antonio o persegue e invade o prostíbulo, que estava fechado. É a primeira atitude ativa de Antonio em todo o filme. Antonio é um ser passivo, indeciso, desesperado por não poder prover sua família. Ele consegue encontrar o ladrão no prostíbulo e o leva para rua. Mesmo nesse momento em que Antonio Ricci toma a iniciativa, é uma iniciativa perigosa. O ladrão está no seu meio ambiente, em uma favela do centro de Roma (Via di Panico), onde todos lhe são solidários. Bruno percebe o perigo da situação e corre para chamar um policial. O ladrão, que se chama Alfredo, tem ou simula um ataque epiléptico. Os amigos de Alfredo começam a ameaçar Antonio, que pega um porrete para se defender. Nesse momento chega Bruno com o policial. O policial, Antonio e Bruno vão até a casa do ladrão. O ladrão mora com sua mãe e uma irmã em um quarto miserável. Estão todos imersos na condição do lumpemproletariado. Evidentemente, a bicicleta não é encontrada. O policial desaconselha Antonio a prestar queixa. Ele lhe diz que não há testemunhas e que todos os amigos de Alfredo testemunharão a seu favor. Antonio desiste da acusação e vai embora com seu filho Bruno. Eles andam até a praça, onde está localizado o Estádio Municipal de Roma. Antonio segue na frente de Bruno e não percebe que ele quase, por duas vezes, é atropelado. Bruno está cansado e senta no meio-fio. Na praça, dezenas de bicicletas dos torcedores de futebol lembram Antonio da sua tragédia individual. Nesse momento, Antonio Ricci começa a pensar em roubar uma bicicleta. Os torcedores saem do Estádio e vão embora com suas bicicletas. Antonio decide roubar uma bicicleta que está encostada na portaria de um edifício. Ele dá dinheiro para seu filho pegar um bonde e esperar em Monte Sacro. Antonio não quer que seu filho testemunhe sua transgressão. Ao tentar roubar a bicicleta, Antonio é alcançado e seu filho que não tinha conseguido pegar o bonde testemunha o ocorrido. Bruno corre para tentar proteger seu pai. Antonio é esbofeteado, Bruno pega o chapéu de Antonio, que tinha caído na fuga, e chora. O dono da bicicleta fica penalizado ao ver Bruno e desiste de prestar queixa. 

A cena final do filme resgata o amor entre pai e filho. Apesar de ter sido humilhado, jogado de volta na condição de proletariedade extrema, Antonio não perdeu o amor de seu filho, que precocemente amadurecido o conforta pegando na sua mão. 

O filme é uma denuncia das condições de vida da proletariedade moderna: proletariedade regulada, proletariedade extrema e lumpemproletariedade. 

Os principais atributos histórico-existenciais da proletariedade moderna são: subalternidade, acaso e contingência, insegurança e descontrole existencial, incomunicabilidade, deriva pessoal e sofrimento, risco e periculosidade, invisibilidade social, experimentação e manipulação, prosaísmo e desencantamento e corrosão do caráter. Tais atributos existenciais da “condição de proletariedade” permeiam as múltiplas relações sociais, direta ou indiretamente ligadas à produção/reprodução social do sistema do capital. (ALVES, 2008b, p.16).

A situação de proletariedade extrema é a proletariedade imersa na aguda insegurança salarial e de vida e que se manifesta nos casos de desemprego de longa duração e de inserção salarial precária. Ela ocorre em situações catastróficas e de crise geral da economia capitalista. Ela atinge amplos contingentes marginas do proletariado não-organizado e não-coberto pela proteção social que, no limite, estão à beira da lumpemproletariedade. A proletariedade extrema abrange contingentes amplos de homens e mulheres imersos na pobreza absoluta. A situação de proletariedade regulada é a proletariedade organizada, coberta pela legislação trabalhista e pela proteção social e que tem acesso ao mercado de trabalho e de consumo de mercadorias. A situação de proletariedade regulada tende a amainar a condição da proletariedade tais como a concorrência, contingência e estranhamento, através de mecanismos estatais e de controle social. O lumpemproletariado é a proletariedade excluída da perspectiva de inserção salarial e de acesso ao mercado de consumo. É o estrato derradeiro da proletariedade extrema. Ele se situa abaixo da “classe” do proletariado do ponto de vista das condições de trabalho e de vida, sendo constituído pelos elementos desclassificados, degradados e não-organizados do proletariado urbano, assim como pelo contingente de proletários que para sua subsistência desenvolvem atividades à margem da legalidade social. Eles são considerados os marginais propriamente ditos, excluídos da perspectiva de inserção salarial. É o espectro social que ameaça, como uma sombra, os proletários inseridos no mercado de trabalho. (ALVES, 2007, pp. 47-50). 

Antonio Ricci, no início do filme está na condição de proletariedade extrema, passa para a condição de proletariedade regulada, retorna para a condição de proletariedade extrema e ao final do filme quando tenta roubar uma bicicleta, quase cai na lumpemproletariedade. Os atributos histórico-existenciais da proletariedade moderna estão presentes o tempo na narrativa fílmica. O acaso e a contingência retiram Antonio Ricci de sua condição de proletariedade extrema e o colocam na condição de proletariedade regulada. O roubo de sua bicicleta o lança de novo na condição de proletariedade extrema. Ao final do filme, após ter tentado roubar uma bicicleta, Antonio Ricci escapa de cair no lumpemproletariado. O dono da bicicleta que Antonio tentou roubar, talvez por causa do olhar de Bruno Ricci, não presta queixa do ocorrido e Antonio sai da confusão livre, mas, profundamente envergonhado. A insegurança nas diversas esferas da vida é uma constante na condição de proletariedade. O proletário, já alienado relativamente (perde o controle sobre) aos meios de produção, à sua produção, à natureza, ao seu próprio trabalho, a outro homem e a toda a sociedade, se vê alienado de bens pessoais, de sua própria memória. Essa expropriação de bens pessoais e da memória aparece no filme quando Maria empenha os seis lençóis do seu casamento e um velhinho empenha seu binóculo. 

A expropriação da bicicleta de Antonio Ricci, roubada por um indivíduo do lumpemproletariado, pode ser vista como uma metáfora da alienação do trabalhador dos meios de produção. Para Marx, a raiz última de todas as formas de alienação, religiosas e não religiosas, é a propriedade privada dos meios de produção. É por intermédio da alienação do trabalhador dos meios de produção, que ele, para obter seus meios de subsistência, passa a vender a única mercadoria que lhe resta: sua força de trabalho. Ao ter sua bicicleta roubada, Antonio perderá o emprego e voltará para a condição de proletariedade extrema. A bicicleta pode ser entendida como um meio de produção do qual Antonio foi expropriado. Essa expropriação atira Antonio em uma espiral de sofrimento e deriva pessoal que o empurrará para as portas do lumpemproletariado.

8 – Conclusão 

O filme “Ladrões de Bicicleta” é considerado, por muitos críticos de cinema, como a melhor e mais importante obra do neorrealismo italiano. Este filme, realizado com orçamento reduzido e muitas dificuldades, tornou-se uma das obras mais importantes da história da sétima arte e ajudou a dar inicio a uma verdadeira revolução formal e estética. 

Segundo Bazin, “Ladrões de bicicleta é um dos primeiros exemplos de cinema puro. Nada de atores, de história, de mise-em-scène, vale dizer, enfim, na ilusão estética perfeita da realidade: nada de cinema.” (1991, p. 277). 

Vittorio De Sica (diretor) e Cesare Zavattini (roteirista) se debruçaram, no filme “Ladrões de Bicicleta”, sobre um problema vital da sociedade moderna: a necessidade para a maior parte dos seres humanos de lutar desesperadamente para viver dignamente em um mundo dominado pelo modo de produção capitalista onde domina a alienação, o estranhamento, o egoísmo e a precariedade. O filme nos coloca diante desse problema e nos convida a reagir. 

O filme “Ladrões de Bicicleta” é um filme que expõe a indiferença do mundo para com o drama do homem proletário ou do homem comum. (ALVES, 2006a, p.8). 

Apesar de o roteiro do filme mostrar a tragédia, em três dias, de Antonio Ricci, ele apresenta, em linhas gerais, um retrato da sociedade italiana, na segunda metade dos anos 40: 

a) uma sociedade desigual – a guerra deixou intacta a divisão em classes da sociedade italiana; 

b) uma sociedade pobre – Vittorio De Sica mostra a vida miserável dos italianos em condição de proletariado. O desemprego de longa duração gangrena a sociedade, deixando os homens, chefes de família, desnorteados, desesperados e sem esperança. As pessoas são obrigadas a se desfazerem de seus objetos pessoais para sobreviver ou recorrer à caridade; 

c) uma sociedade religiosa – a religião está presente, o tempo todo, no filme, por intermédio dos seminaristas, da missa, do padre no confessionário, da caridade da Igreja, de objetos religiosos; 

d) uma sociedade supersticiosa – a superstição é mostrada por intermédio da vidente (La Santona) e da ferradura atrás da porta na casa de Antonio;

e) uma sociedade do entretenimento: cinema, futebol e corridas de bicicleta; 

f) uma sociedade com grande influência da cultura norte-americana: Antonio colava um cartaz do filme norte-americano “Gilda”, estrelado por Rita Hayworth, perto de um cartaz de outro filme norte-americano “O Último Horizonte”, de William A. Wellman.



Um dos pontos altos do filme é a atuação de dois não atores, Enzo Staiola (Bruno Ricci), Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci). Os olhares de Bruno em direção ao seu pai são carregados de emoção. Apesar de Antonio não ser o modelo de herói do cinema hollywoodiano, nem ter energia para enfrentar as dificuldades do cotidiano, Bruno o admira e o ama. O filho mais velho dos Ricci já é, precocemente, uma criança madura. Ele trabalha em um posto de gasolina, 12 horas por dia, seis dias por semana. Antes de Antonio ir para seu primeiro dia de trabalho, é Bruno que limpa a bicicleta. Ele reclama por seu pai não ter exigido da Loja de Penhores uma indenização por um estrago encontrado na bicicleta. Ao sair de casa, no sábado, é ele que fecha a janela do quarto da sua casa para sua irmã menor voltar a dormir. Ele encoraja seu pai na busca pela bicicleta roubada. A relação entre Bruno e seu pai evolui com o filme. No início, Bruno o considera um herói. Ao longo do filme, Bruno, sem deixar de amar seu pai, percebe sua fraqueza e sua falta de iniciativa. Ele o repreende, ao saírem da Igreja, por ter deixado escapar o velho, amigo do ladrão da bicicleta. Antonio o esbofeteia, injustamente. Nas últimas sequências do filme, Bruno percebe seu pai real. Não, o herói hollywoodiano, mas aquele herói cotidiano, capaz de atos, absolutamente contrários a sua natureza, como de roubar, para sustentar sua família. As lágrimas de Bruno são as lágrimas de uma criança que compreende, precocemente, a dura realidade da vida, a grandeza e a fraqueza de seu pai, ou seja, sua humanidade. Mas, apesar dessa descoberta, Bruno demonstra todo seu carinho, confiança e amor por seu pai, ao pegar sua mão na cena final do filme. 

O filme “Ladrões de Bicicleta” é pleno de metáforas. Antonio Ricci é a metáfora de todo ser humano na condição de proletariedade extrema, submetido à barbárie histórica. Alfredo é a metáfora do lumpemproletariado. Bruno é a metáfora da criança explorada pelo sistema capitalista, sobretudo na primeira modernidade do capital. Maria Ricci é a metáfora da mulher duplamente explorada: pela barbárie capitalista e pela exploração de gênero. A Vidente é a metáfora da alienação religiosa. A bicicleta pode representar diversas metáforas: sua expropriação, roubada por um indivíduo do lumpemproletariado, pode ser vista como uma metáfora da alienação do trabalhador dos meios de produção; é a metáfora do emprego formal e estável de Antonio Ricci, ameaçado pelo destino geral da condição de proletariedade extrema; é a metáfora da dicotomia entre transporte coletivo e transporte individual ou entre transporte público e transporte privado; 

O filme expõe não apenas a situação dos italianos em condição proletariedade (extrema, regulada, lumproletariedade), mas dimensões da vida cotidiana do personagem central, Antonio Ricci, sendo consumida por alienações de todos os tipos (religiosas e não religiosas), que repercute nas suas relações familiares. Na estrutura social da barbárie capitalista, o trágico não é contingencial, ele é estrutural. E por ser estrutural, o trágico emerge, sempre, nas vidas individuais. 

Ícone do neorrealismo, o filme “Ladrões de Bicicleta” tem como tarefa política e estética mostrar os condicionantes materiais e sociais da pobreza. 

Vittorio De Sica e Cesare Zavattini retiram o caráter moral do roubo da bicicleta. O roubo da bicicleta é uma questão contingencial, não moral. A questão contingencial apenas explicita a tragédia (estrutural) na vida dos seres humanos na condição de proletariedade. Essa condição desumaniza e desefetiva o homem enquanto ser genérico. 

Finalmente, é importante destacar a potencialidade heurística do filme “Ladrões de Bicicleta” para a discussão da diferença entre os conceitos classe social do proletariado e condição de proletariedade. O filme mostra a incapacidade de seres humanos imersos na condição de proletariedade de ações sociais e políticas emancipadoras. Antonio tenta resolver sua tragédia, consequência de sua condição de proletariedade, de forma individual. Ao tentar roubar uma bicicleta, Antonio age sozinho. Mesmo Alfredo, que rouba a bicicleta de Antonio com ajuda de comparsas não tem consciência de classe. Antonio e Alfredo não percebem os verdadeiros culpados de sua condição de proletariedade. São apenas individualidades pessoais de “classe” subsumidas ao modo de produção capitalista. Como bem colocaram Alves e Selegrin, 

“enquanto “classe” diz respeito ao sujeito histórico capaz de ação social e política, em si e para si (e para além de si), capaz de “negação da negação” da alienação em suas múltiplas determinações; a “condição de proletariedade” designa a condição existencial objetiva historicamente constituída pelo modo de produção do capital e no interior da qual pode (ou não) se constituir o sujeito histórico de classe.” (2011a, pp. 72-73). 

Esses mesmos autores complementam, ainda, que: 

“podem-se distinguir gradações ontológicas (ou modos de efetivação) do proletariado, ao dizermos “classe” do proletariado dizemos individualidades pessoais de classe imersas na “condição de proletariedade”. O proletariado como classe social propriamente dita pressupõe o movimento de classe em si/classe para si (ou para além-de-si) e, por conseguinte, o movimento da consciência de classe. De outra maneira, a consciência de classe é uma forma de consciência crítica, que assume uma forma contingente e forma necessária.” (2011a, p.88).

Ladrões de Bicicleta 1948 Legendado 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Roma, a cidade aberta


Roma, a cidade aberta



Por: Francisco Merino



Por vezes, o espaço, o tempo e a História parecem conspirar para que uma determinada corrente artística ou ideológica saia da obscuridade e brilhe com todo o seu fulgor. O espaço é a Itália, um dos grandes vértices criativos da Europa, o tempo é a segunda metade dos anos 40, e a História é a da II Grande Guerra, que transformara o continente hegemónico do mundo numa pilha disforme de escombros. A corrente cinematográfica a sair deste cenário negro seria o Neo-Realismo e teria nas décadas seguintes um enorme impacto cultural e político. Não seria apenas a Europa a erigir o Neo-Realismo à categoria dos principais modelos cinematográficos, mas também o terceiro mundo, que encontrou no tom e no estilo deste género uma forma privilegiada de exprimir os conflitos sociais e políticos que o dilaceravam. Mas se a generalidade dos países europeus também tinha vivido intensamente o conflito e padecia precisamente dos mesmos problemas, porque surgiu o Neo-Realismo em Itália? Ao contrário do que acontecera na Alemanha, Mussolini não se suicidara num bunker. O ditador fascista morrera às mãos dos seus próprios compatriotas, os partigiani, pendurado num gancho de carne e abandonado por quase todos. A oposição interna, quase inexistente na Alemanha, foi sempre uma das principais preocupações de Mussolini – aliás, os próprios Aliados foram saudados enquanto libertadores, embora a Itália fosse inegavelmente um dos grandes perdedores da guerra. Eram estas condicionantes que davam à partida uma inegável estatura moral aos jovens cineastas italianos, que a Alemanha só poderia reclamar já nos anos 60. A Itália, apesar de ter sido atravessada por uma frente de guerra, estava bem menos destruída que a Alemanha, onde poucos edifícios restavam intocáveis,e não tinha visto toda a sua população transformada numa massa gigantesca de refugiados em trânsito. Assim sendo, e embora a orgulhosa cinematografia italiana tivesse assistido impávida à destruição dos seus imponentes estúdios, a verdade é que muito do equipamento e dos celebrados técnicos italianos estavam ainda disponíveis, tal como o seu vasto manancial de actores. Os neo-realistas dariam emprego a estes actores e fariam actores dos muitos desempregados que deambulavam pelas cidades. Pouco ou nada lhes interessavam os grandes estúdios – aliás, dificilmente encontrariam melhor cenário do que o que tinham à sua frente. A realidade tinha-se tornado infinitamente mais interessante que as gigantescas epopeias históricas que ciclicamente enxameavam o cinema italiano, e era ela que impelia os cineastas. Quando não havia projectores utilizava-se a luz natural e o que mais houvesse à mão. Se não era possível fechar as ruas, utilizavam-se os transeuntes como figurantes. Só havia uma regra: não parar de filmar! 

Se tivermos que escolher o filme fundador do Neo-Realismo italiano, o que é sempre algo falacioso e discutível, a escolha tende a cair em Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini. O jovem realizador, que vinha de uma família com grandes ligações ao mundo do cinema, tinha dado os primeiros passos na realização em filmes apoiados pelo governo fascista, mas, mal caiu o regime, tornou-se no maior apóstolo do género que então começava a despontar, o cinema do real. Foi um dos principais pioneiros do estilo e estética do Neo- Realismo, defendendo o recurso a actores não profissionais e recusando sempre artificialismos ou qualquer excesso de composição, investindo antes no realismo e na crueza das suas imagens. Rossellini começou a trabalhar em Roma, Cidade Aberta imediatamente após o exército americano ter empurrado os nazis para o norte de Itália, ainda a guerra não tinha sequer um fim á vista. 

O filme tem todos os ingredientes que fariam a escola no NeoRealismo: a relação umbilical com a realidade e a vida social; a preocupação extrema com o realismo, que vai ao ponto de se rejeitarem as noções clássicas de enquadramento (especialmente quando a “estética” ameaça prevalecer sobre o real); uma mensagem política inequívoca e amplamente relacionada com a miséria humana (o que teria um amplo impacto no terceiro mundo); uma Itália profundamente devastada e miserável, com seus edifícios em cacos e as suas gentes em filas de racionamento, como cenário de eleição. A grande preocupação de Rossellini parece ser ilibar o Povo italiano dos crimes de Mussolini, o que aliás seriaum tema recorrente nos primeiros anos da sua carreira. O cenário é o duro quotidiano romano, emoldurado pela fome e pela repressão, ao ponto de Roma parecer mais a Paris ocupada que a capital dos principais aliados europeus da Alemanha. Os protagonistas são os partigiani da resistência, tanto os combatentes como aqueles os que os apoiam e protegem. No meio de todos eles há uma figura que se destaca, Pina, magistralmente desempenhada por Anna Magnani, uma das poucas actrizes profissionais do elenco, e que se tornaria na encarnação por excelência da mulher romana. O poder de uma figura em carne e osso, sem o recurso a artificialismos ou maneirismos interpretativos, fez com que muitos se identificassem com ela, em particular as mulheres italianas que viam pela primeira vez as suas vidas e atribulações retratadas em celulóide. Anna Magnani tornou-se, aliás, num dos mais queridos símbolos de Roma e numa evidência incontornável do peso e importância que o cinema pode atingir. Nos anos seguintes o Neo-Realismo espalhar-se-ia pelo mundo, transformando realizadores como Rossellini ou De Sicca em autênticas estrelas, e fazendo escola em países tão distantes como a Índia e o Brasil. O estilo “guerrilheiro” dos Neo-Realistas, bem como a sua habilidade para trabalharem com meios técnicos extremamente reduzidos, é ainda hoje uma referência incontornável para todos os cineastas com muito para dizer e muito pouco com que o fazer.

Roma, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta) - 1945. Dirigido por Roberto Rossellini. Escrito por Sergio Amidei, Alberto Consiglio, Federico Fellini e Roberto Rossellini. Direção de Fotografia de Ubaldo Arata. Música Original de Renzo Rossellini. Produzido por Giuseppe Amato, Ferruccio De Martino, Rod E. Geiger e Roberto Rossellini. Excelsa Film / Itália.



O lançamento de Roma, Cidade Aberta em 1945 é considerado o marco inicial do neorrealismo italiano. Este movimento cinematográfico, que está diretamente ligado ao contexto político e econômico da Itália do pós-guerra, serviu de contraponto ao estilo de filmes que era produzido no país durante o governo fascista de Mussolini. Por mais de duas décadas toda a produção cultural do país esteve submissa à estética romântica e positivista imposta pelo regime, os filmes rodados neste período camuflava a realidade dura experimentada pela população e buscava reforçar a influência e o domínio fascista. Ao contrário destes, os neorrealistas não estavam interessados em esconder a real situação do país, pelo contrário, o propósito deles era captar a angústia, a miséria e a dor vivenciada pela parcela mais pobre e oprimida da população.

O neorrealismo começa a ganhar expressão com o fim da ocupação alemã no país. A Itália começava então a se ver livre do julgo fascista, no entanto estava completamente devastada, as desigualdades sociais tinham ganhado uma proporção inimaginável e o desemprego batia recordes, este contexto fatalista e opressivo teria sido propício ao levante de cineastas que queriam levar as câmeras paras ruas, que propunham uma revolução não só estética, mas também política, no cinema. O neorrealismo italiano bebeu da fonte de Jean Renoir, Jacques Prévert e outros nomes do realismo poético francês e influenciou direta ou indiretamente grande parte do que foi produzido na sétima arte a partir de então, é possível perceber ecos deste movimento na Nouvelle Vague francesa, no Cinema Novo brasileiro e até em clássicos hollywoodianos como Sindicato de Ladrões (1954) de Elia Kazan.


Roma, Cidade Aberta traz consigo características marcantes que estariam presentes em outras películas clássicos do movimento, como o excelente Ladrões de Bicicleta (1948) de Vittorio De Sica, lá estão as longas tomadas externas, que ilustram a situação do país, a desigualdade social, a opressão, o povo castigado, o fatalismo e a mescla de cenas reais à imagens fictícias. No entanto, ao menos ao meu modo de ver, o filme não é de todo realista, mesmo quando parece tentar ser verossimilhante o roteiro acaba caindo no melodrama, isso não diminui em nada a qualidade da obra, mas ajuda a quebrar um pouco da aura que o filme traz consigo. Alguns diálogos, principalmente um protagonizado por oficiais nazistas, me pareceram forçados demais e algumas situações chegam a ser simplórias, tamanha a improbabilidade de acontecerem.


Roma, Cidade Aberta foi rodado clandestinamente e com um orçamento bem reduzido, no entanto seu impacto naqueles que o assistiram foi devastador, penso que o que provocou tal impacto, não foi tão somente sua trama, que ao meu ver não é nem de longe seu melhor aspecto, credito tal efeito à situação na qual ele fora produzido, que é a mesma que ele almejava reproduzir. Ele é realista não por ser uma recriação perfeita de sua época, mas por ser, dentre os seus contemporâneos e antecessores, um dos poucos cuja história conferia ao espectador ao menos uma noção superficial de estar se vendo na tela. Seu maior triunfo é o fato de que ele é um filme sobre a guerra e suas consequências sem ser um filme de época, ele foi filmado, não em estúdios, mas em locações reais, com pessoas reais que vivenciaram a realidade que bem ou mal ele retrata.


"A vida é uma coisa feia, suja. Eu conheço a miséria e ela me dá medo..."

No centro da trama está Giorgio Manfredi (Marcello Pagliero), conhecido como “o engenheiro”, ele é um militante comunista que lidera ações de resistência à ocupação Alemã. Após ser descoberto pela Gestapo, ele se refugia na casa do camarada Francesco (Francesco Grandjacquet), neste meio tempo ele planeja uma forma de entregar uma grande quantia em dinheiro para outros militantes, para o financiamento de ações do comitê e para a subsistência. Francesco, o anfitrião, está de casamento marcado com a viúva Pina (Anna Magnani, memorável), que espera um filho seu, ela é corajosa e ousada e está tão envolvida com a militância quanto o noivo, seu filho Piccolo Marcello (Vito Annichiarico) personifica o lado lúdico e utópico da resistência, ele, que é apenas uma criança, já tem plantada em seu coração a semente da luta pela liberdade, tal semente representa um fio de esperança de que um futuro melhor seja possível. Don Pietro Pellegrini (Aldo Fabrizi, em uma excelente atuação), um padre simpatizante do comunismo, é quem deverá entregar o dinheiro trazido por Manfredi, pois dentre os rebeldes ele é o que menos levantaria suspeita.


Na primeira parte do filme fica evidente o contraste entre a situação instável do país e a euforia das pessoas que cercam os personagens principais, eles não estão felizes, mas demonstram uma força sobre-humana diante das circunstâncias desfavoráveis, no entanto uma tragédia muda tudo e anuncia o clima angustiante da segunda parte. O título do filme seria uma espécie de ironia à situação caótica da cidade, em tempos de guerra, o termo "aberta" era usado para qualificar regiões que não estavam tomadas pelo exército, aquelas que não tinham se transformado em campos de batalha, o que conforme mostrado no filme não era a situação de Roma. Além da degradação econômica e política, Roberto Rossellini enfatiza ainda o risco da degradação moral, durante toda a segunda parte, os personagens centrais são imersos em ponderações éticas sobre a própria conduta, a escolha feita por eles é tida como uma espécie de afirmação da coragem e perseverança daqueles que lutaram para se libertar do domínio alemão.



É inegável que Roberto Rossellini tenha sido um dos nomes seminais não só do neorrealismo italiano, mas de todo o cinema moderno, a revolução política, proposta pelo movimento do qual ele fez parte, pode ter sido relegada ao ostracismo, mas a estética permanece viva até hoje e tem servido de influência e referência para alguns dos melhores realizadores da atualidade. Hoje questiona-se a postura política do cineasta que passou de entusiasta de Mussolini a militante comunista em um relativamente curto espaço de tempo, no entanto o que não se pode negar é que ele foi no mínimo ousado por retratar a Itália daquele período sob esta ótica totalmente subversiva, se ele conseguiu alcançar de fato uma redenção, esta se deve em grande parte a este filme. Confesso que Roma, Cidade Aberta ficou um pouquinho aquém de minhas expectativas, mas ele é um clássico obrigatório para qualquer um que se proponha a compreender de forma mais ampla o cinema com expressão de arte. Recomendado!


Roma, Cidade Aberta foi o vencedor do Grande Prêmio do Juri no Festival de Cannes em 1946 e ainda recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro.


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A breve longa história de um movimento de resistência e libertação do cinema hegemônico




A Lição Neo-realista
A breve longa história de um movimento de resistência e libertação do cinema hegemônico


Por: Isabel Regina AUGUSTO


Resumo:

O neo-realismo cinematográfico italiano, em particular no seu caráter humanista e respectivomodelo de produção, foi apontado por cineastas e críticos na sua recepção no Brasil a partirdos tardos anos 1940 como o ideal para uma cinematografia periférica, ou “subdesenvolvida”(Paulo Emilio Sales Gomes: 1973). De fato, este foi o modelo que estimulou o surgimento docinema “pré-neo-realista brasileiro” (Mariarosaria Fabris: 1994) ou “proto-Cinema Novo”(Ismail Xavier: 2001), ou seja, o cinema brasileiro moderno, da segunda metade dos anos1950; assim como o nascimento do próprio Cinema Novo nos 60. Este artigo visa uma breveanálise do percurso e implicações deste Movimento cinematográfico italiano, feito demanifestações, embates políticos e leis, que se refletem na produção dos filmes e que, por suavez, servem a esclarecer aspectos importantes do paradoxo que constitui a sua breve vida emterritório italiano e, ao mesmo tempo, a sua profícua germinação no florescimento dos NovosCinemas dos anos 60 pelo mundo. Que fez do mesmo um modelo de cinema do“subdesenvolvimento” (Miccichè, 1974). O que revela a permanente atualidade da sua lição,principalmente como modelo de produção (assim como em suas valências ideológico-estéticas), para realidades de “pós-guerra permanente” como a brasileira (Nelson Pereira dosSantos, entrevista inédita, BsB, 2006).

O breve percurso de uma escola de resistência, transgressão e libertação

“O cinema italiano deve ser destruído”

A criação do Centro Sperimentale di Cinematografia em 1936, a inauguração dosestabelecimentos de Cinecittà em 1937, a reconstrução de uma sociedade de distribuiçãocomo a Enic, a existência de um circuito de salas, dão início a um plano orgânico dereestruturação e potencialização do setor mirando constituir um cinema de Estado na Itália, aexemplo da Alemanha, que culmina com um progressivo fechamento aos produtos norte-americanos a partir de 19383. Ao lado das limitações de mercado, às importações e a umaacentuada intervenção do Estado, começam a se levantar vozes, especialmente na revistaCinema de Vittorio Mussolini (da “primeira série”)4, a favor de um mais elevado grau deconcentração de estruturas produtivas, até então pulverizadas5.De 1938 a 1943, o regime fascista tenta constituir um cinema nacional: os modelos dereferência são Hollywood no que diz respeito à organização, equipamentos, os métodos detrabalho e a cinematografia soviética pelo seu caráter integrado de cinema de estado. Atentativa fascista ocorre no interior de um plano geral visando alcançar a autarquia em todosos setores produtivos e tem como eixo a limitação das importações de filmes americanos e areestruturação e potencialização da industria cinematográfica nacional

Portanto, o neo-realismo se origina na Itália no interior de uma estrutura de produção ede um plano cultural, anterior, com características bem definidas que tiveram a suaestruturação já durante os últimos anos do regime fascista, que cai com a Guerra.

Terminada a Guerra, entretanto, o cinema italiano continuou no front de batalha. Demodo semelhante aos embates nas trincheiras daquela que foi singular e complexa para aItália em particular, fascista, mas também “partigiana”, um país dividido com uma guerracivil dentro da Grande Guerra. Primeiro o regime fascista do lado do eixo e, ao final, naresistência com os aliados na Libertação. Pelo direito à vida o cinema italiano lutavacontemporaneamente contra dois inimigos: o fascismo vencido o qual renegava, mas tambémcontra a indústria hollyoodiana bem representada pelo Film Board e P.W.B nas forças aliadasvencedoras. O Neo-realismo surge justamente destes confrontos, caracterizando-se por uma“arte de resistência”.

Deve-se compreender a intrincada dialética entre as forças em jogo na Itália da épocapara entender o que foi o neo-realismo em suas contradições: um movimento político eartístico, que se confunde com aquele próprio momento e a luta contra o fascismo e que “nãoteve nem mesmo tempo de fundar-se como escola estética”, como define Lino Miccichè, queo destaca mais pelo seu valor moral.

Para Lino Miccichè o neo-realismo cinematográfico italiano não foi somente “arealidade brevemente feliz do cinema italiano pós-bélico, combatida e destruída pelarestauração moderada do centrismo. Em suas palavras, o neo-realismo cinematográfico foi, aocontrário, desde o início, um episódio rico em transgressividade em relação às tendênciasgerais de oferta e da demanda cinematográfica da época, mas produtivamente bem maiscircunscrito e comercialmente em tudo marginal, ainda que culturalmente vistoso”. Segundoeste autor, não foi a restauração moderada que acelerou o processo de marginalização,jogando com os mecanismos diretamente repressivos dos quais dispunha, quanto sua mesmareação de rejeição por parte do mercado, leia-se público, que além dos parâmetros externos,“pouco mudara e continuava a amar os mesmos contadores de estórias – e as mesmas estórias– que o havia deliciado nos anos do fascismo antes do ciclone da Guerra”. Como já dito, o mesmo autor ressaltava a projetualidade do herdeiro Cinema Novo brasileiro que justamentefaltou ao Neo-realismo.

Embora em acordo com Miccichè, de que não foram somente as forças externas adecretarem o fim do Movimento italiano, o que não teria ocorrido naturalmente se houvesseum projeto e se não existissem tantas contradições e conflitos internos, é produtivo analisar opercurso, reconstituindo os fatos que marcaram e fizeram o próprio Movimento, como oprocesso de debate e constituições de leis para o setor que acabaram por se constituir emmecanismos repressivos e os papéis desenvolvidos pelo novo governo e as associaçõesculturais, assim como o surgimento de comitês de defesa e agitação, manifestos emanifestações públicas, e o reflexo destes fatos na produção artística. Fatos que escreveram ahistória da escola cinematográfica italiana do pós-guerra, ou seja, “a pequena parábola docinema neo-realista”, que diz respeito aos aspectos político-sociais e produtivo-econômicos.

É ponto pacífico que o início com a Guerra de Libertação e o espírito coletivo surgidodesta fornece o material para o surgimento do Movimento. Percorrer em detalhes esteimediato pós-guerra e nos desdobramentos e relações de instituições em reorganização com osetor cinematográfico (1943-1953) se faz necessário, pois é daí que tiramos os elementos maisimportantes para uma avaliação crítica do Neo-realismo em sua dinâmica complexa entre asforças e contradições internas e as forças externas, para avançar no entendimento do mesmo,augurado por Carlo Lizzani

1945-1946: Governo provisório e Comitato di Liberazione Nazionale – CLN, a ComissãoAliada e o Comitato Temporaneo per la Cinematografia

O imediato pós-guerra é o momento da Comissione Temporanea per laCinematografia, ainda com as negociações do Tratado de Paz, da reorganização dasinstituições, com um novo governo de transição da CLN – Comissão de Liberação Nacional que fornece a primeira lei que regulamenta o setor, após o período fascista. Era o momento datransição por excelência, pois com o fim da Guerra e o caos produtivo e social e a necessidadede recomeçar do zero a reconstrução do País, tudo era precário e provisório. Umatransitoriedade e tensão que permeiam todo o Movimento, na verdade o que o alimenta emantêm vivo. Parece que o neo-realismo tira da tomada de “consciência” (e a Guerra fornecea “experiência8”) da vulnerabilidade e miséria do ser humano (da sua “finitude”) a sua força,mostrando-se como uma verdadeira “arte de resistência”.

As dificuldades que o marcaram o Neo-realismo, e que subsistirão por muito tempoainda, certamente não o determinaram, mas o constringiram a encontrar soluções das quaistirou a sua força e genialidade. “Assim como acontece com as verdadeiras correntes estéticas,é o fato que determina a teoria, e não o oposto”, como afirma Leprohon9.

O neo-realismo é fruto de uma complexa dinâmica e, principalmente do dialéticoconfronto entres as diferentes forças em jogo durante e logo após a Libertação. A negação dopassado fascista na transgressão das normas e cânones estéticos na cinematografia do regime(bases culturais), que retornam em certas práticas de alguns políticos, que a partir da eleiçãode 1948 definitivamente tomam a direção do País, passado e valores dos quais ele nãoconsegue se livrar e continua combatendo a partir da segunda lei (1947) que regulamenta acinematografia (bases econômicas e políticas). As normas do período Andreotti (MarioAndreotti, subsecretário do Spettacolo e depois Ministro) que não deixavam a dever às leisfascistas no que concerne à censura e aos contributos e benefícios maliciosamente articuladosde modo a comprometer empresários e produtores e assim obter o controle total do cinema naquele País.

Ainda poucos dias após a libertação de Roma (1945), enquanto Cinecittà havia sidotransformada em campo de refugiados, em uma sala de Via Veneto, nº 33, requisitado etransformado, por sua vez, na sede da Comissão Militar Aliada, nos escritórios da FilmBoard, representantes das forças armadas aliadas, alguns representantes dos trabalhadores noespetáculo, dos industriais do cinema, pode ser identificada a primeira “cena” explicita dabatalha que deverá travar o cinema italiano. O Almirante Stone, representante dos EUA nasForças Aliadas, quem assume o lugar na poltrona reservada ao presidente, e diz calma edecididamente que: “o cinema italiano deve ser destruído10”. Diante da perplexidade de todospresentes e do embaraçoso silêncio que se seguiu a tal declaração, o almirante foi obrigado aesclarecer que “toda a legislação criada pelo fascismo deveria ser abrrogada”. Nas própriaspalavras do almirante norte-americano, o cinema italiano foi inventado pelos fascistas e,portanto, deveria ser suprimido. E deveriam ser suprimidos também os instrumentos quederam corpo a esta invenção.

Deve-se registrar que todos os setores, o cultural, ou melhor, o cinematográfico era oúnico não contemplado com verbas pelos americanos no plano de reconstrução do País. E nãofaltaram inclusive projetos, como o da construção de uma cidade cinematográfica em Firenze(que acaba por ser um documento a testemunhar as disposições dos EUA com relação àcinematografia italiana), conforme documenta um relatório confidencial do ExércitoAmericano da época, que apontava a renascente cinematografia italiana como uma ameaça,portanto devendo estar fora das verbas destinadas à reconstrução, ao contrário dos outrossetores da indústria11.

O primeiro passo para o domínio do mercado pelos americanos era constituído pelaabrogação de todas as normas protecionistas dos filmes italianos. Um dos pontos de maiorpolêmica eram as propostas concernentes ao reembolso de uma quota da taxa fiscal e aobrigatoriedade de programação a favor do filme italiano. Além da instituição de uma taxa dedublagem de películas estrangeiras, reivindicada pelos trabalhadores, como forma de criar mecanismos que limitassem a importação de filmes que viriam à tona a seguir. Aliás, os doisprincipais pontos de discórdia tanto na primeira discussão, com em todas quatro normativasque surgiram no período do pós-guerra (respectivamente a de 1945, de 1947, de 1949 e 1956).

Fruto de intensas negociações com participação ativa da EUA nas Forças Aliadas, emoutubro de 1945 é promulgado o primeiro “decreto-legislativo luogotenenziale” para umanova ordenação da cinematografia italiana, e corresponde à estação 1945-1946. Sãoabrrogadas todas as normas do regime fascista, mas se mantêm uma contribuição de 10%sobre a bilheteria a favor da produção de filme longa-metragem.

Lorenzo Quaglietti destaca que a completa liberdade da nova lei concedida pelo artigo1º à produção cinematográfica aliada àquela pequena ajuda oferecida à produção nacionalpermitiu às empresas, que não haviam na verdade suspendido completamente suas atividadesprodutivas mesmo durante a Guerra, a aumentá-las e à numerosas outras de retomarem ou atéde iniciarem suas atividades. Desse modo, a indústria italiana se torna lentamente emcondições de retornar à produção e, na estação 1945-1946, são colocados em circulação 50 filmes.

Alguns números são indicativos: em 1945 (ano coberto só em mínima parte pelodecreto nº 678) os filmes produzidos foram 25, mas 65 em 1946 e 70 em 1947. “Seanalisarmos os vinte cinco filmes de 1945 sobre o metro da qualidade, o resultado médio é deum nível discreto com um par de filmes de maior empenho (Le miserie del signor Travet deMario Soldati e Il testimone de Pietro Germi) e uma “ponta de diamante”: Roma, città apertade Roberto Rossellini”. A realização deste último filme, distribuído pela Minerva, tem umahistória exemplar e notória. E é importante ressaltar que a sua importância no primeiromomento não é tanto artística quanto a perspectiva aberta por este filme de RobertoRossellini. Pois foi Roma, città aperta a afrontar em primeiro lugar a temática e a inaugurarum estilo que darão à produção italiana um caráter nacional próprio, abrindo as portas daexportação, dos mercados europeus antes e, depois, mundiais. Entretanto, Roma, cittá apertapor si só faz uma história à parte e pertence à História da arte cinematográfica, não à crônica da produção, mesmo que também para esta crônica, como todos os filmes do mesmo valor epeso, desempenhe um papel de extrema importância também no aspecto econômico-produtivo.

Afinal, o filme que pouco depois receberá a etiqueta “neo-realista” abriu as portas domercado externo para o cinema italiano. Roma, cittá aperta foi vendido nos Estados Unidospor três mil dólares e conseguira arrecadar mais de um milhão de dólares14. É importante aconstatação deste fato já que pela primeira vez depois do período de ouro precedente àprimeira guerra mundial, a produção cinematográfica italiana ganhou peso no âmbitointernacional tornando a Itália de país exclusivamente importador, também exportador.Mesmo que “os bons filmes tenham arrastado os medíocres e, também, os péssimos15”. Dequalquer modo, aumentou para os produtores o incentivo a realizar filmes, de fato elevando onúmero da produção de 25 para 65 em um ano.

Constatamos que em 1946 os filmes de produção italiana saltaram de 25 para 65subdivididos em três das 48 casas de produção, das quais somente 8 realizaram mais de umfilme e precisamente: Lux (6), Excelsa (4), Scalera (4), Orbis (3), Titanus (2), Áurea (2), Ref(2), CVL (2). Pelo menos 10 dos 65 filmes realizados em 1946 eram de nível artísticosuperior à média e destes 10, pelo menos 5 eram importantes. São eles: Paísà, Sciuscià, Ilsole sorge ancora, Um giorno nella vita, Vivere in pace. Eram cinco filmes que prosseguiam,desenvolvendo e enriquecendo, o veio descoberto por Roma, città aperta.

O triunfo, no entanto, dura pouco, pois imediatamente depois da feliz explosão deRoma, cittá aperta, começava a tornar-se difícil. Com a nova lei que teve participação ativadas Companhias hollywoodianas representadas pelas Forças Aliadas, é dado também enormeimpulso à circulação de filmes estrangeiros na Itália. E com o público ansioso pelas fitas americanas das quais tinha sido privado durante o período fascista, e bem “educados” nogosto pelas películas dos “telefoni Bianchi” do mesmo regime (“telefones brancos” – comoficou conhecido o cinema de entretenimento produzido pelo regime fascista), ambos produtosde evasão (cujos aspectos os neo-realitas combatiam) somados normas e acordos quepromoviam a invasão do mercado pelas películas norte-americanas, em breve também ostentáculos da “censura” que retornará: estavam colocadas as cartas na mesa que iriam decretaro fim da renovadora corrente cinematográfica, que não possuía na verdade um projeto sólidopara o enfrentamento, dali a tão breve tempo.

O decreto de 1946 não tinha dispositivos adequados para defender o cinema nacional.O Film Board com ele havia conseguido duas vitórias fundamentais: a abolição de qualquerlimite às importações de filmes estrangeiros e a exclusão na lei, de qualquer norma, ainda queindireta, que vinculasse a exibição para favorecer a projeção dos filmes nacionais. Entre asvárias “liberdades” que o Film Board impôs e que o decreto 678 sancionou estava o direito àcirculação na Itália dos filmes estrangeiros dublados no exterior.

Desse modo, o terreno estava preparado para as Companhias americanas que, atéentão, haviam atuado por interposta pessoa, delegando ao Film Board as negociações dascondições econômicas e políticas gerais e atribuindo ao PWB as funções próprias de agênciade distribuição dos seus filmes, retomassem o controle direto da situação. Logo, todas elas,“uma a uma, a “Metro Goldwyn Mayer”, a “Paramount”, a “Twenty Century Fox”, a “WarnerBros”, a “R.K.O.”, a “Universal International”, reabrem suas filiais na Itália, enquanto aColúmbia se apoiava, como no passado, à “Ceiad”, da qual possuía a metade do capitalacionário e a “United Artist” por sua vez à “Artisti Associati”, mesmo reservando-se o direitode dar a sua produção a quem desejasse e fosse disposto a pagá-la em dinheiro”.

Importante ressaltar que a quota de arrecadação dos filmes italianos que entre 1938 e1942 havia passado de 13% a 40% torna a cair em 1946 para 10% e somente dez anos maistarde conseguirá alcançar o percentual do período ante-guerra.

A “Comissão Temporária para a Cinematografia” deixa lugar para o “Serviço para aCinematografia” ainda no período de transição em 1946 e a ANIC organizou-se e passa a sechamar ANICA – Associazione Nazionale Industrie Cinematografiche e Affini – acolhendo noseu corpo os distribuidores e depois também as empresas de imprensa e divulgação.

Em maio de 1947, resultado de concorrido debate, o primeiro que participa GiulioAndreotti, vem emanado um novo ordenamento da industria cinematográfica nacional no qualo contributo automático para o filme nacional é aumentado para 16%.

Em decorrência da política empreendida pelo novo sub-secretário com base na novalei de maio de 1947, enquanto em 1947 os filmes produzidos foram 68, já em 1948 anointeiramente coberto pelos benefícios da lei, o número dos filmes produzidos cai para 48. Em1948, em concomitância com a instalação de Andreotti e sua política na Via Veneto, sendo onúcleo central da produção representado pela Lux.

Os números relativos, à propósito, são eloqüentes: se Roma, città aperta foi o“campeao de bilheteria” da estação 1945-1946, a estação sucessiva via na ponta Rigoleto doreabilitado Gallone, seguido por Genoveffa di Barbante de Primo Zeglio e por Áquila Nera deRiccardo Freda, enquanto na estação 1947-1948 dominaram Come si persi la guerra de CarloBorghesio (com Erminio Macário) e La signora delle camelie, outro filme-ópera de CarmineGallone. Dominavam no que diz respeito os produtos nacionais, porque na realidade omercado ficou inteiramente nas mãos de Hollywood, que naquele período inundou o País coma produção de seis anos, ou seja, dos anos nos quais tinha sido interrompido grande parte dofluxo dos filmes norte-americanos na Itália, por culpa do monopólio ENIC antes e depois pelaGuerra. Enfim, prevalecia de modo geral o produto americano. “E as raras vezes nas quais opúblico italianao procurava um filme nacional, preferia Gallone em vez de Rossellini,Malasomma no lugar de De Sica”.

Das 48 casas produtoras que em 1946 produziram 65 filmes, somente oito realizarammais de um filme. Em 1947, a produção dos 67 filmes concorreram entre 47 produtoras e ainda oito foram as que realizaram mais de um filme também., precisamente: Lux (9), Excelsa(5), Scalera (3), Pegoraro (2), Cinopera (2), OFS (2), Romana (2), Amoroso (2).

O período de 1947 a 1948 foi bastante combativo: em dezembro de 1947 o primeiroato da censura20, a constituição do primeiro “Comitato per la Difesa del Cinema” e seusmanifestos com polêmicas nos jornais entre trabalhadores e Governo, culminando com aseleições políticas21que confirmam o desejo de boa parte da população do retorno dos valoresconservadores perpetuados pelos filmes de evasão ao estilo do velho regime e na direção doPaís, que dá a vitória à Democracia Cristã do sub-secretário Giulio Andreotti. Conseqüentescisões nos Círculos Culturais e entidades representativas também dos profissionais do cinemae o início do mais duro combate dos cineastas renovadores.

O ano de 1948 é cheio de contradições. Enquanto Andreotti vence a campanhaeleitoral e Diego Fabri das colunas da “Fiera Letteraria” faz um convite ao reconhecimentoda “majestade dos valores tradicionais”, o cinema lança algumas “obras pimas” – Ladri diBiciclette, La Terra Trema, Germânia Anno zero. O que, entretanto, se explica com o fato deque estes filmes haviam sido concebidos antes do 18 de abril e chegaram às telas no momentopara eles menos propício.

Era o período que antecedia a discussão da lei que se chamará Andreotti de 1949 e quepor muito tempo o secretário irá protelar. O número de filmes importados em 1948 dá umaidéia precisa da seriedade da ameaça representada pelo filme americano: 864 filmes, dos quais90% americanos. E a lei Andreotti entrará em vigor em dezembro de 1949.

Na onda do triunfo, Andreotti aproveita para entregar centros de importância vital docinema italiano nas mãos da Democracia Cristã. A operação não se limita ao setor econômico,mas inclui também o cultural: Centro Sperimentale di Cinematografia, revistas especializadascomo “Bianco e Nero”, “Cinema” e tc, Círculos de Cinema. Com os Círculos e com cineastaso objetivo é alcançado totalmente, tanto que àquela altura a batalha política em defesa do neo-realismo entrou na ordem do dia.

O número 6 da Revista Cinema dirigida por Adriano Barracco, de 15 de janeiro de1949, abre com um editorial denunciando que “havia um único filme sendo realizado no País,e este era estrangeiro.

Logo, “as forças vivas do cinema italiano”, refeitas da desorientação e desanimo apósa derrota eleitoral reunidos no Comitê de Defesa se reencontram na Piazza del Popolo, numcomício organizado pela CGIL, no domingo 20 de fevereiro de 1949. O tema é a falta detrabalho, a necessidade de oposição ao dumping continuado das Mayors de Hollywood. Nopalco dos oradores, ao lado de Di Vittorio estão Blasetti, Gino Cervi, De Sica e AnnaMagnani, membros do Comitato di Difesa Del Cinema Italiano (o segundo dos tantos após oprimeiro deles criado um ano antes, em fevereiro de 1948, após o primeiro ataque dacensura): “um dos inúmeros comitês de vida efêmera que proliferarão nos anos seguintes” aolado dos sindicatos e das associações de categorias. Mas a manifestação de Piazza dlePopolo não causa muitos danos à Andreotti e a Democracia Crista.

Dois anos depois da 2º lei, com duas leis de 26 de julho de 1949 e de 29 de dezembrode 1949, é novamente reordenada e aperfeiçoado o inteiro complexo de normas relativas aoscontributos a favor dos filmes, fixados definitivamente em 10% para os longa-metragens e18% para cinejornais e documentários.

Durante todo este período, a estrutura produtiva italiana é de novo pulverizada em umgrande número de produtores, que às vezes nascem para um só filme, que não tem condiçõesde fazer frente os americanos que dominam os 88% do mercado italiano em 194824. De 1945 a 1949 são importados em média 500 filmes por ano e somente em abril de 1951, com umacordo ANICA – MPEAA, este número é reduzido para 230 e esta média é mantida constanteno decênio sucessivo.

A quota das entradas de bilheteria dos filmes italianos que entre 1938 e 1942 haviapassado de 13% a 40% , torna a cair em 1946 a 10% e somente dez anos mais tarde retornaráa alcançar o percentual do ante-guerra26.

Com a lei Andreotti (1949) as classes empresariais estão satisfeitas até porque se dãoconta que festa da autarquia não retornará. Por outro lado, os exibidores, isto é, os que maistemiam medidas coercitivas com relação ao livre programação de filmes se dão conta de que asituação não é tão feia quanto havia sido pintada, após a pressão exercida por cineastas etrabalhadores na Piazza del Popolo. De fato, Andreotti teve a perspicácia de unir aprogramação obrigatória de filmes italianos por um certo número de dias com uma série debônus fiscais com concessão de notáveis isenções fiscais. A partir daquele momento, ele setransforma para industriais e exibidores no salvador do cinema italiano, no que diz respeitocertamente à iniciativa privada.

A grande crise do cinema italiano do pós-guerra em 1953 (fim do Movimento?):


A escola italiana iniciou a sua guerra particular no fim da Grande Guerra e resistiu até1948 para os mais exigentes, segundo outros entretanto, sobrevive até exatamente 1953,quando se dá a grande crise, embora os mais generosos a estendam até os anos 60 e até 70.

Nomeado sub-secretário para o Espetáculo em 4 de junho de 1947, Andreottipermaneceu definindo e dirigindo a política cinematográfica na Via Veneto até 20 de agostode 1953. Quando nas eleições políticas de 1953, passa o cargo a outro. No entanto, os efeitosda lei Andreotti não tardaram a manifestar-se.

De acordo com Lorenzo Quaglietti, os problemas da primeira crise do cinema italianoocorrem no início de 1954. “Pois o Partido dominante parece incapaz de dirigir um setor quehavia obedecido docilmente ou quase a um homem habilidoso nas negociações comoAndreotti. O governo prorrogava a lei batizada com seu nome por um ano. Algumas falênciastransformaram o alarme em pânico. Logo, uma nova lei que consentisse ao cinema italiano aretomada era indispensável. Entre 1954 e 1956 não se passou um dia sem que as associaçõesde categorias, os Círculos Culturais, os organismos sindicais e a própria imprensa nãodiscutisse a nova lei, para apresentar diferentes exigências individuais, para tutelar osrespectivos interesses. Andreotti participava ativamente do debate, a essa altura comoMinistro, continuando no controle do cinema.

Em 19 de janeiro de 1956, com 19 dias de atraso em relação ao prazo final da lei de49, que há havia sido prorrogada até para 31 de dezembro de 1955, a comissão especialencarregada de analisar o projeto de lei inicia os trabalhos. O conselho dos Ministros aprovouo projeto nos primeiros dias do mês de dezembro de 1955.

O reflexo na produção não poderia deixar de se sentir depois de anos de censura emecanismos repressivos e da lei do desempenho comercial. “O progressivo abaixamento donível da produção nacional, a crise que apertava a nossa cinematografia, a sensível distanciado público em relação ao filme italiano tinha na censura a sua causa principal. Na censura enos mecanismos burocráticos da lei de 1949”27. Mas evidente que uma liberalização doscritérios censórios (que são ainda aqueles das lei fascista de 1923) teria abatido também aburocracia. “Certos sistemas instaurados, indecisos entre a chantagem ou a ameaça e opaternalismo, não seriam mais eficazes sem o apoio de um instrumento contra o qual osprodutores mais audaciosos, se existissem, obviamente, não tinha armas para se defender”,argumenta Lorenzo Quaglietti.

Veio à luz finalmente em 31 de julho de 1956 a nova lei que regulamentava acinematografia italiana, a quarta nos 10 anos que se completavam do fim da Guerra, após anecessária discussão na comissão legislativa especial do Senado, que fez algumas modificações e tornado indispensável a provação da Commissione Speciale Parlamenetare.Esta lei regulamentou a atividade cinematográfica italiana até 30 de junho de 1959. Esteperíodo coincide, ou melhor, cobre (pois há a diferença de 6 anos) aquele considerado porCosulich, por exemplo (que escreve de dentro das trincheiras do movimento), como a estaçãoneo-realista.

No entanto, “a crônica dos dados da produção italiana de 1945 a 1953 se resume emduas cifras: 25 e 161. Pois foram 25 os filmes realizados no ano de 1945; e 161 os realizadosem 1953”, escreveu Lorenzo Quaglietti28. Como indica este autor, os anos respectivamente denível quantitativo mais baixo e mais alto. Entre os dois, está o ano de 1948, denso deicognitas, incerto e por muitos motivos até mesmo dramático e também do apogeu, que nosambientes da produção assumiu contornos de “sonho”, se não de suplantar, pelos menos deincomodar a indústria hollywoodiana e que, com efeito, suscitou do outro lado do Oceanoalguma apreensão (que seja só pela fraqueza interna mais do que pela força do frágilconcorrente italiano).

Como afirmara Lino Miccichè, “Neo-realismo” foi, sobretudo, o nome de umabatalha, de um fronte, de um conflito: aquele que os fautores daquela “ética da estética”conduziram contra os fautores de uma estética (aparentemente) sem ética”, ou seja, de umaprática artística que fingindo-se autônoma das coisas do mundo, é funcional à suaconservação já que é o “espetáculo” que “distrai” das penas que ele gera”.

É possível, como visto, através da reconstrução dos tortuosos caminhos de açõespolíticas, meandros jurídicos e a produção cinematográfica, conhecer melhor as “batalhas”que fizeram a história deste Movimento. A história de uma “escola” cinematográficarenovadora, de uma “arte de resistência”, de libertação do cinema hegemônico, queparadoxalmente prolonga-se no tempo fora do seu território, já que frutificou nos novoscinemas espalhados pelo mundo, e que representa um divisor de águas para a própria Históriado Cinema.

Alemanha, Ano Zero (1948) legendado em Português